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Meu pai, minha mãe e os livros
No panteão das ternas lembranças de minha infância, vejo meu pai em uma rede, óculos, silencioso com o Milton Nascimento cantando, com um livro entreaberto nas mãos. Esta é a primeira e mais importante recordação que tenho da palavra escrita. Sua coleção de Western, era modesta, lembro-me até de alguns títulos ''A jornada do desespero; Varridos com chumbo; Buffalo BilI” entre outros, aguçou-me uma curiosidade sem fim, em pouco tempo meu mundo infantil passou a ser povoado por pistoleiros, índios, bandidos, cowboys e outras figuras míticas do faroeste.
Meu Pai, homem de poucas, mas, sábias palavras, nunca me falou porque lia, era um prazer vê-lo preparando-se para esses momentos de deleite, geralmente no fim da tarde, acendia seu cachimbo, dava algumas baforadas, mirava o infinito, como que buscando inspiração e só então volvia o olhar para o livro, deste momento em diante nenhum filho nem mesmo minha mãe ousava aproximar-se.
À minha Mãe, mulher de muitas e também sábias palavras devo a magia da Literatura de Cordel, geralmente ao anoitecer, naquele tempo não tínhamos televisão, jantávamos e esperávamos os vizinhos chegarem, seu Severino e Dona Maria, um casal de idosos também encantados pelas estórias do “Coco Verde e Melancia, Pedro Malazarte, Zé do Caixão, etc.” eram os primeiros a chegarem, à luz de lamparinas, fazíamos, eu e meus irmãos, um semicírculo em tomo de minha mãe, silêncio de monge, e ela então, lia as estórias de cangaceiros, de casais apaixonados, de alma penada e outras mitologias do folclore brasileiro, depois íamos dormir, um misto de medo e alegria muitas vezes retardava o sono, sentíamos o quarto ser invadido pela mula-sem-cabeça, ou o terrível Mapinguari, gigante de um olho só que adorava comer crianças, essas estórias ajudaram a formar juntamente com os personagens do oeste de meu pai minha mentalidade infanto-juvenil.
O que ficou das leituras de meus Pais? O exemplo. Para mim, raríssimas pessoas foram tão marcantes quanto eles. Aos meus Pais com a mesma ternura, também na minha infância, acrescento uma supervisara, dona Maria Laurinda Groff, foi quem me emprestou os primeiros livros, depois no ensino médio, conheci um inspetor de ensino, o Bráz que me falou pela primeira vez em filosofia, e somente na Universidade é que conheço o primeiro professor-leitor da minha vida escolar, o professor Ivan. Além deste, não me recordo de nenhum outro professor que tenha me ensinado nada que não estivesse dentro da massificante técnica do “Currículo Fechado”.
Por que os professores não lêem? Há sempre uma justificativa, que me parece um tanto falaciosa... Não leio porque meu salário não dá pra eu comprar nem comida, quanto mais livros... Não lêem simplesmente porque não adquiriram o hábito da leitura, mesmo que ganhassem muito bem, e é preciso ganhar muito bem, ainda assim, não comprariam um único livro, porque passaram por uma escola que também não adquiriu o prazer da leitura. Como posso ser exemplo de leitor para meus alunos, para meus filhos se não leio nem bula de remédio, se não consigo entender nem meu extrato bancário?
Eu tive a sorte de ter Pais-Leitores, e eles “tinham pouco estudo” como eles mesmos falavam, mas foram exemplos profundos como velejadores da alma, como sentinelas do conhecimento. A eles, peço licença ao escritor Americano Henry Miller, para atribuir-lhes tão bela citação “Devemos ler para oferecer à nossa alma a oportunidade da luxúria.”
Simon - Nova Mamoré/Rondônia
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