Leituras&Leitores
Reporto-me à carta de Lídia Sarmento, publicada neste Jornal, na edição número 31 (maio de 2007), em que a
educadora pergunta o que fazer para que diretores de escolas priorizem o livro e compreendam que a leitura é
uma prática que requer alimentação permanente. Um livro lido puxa outro, e mais outro, e mais outro... e há
que se ter acervo atualizado e dinamizado para dar conta da procura.
Entendo bem a preocupação de Lídia porque também faço as mesmas perguntas, só que não somente em relação
aos diretores de escolas, mas a todos que comandam os destinos da educação, especialmente nos Estados e
Municípios. Como fazer essa gente entender que leitura e educação são como unha e carne? Que não existe
educação de qualidade sem investimento na capacidade leitora de crianças e jovens? Que a leitura é condição de
desenvolvimento?
No chão de serragem das escolas é que a gente sente, de verdade, o que é e o que significa o descaso com a
prática da leitura. Aliás, reporto-me à entrevista da escritora Georgina Martins, do RJ (edição 30 – maio de
2007), em que ela fala sobre livros empilhados em banheiros de escolas, quando deveriam estar circulando pelas
mãos das crianças. Por aí se pode avaliar o valor que algumas diretorias de escolas dão à biblioteca! Nesse
chão de serragem, ouvem-se coisas do tipo: “não há necessidade de alguém para cuidar da biblioteca o tempo
todo. Bastam algumas horas. É só ir lá, arrumar os livros e pronto”. “O livro não pode ser emprestado porque
eles (os alunos) destroem”.
E quando a diretoria, achando que na biblioteca não tem nada para fazer, manda a bibliotecária(o) contar o
patrimônio da escola: contar carteiras, cadeiras, mesas e outros materiais? Tirando-a (o) do trabalho de
dinamização da biblioteca, da luta por mais livros, do trabalho mesmo de feiticeira que ele (ela), o
bibliotecário(a) precisa fazer para atrair leitores? Chega a ser patético, mas isso acontece nos chãos de
serragem das escolas. Essa gente toda, que não entende o poder emancipatório do livro e da leitura, francamente,
não podia estar comandando a educação. Além de não promoverem a leitura, ainda atrapalham os mediadores
apaixonados por livros que querem realizar um trabalho conseqüente. São um estorvo para o desenvolvimento de
um Estado, de um município. As próprias crianças, quando descobrem o livro, quando começam a perceber a
diferença que faz na vida de alguém ser leitor, expressam com clareza, aquilo que os “atranvacadores” da
leitura não tem noção porque não são, eles próprios, leitores. “Quem não lê perde a inteligência que o livro
dá” – palavra de uma leitora juvenil, que merece ser ouvida.
O fato é que temos em nosso Estado e em nosso país, mediadores de leitura maravilhosos, educadores ou não,
gentes simples do povo ( açougueiros, catadores de papel, costureiras) ou doutores altamente capacitados, que
fazem coisas incríveis para botar gente e livros em sintonia, mas, temos também os “atravancadores da leitura”,
e estes são em maior número. Estes são aqueles que não ajudam e ainda estorvam os que querem mover ações
leitoras. Podemos encontrá-los nos altos escalões e também no chão de serragem das escolas.
Infelizmente, não temos tradição de leitura, não temos uma cultura de leitura, o livro nunca foi prioridade,
especialmente para o Brasil oficial, que empurrou o povo para o analfabetismo durante séculos. Nossos príncipes
formados em Harvard, Oxford, Princenton, Cambridge, sempre foram muito egoístas no que diz respeito à prática
da socialização da leitura. Nunca tiveram a real intenção de mover as ações necessárias para que as gentes do
povo também tivessem acesso à riquíssima memória de leitura que eles, os príncipes tiveram.
Tenho muita fé que ainda teremos uma tradição forte de leitura em nosso país. Projetos e pessoas
batalhadoras para tal, não faltam - é só dar uma olhada nos projetos cadastrados no
PNLL ou no Vivaleitura para sentir o peso e a
importância dessa luta. Ainda vamos vencer os “atravancadores” da leitura nos Estados e Municípios, no
cansaço, ou no empurrão mesmo, através de um voto-leitor, coisa que eles têm medo, porque voto-leitor, em
geral, não vai para “atravancadores”, mas para gestores sérios e de excelente caráter.
Para finalizar, quero dizer que Escolas-leitoras cheiram bem, são arejadas, dá vontade de ficar dentro
delas. As relações dentro de uma Escola-Leitora são muito mais humanas e cidadãs, pois onde há uma comunidade
de leitores há paixão, envolvimento, mobilização, atitude, reação, e muito mais alegria de viver também.
Rose Mare Zancanaro Criciúma - SC
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