A crise da leitura e
a arte de narrar
Dirce Waltrick do Amarante
Professora de Literatura Infanto-Juvenil na UFSC, onde desenvolve pesquisa de pós-doutorado
Num ensaio intitulado “Livros e crianças (sobre a literatura infantil)”, o ensaísta argentino Daniel Link
fala, recorrendo a uma retórica apocalíptica, sobre a crise da leitura, que, segundo ele, traz como
conseqüência o fim da literatura (da “literatura de verdade”, como Link faz questão de salientar): “a crise da
leitura, que se costuma dar por certa, mais cedo ou mais tarde afeta a escrita”.
A propósito, afirma Daniel Link, a boa literatura vem morrendo “nas mentes e nos desejos e na imaginação
das crianças pela mediocridade quantitativa do material que habitualmente lhes é oferecido. Poucos autores (...)
falam às crianças a partir da literatura. Poucos pedagogos mostram às crianças a literatura de verdade”. Link
alerta, portanto, para o desaparecimento dos leitores e da leitura, que hoje se reduz “à consulta de um guia
de programação televisiva ou à leitura gráfica de um jornal ou de uma revista de atualidades, concebido o
texto como mero comentário de uma fotografia ou de um esquema”.
Sem dúvida assistimos hoje a uma situação de crise, que se reflete precisamente na falta de criação de
novos leitores de Literatura, situação essa que se sobressai em países periféricos, como, por exemplo, os da
América Latina, que vivem sob a política do mercado editorial dos países centrais. Link conclui então que,
“destruído o público futuro, a literatura permanece enquanto privilégio de uns poucos (...). As massas já não
sabem que coisa é arte, que coisa é literatura, do mesmo modo que, poderíamos dizer, a literatura ignora o que
é massa (a massa de leitores)”.
O ensaísta argentino acrescenta ainda que, “desaparecidas essas comunidades de leitores, aniquilada a
possibilidade do acesso democrático (ainda que se trate de uma postulação meramente abstrata) aos bens
artísticos, o que desaparece é muito mais que a arte e muito mais que a cultura letrada (que tanto desdenham
hoje os apressados teóricos populistas da cultura): são os ideais universalistas desta cultura e da arte que a
alimentou durante séculos o que se perde”. Resgatar esses ideais (abstratos, certamente) e o “modo pelo qual
esses ideais abstratos poderiam tornar-se realidade é o que hoje deveria estimular os artistas, os pedagogos e
os teóricos” . Sabe-se, no entanto, que o primeiro passo e o mais importante seria devolver às crianças a
literatura.
Mas como devolver a literatura às crianças (aos leitores de um modo geral) num mundo que vive uma espécie
de canibalismo atrativo (“se a arte de narrar hoje é rara, a difusão da informação é decisivamente responsável
por seu declínio”, afirmava já no início do século passado Walter Benjamin), no qual onde tudo é visto
simultaneamente, onde não existe espaço para a experiência, onde, como diz o filósofo francês Jean
Baudriallard, “não é mais o contágio do espetáculo que altera a realidade, mas o contágio do virtual que apaga
o espetáculo?”.
Nadando contra essa maré de pessimismo, vemos renascer e crescer, não só no contexto nacional, grupos de
contadores de histórias (aqui na Ilha temos, por exemplo, a “Barca dos Livros”, ligada à Sociedade Amantes da
Leitura) e cursos para interessados na arte de narrar (é, de fato, como se vivêssemos privados de uma
faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências) com o objetivo de
aproximar sociedade e literatura.
Não se pode esquecer que antes de ser escrita, a literatura foi oral. O poeta nordestino Bráulio Tavares
lembra que “antes de serem recolhidos, copiados, revisados e publicados na forma que conhecemos hoje, os
poemas épicos de Homero, a IIíada e a Odisséia, passaram séculos sendo transmitidos deste modo: pessoas
recitavam, pessoas escutavam e iam decorando”. Mas “chega um período na história (...) em que a sociedade
precisa de versões escritas daquele livro. Começa então o processo de escolher, entre inúmeras versões de cada
trecho, qual a versão ‘certa’”.
No tocante à literatura transmitida oralmente, Bráulio Tavares alerta, todavia, para um certo preconceito
em relação a ela: “palavras como 'cultura' e 'literatura' fazem pensar imediatamente em bibliotecas, museus e
academias, mas essas duas coisas podem existir no mais remoto socavão do meio rural, ou em tribos indígenas,
ou em vilarejos africanos. Diz-se por aí que a literatura oral desses povos não tem as qualidades da literatura
escrita pelos ganhadores do Prêmio Nobel. É verdade. Também pode-se dizer que os ganhadores do Nobel
provavelmente não seriam capazes sequer de imitar as técnicas da memorização, recriação e performance de um
contador de histórias numa tribo tuaregue do Saara. Cada um o faz melhor que pode, dentro de sua própria
cultura”.
Mas se a literatura é um ato de fé (segundo o ensaísta francês Régis Debray), e se a fé é pelo ouvir
(Câmara Cascudo, citando São Paulo), a literatura oral tem seu lugar assegurado, ao lado da literatura
escrita, como “edifício” da cultura e da memória de um povo. O livro, segundo Debray, “o objeto pesado comanda
uma pesada afetividade. O peso esmagador, casto, quase mortuário, da cultura encarna-se nesses poeirentos
poderosos, paralelepípedos abruptos e ameaçadores”, que precedem a leitura. A literatura oral não se
materializa, mas bem ouvida, retoma como memória viva de uma cultura.
Braulio Tavares recorda que “um aspecto notável da cultura oral é o fato de que seus maiores guardiões são
os velhos, e esses velhos preservam essa cultura porque a absorvem na infância. É como se a cultura oral fosse
uma conspiração entre velhos e crianças, da qual os jovens e os adultos, sempre ocupados com as coisas práticas
do mundo, ficassem um pouco de fora. A criança escuta fascinada aquelas histórias, lendas, cantigas brincadeiras,
adivinhações que o avô, ou a avó, ou uma empregada velha, lhe transmite sem parar. Cresce, e esquece-se
daquilo. Quando chega à velhice, vendo-se cercado de netos, vem-lhe à memória sua própria infância: e ela
começa a passar adiante tudo aquilo que tinha aprendido, porque essa é também a maneira de reviver (ou de
fantasiar) um passado feliz”.
Entre a literatura escrita e a literatura oral percebe-se, certamente, uma grande diferença: “na literatura
escrita existe uma preocupação muito grande com a exatidão do texto, com a fidelidade ao original, com mil
cuidados para estabelecer sem sombra de dúvida cada detalhe do texto inicial. Fortunas são gastas em pesquisas
bibliográficas ou grafológicas para estabelecer o texto oficial de uma obra de Shakespeare ou de Camões (...).
Neste mundo, registram-se e autenticam-se versões de um texto, e cobram-se taxas por qualquer uso dele”. Na
literatura oral, em contrapartida, não existe uma versão oficial. “Não existe original: tudo é cópia. Como é
tudo feito na base da memória, cada versão é diferente da anterior”, portanto é difícil encontrar duas versões
exatamente iguais, mas isso, no contexto oral não importa, pois cada uma é tão legítima quanto as outras. Não
existe a preocupação em se ter a certeza que a história contada é exatamente daquele jeito. “Ela é aquilo que
está sendo naquele momento. Sua forma é a que aquele narrador lhe dá naquele instante; ela existe apenas para
as pessoas que estavam ali, naquele momento”. Assim como o livro eletrônico, a literatura oral nos põe em
contato com “textos” que não apresentam “arestas nem carapaças”, circulam em bibliotecas sem prateleiras e sem
muros, mas que necessitam ser guardados na memória e precisam do contato entre o narrador e ouvinte.
Decerto, como afirma Ricardo Azevedo, no prefácio do livro Literatura Oral para a Infância e a
Juventude, de Henriqueta Lisboa, “algo muito diferente ocorre nas tradições populares, para as quais a
arte costuma ser essencialmente a expressão de um determinado grupo. Pessoas de uma pequena comunidade rural
recontam (e recriam) e saboreiam juntas, contador e platéia, histórias que ouviram de seus antepassados.
Revivem (e reinventam) juntas, periodicamente, suas festas e ritos. (...) No costume do povo, as fronteiras
entre palco e platéia, o artista e o público, a criação e a recepção, são bem menores. Tudo é produzido para
ser compartilhado e vivenciado por todos (...). Várias dessas narrativas são contadas ainda hoje só que de
outras formas, pois, vale repetir, as culturas populares pressupõem um processo diversificado e vivo em
constante reelaboração”.
Acredita-se, no entanto, que tal processo esteja desaparecendo, pressionado pelas regras da cultura de
mercado, mas há quem ainda aposte nos velhos contadores de histórias para resgatar a cultura e devolver a
literatura às crianças.
O retorno dos narradores de histórias anuncia, no tocante à biblioteca, menos dogma e mais ludismo, menos
cânone e mais festejo (como afirmou Régis Debray ao se referir aos livros eletrônicos, esses ainda distantes
da maioria dos brasileiros). Os narradores, sem poder de autoridade, contam histórias, suas, mas que ultrapassam
as fronteiras da autoria, uma vez que todos podem manipulá-las. É uma literatura ao alcance de todos aqueles
que a ouvem como “leitores” e a recontam como “autores”.
É na arte de narrar, em suma, que a voz ganha papel de destaque, a mesma voz que, de acordo com Giorgio
Agamben, expressa uma negatividade (a memória da morte do animal), mas que conserva e recorda o vivente como
morto, sendo ela, enquanto linguagem humana, a tumba das nossas recordações e a herança que deixamos.
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