Amigos que chegam de longe *

Eloí Elisabet Bocheco

I
Desde a terceira série que recebo livros pelo correio, enviados pelo meu pai. Eu nunca sei que livro vai chegar porque ele avisa por e-mail: tá indo livro, mas não diz o título nem o autor, pro livro me pegar de surpresa.
Abrir o pacote e dar de cara com o livro que chegou de longe, que veio passando de mão em mão até chegar na minha é um lance muito irado. Se leio a primeira página e fico tipo ligadão na história, largo tudo e fico lendo sem parar.
Os livros nunca chegam sozinhos: vêm acompanhados de alguma coisa escrita pra mim. Eu acho que meu pai inventou a remessa dos livros pra dar um jeito na saudade. É como se ele viesse me abraçar cada vez que chega um livro na minha mão.
Quando o Dom Quixote das crianças chegou não me encontrou em casa; era de manhã e eu estava na escola. Não gostei muito do título porque não sou mais criança, mas quando vi o nome do Monteiro Lobato me interessei porque me amarro muito no que ele escreve.

Querido Leonardo, (Quando meu pai escreve Leonardo e não Leo, é porque vai falar super sério e vai usar umas palavras que eu vou ter que ir ao dicionário pra saber o significado...).
Vai chegar aí um dos personagens mais ilustres da literatura universal, ou, como diria você: um dos personagens mais irados da literatura.
Irado, teimoso, obstinado, arrebatado, ousado como são todos os que crêem no impossível, os que sentem saudades do que nunca viram, os que têm visões com as coisas inatingíveis.
Este caro personagem da literatura será apresentado a você por Dona Benta, hábil contadora, que você já conhece de outros livros. De quem eu falo? De Don Quixote de La Mancha, obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes.
Há quatrocentos anos, Don Quixote, este louco admirável, vem brandindo sua espada contra os desacertos e injustiças do mundo e, nem as imerecidas surras que leva no lombo, e os desenganos o fazem recuar.
A apresentação contará com a participação da turma do Sítio, com seus valiosos comentários especialmente de Emília, que foi quem descobriu os dois volumes enormes de Don Quixote, na prateleira e, depois de tombá-los ao chão, matando o Visconde, levou Dona Benta a contar as aventuras do herói da Mancha a toda a turma.
Don Quixote causou-me profunda impressão quando o li, apresentado por Dona Benta. A impressão e o fascínio só aumentaram quando mergulhei no texto completo, aí pelos 17 anos, e nisso eu já estava iniciando a faculdade de filosofia.
A cena dos moinhos de vento ficou gravada em minha memória. Eu nunca mais pude olhar para aquele moinho de vento, aí no alto do morro, sem me lembrar da batalha de Don Quixote com vinte ou trinta moinhos de vento que, para ele, era um exército de gigantes. A asa de um moinho o arremessa para longe, deixando-o todo alquebrado, e aí ele diz que o gigante Freston havia transformado os gigantes em moinhos.
Talvez por ter lido o livro no pátio do moinho, essa batalha do herói com os moinhos tenha sido o momento em que Don Quixote me conquistou inteiramente. Nunca mais eu iria esquecê-lo; ele seria alvo de minha admiração para sempre.
Quando a vida nos quebra as asas, Leonardo, talvez tenhamos que buscar dentro de nós essa teimosia do herói da Mancha: dizer que Freston transformou os gigantes em moinhos é só um modo de dizer que não vai desistir, nem entregar os pontos.
Bom, espero que você passe horas agradáveis lendo as aventuras de Don Quixote, resumidas pela palma excelsa de Dona Benta. E que o livro seja mais um companheiro em tua história de leitor, que tanto desejo ajudar a criar.
Com abraço carinhoso e bem apertado, de seu saudoso pai

Joaquim



*da obra Roda Moinho (inédito)