Amigos que chegam de longe *

Eloí Elisabet Bocheco

II
Meu pai conta que mandar livros pelo correio é uma curtição pra ele também: ir às livrarias ou aos Sebos procurar os livros, botar no envelope, escrever um bilhete – se tá com pressa, ou uma carta – se tem tempo, escrever o endereço do destinatário e o do remetente e, por fim, levar ao correio o livro que vai fazer a viagem do nortão do Brasil para Moinhos.
Um dia, chegou um livro bem velhinho. Pensei que ele tivesse encontrado num Sebo mas, lendo a carta, vi que tava enganado...

Leo,
Hoje, envio-lhe uma preciosa relíquia: um livro com 34 anos de idade, com as folhas amareladas, a capa sem lustro e com cheiro de tempo transcorrido.
Porém, estas páginas amareladas pelo tempo, abrem-se para um reino que jamais perde o vigor e a majestade. Nele, passei horas inesquecíveis, guardadas para sempre na memória. Os livros que lemos e amamos na infância tornam-se companheiros para a vida toda, Leo.
Fiquei tão fascinado por este livro, quando o li, emprestado da casa do Edu da colina, que esse menino, tocado pelo meu encantamento, disse que não precisava devolvê-lo, que aceitasse o livro como um presente de amigo. Foi assim que me tornei o feliz possuidor das Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, 24° edição, ano de 1971, editora Brasiliense.
Meu maior desejo, na época, era que os personagens fossem de verdade. Era um custo separar-me deles e, para prolongar a convivência, relia a obra vezes sem conta. É um livro de prodígios, de conversas deliciosas, de amoroso e divertido convívio.
Ainda hoje sinto o olho vivo de Emília perto de mim, olho que enxerga a vida até o caroço. O som de suas reinações nunca mais saiu de meus sentidos; Emília reinava com os “pezes” esparramados na liberdade.
Passo para você, Leo, este reino que habitei em dias que longe vão. Entre e seja muito feliz!
Com as saudades de seu pai

Joaquim



*da obra Roda Moinho (inédito)