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Alqueluz - uma aventura das arábias
Yedda Goulart
Escritora, Mestre em Letras UFSC e Representante Regional da AEI-LIJ em SC
– Alflayla wa-layla... esta expressão introduz o leitor no mundo dos contadores de histórias e a partir de então somos viajantes de um tempo e de um espaço medidos em anos luz, e no turbilhão da imaginação, se transpõem séculos e quilômetros numa aventura das arábias...
Alqueluz é a gema do ovo, o cerne da fábula, a cidade atemporal que nasceu de um ovo da Roca, a grande águia, ave senhora dos espaços.
Nem os gênios que a habitam saberiam dizer quando a cidadela foi criada. E é para Alqueluz – que os personagens desta história de Luiz Antonio Aguiar precisam se transportar para salvar a cidade que gera o fantástico – maravilhoso, gênero narrativo, porta voz da intuição que aponta para o transcendente, ou universo paralelo que habita nosso inconsciente, ou melhor, dizendo, para uma consciência mais abrangente de que existem mais coisas do que podemos explicar com nosso olhar racional.
Para tanto, o autor transgride todas as barreiras da verossimilhança, a começar pela transgressão da temporalidade cronológica vertiginosa, na qual somos envolvidos viajando do século XXI para o século XIII, ano de 794, quando Izzedim, de 84 anos, avô de Layla, Maria e Bié... tinha apenas 13 anos.
A aventura que começa no Brasil do séc. XXI, mais de mil anos depois, inicia quando o avô, um exímio contador de histórias, desaparece repentinamente de seu escritório onde estivera contando histórias para Layla e é reencontrado com 13 anos quando vivia como um garoto do deserto.
O cerne da história é esta inserção de um tempo do conto maravilhoso para o século XXI e vice-versa. Vamos a Bagdá do século VII – via “leva-me Sésamo”.
A partir daí a convivência é com viagens da protagonista fora do corpo, levada por algum “djin” (gênio) que pode estar escondido na escultura de um sapo no escritório do avô, ou por Schaitan, o gênio do mal ou ser invisível.
Somos levados, num piscar de olhos, para Bagdá – “Madinat ai Saiam” – cidade da paz, então o centro do mundo, e lá reencontramos ninguém mais, ninguém menos que Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, Ali Babá e Simbad.
Na verdade, nos reencontramos com as clássicas fábulas que plantaram fantasias fantásticas em nossa infância e juventude.
O encontro dos personagens com as maravilhosas “Mil e Uma noites” de Sherazade, e com a própria contadora, insere os personagens do século XXI, no castelo onde ela vivia, justo na última noite, ou seja, na mil e uma, e ajudam a salvá-la da morte certa viajando no tapete mágico de Aladim.
A intertextualidade com os contos árabes é evidente e utilizada como forma de tecer a trama narrativa. Acaba sintetizando as belas aventuras das arábias, que alcançaram como o avô de Layla o século XXI e o novo mundo, sendo subtítulo do livro.
A ambientação é reconhecida através da descrição de cenários, alimentação, vestimentas, palavras do vocabulário árabe, denominações de gênios (os djins) demônios como Shaitan, o Mogabino e a Algula, além de animais como o uróboro (serpente que engolia o próprio rabo).
Há cenas fortes e surreais como o ataque do Mogabino e da Algula sugando o sangue de suas vítimas, beduínos que buscavam os oásis de onde os dois soterrados se levantaram com uivos terríveis para livrar-se de Schaitan – o demônio dos demônios a quem tinham vendido a alma em troca de poderes.
Sonho? Ou uma realidade inexplicável a viagem de Layla e seus irmãos arrancados do Brasil no século XXI pela língua de um sapo de jade da biblioteca de seu avô?
As palavras demonstram todos os seus poderes de transformar realidades e são fortes coadjuvantes na composição do espaço e do cenário, pelas denominações de frutos e da gastronomia que nos fazem viajar para a Bagdá – capital do reino de Harun Al-Raschid.
São as frutas, as pastelarias, doces em calda de mel e salgadas, leite de cabra, figos, tâmaras e damascos; são as roupas – calças e blusas bufantes, coletes e chinelos; as djallabas – túnicas compridas com capuzes ou o keffia que cobria os rostos; a gallalya – túnica larga feito um camisolão e o suk de Al-Karah – mercado de Bagdá, labirinto de aventuras, perseguições e fugas inesperadas. Através delas um filme se desenrola ante nossos olhos e sentidos, o que revela a intensa utilização das figuras sensoriais, o uso da sinestesia.
Os personagens – Layla (tradução de lua com radical da palavra luz) é o narrador
onisciente que transita da fantasia para a realidade, que é levada como meio para a destruição de Schaitan, um belo garoto, na verdade, o senhor dos gênios do mal, “aquele que tem muitos nomes”, que a seduzira, que a enganara, que se apossara da lâmpada que o avô guardara. E a defesa de Alqueluz, objetivo destinado à Layla, vai se cumprindo através desta intertextualidade vertiginosa.
Layla é a personagem em quem os gênios do bem confiam, mas que dela se servem para subjugá-la aos seus poderes. Apesar da velocidade com que as coisas acontecem, e sem muitas opções, Layla mantém a lucidez para o relato mesmo daquilo que não entende e que “vê” através dos sonhos.
Ou seria apenas uma menina dormindo na poltrona do avô e misturando nos sonhos as histórias maravilhosas contadas por um velho imigrante árabe, no século XXI brasileiro?
Os irmãos menores entram na história aparentemente com a missão de demonstrar uma ingenuidade corajosa e dão um toque cômico como que para suavizar as terríveis tramas em que se metem.
Um recurso narrativo interessante também utilizado pelo autor é o corte na forma de contos. Para tanto, uma espécie de expressão, quase um refrão, os introduz:
“Alflayla wa-layla... Conta-se, mas as histórias vão-se transformando de boca para boca, à medida que são recontadas, como as paisagens do deserto que o vento não cessa de modelar... Alflayla wa-layla... Conta-se, mas o mundo das histórias está sempre envolto em brumas e, quando estas se desfazem, as histórias não estão mais lá.”
Há também Beremiz – o alfarrabista, um personagem de ligação, aquele velho sábio que tudo conhece e explica através dos contos, além dos contadores de histórias – os haqqi.
E desta forma, o autor vai nos levando através de sua trama narrativa a viver com os personagens uma grande e acelerada aventura nas arábias e, mais que isto, como num passe de mágica nos vemos penetrando em nossa própria história e no mundo das mil e uma noites da literatura clássica infantil e juvenil.
O autor consegue com os recursos da intertextualidade misturar tempos e espaços que incluem a infância e juventude de muito leitor adulto, que se vê conduzido e jogado pelos “djins”, contadores de histórias, para um tempo há muito esquecido.
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