Neide Medeiros Santos
Memórias Lobatianas
e outras memórias*
Para Marisa Lajolo
e Regina Zilberman
O ato de leitura deve estar sempre associado ao prazer, à emoção. Criança não gosta de ler por obrigação, para fazer prova, para responder a uma ficha de leitura. O meu contato com Monteiro Lobato está ligado a essa leitura prazerosa.
O primeiro livro que li de Lobato foi A Chave do Tamanho, presente de aniversário. Nessa época, eu morava em Campina Grande e estudava no Colégio das Damas. O livro de Lobato, para usar uma expressão de Manuel Bandeira, foi meu primeiro "alumbramento". Eu estudava de manhã e a tarde fazia as tarefas de casa (cópia, contas de somar, diminuir, MMC, MDC), somente depois de terminar todos os deveres eu podia ler o livro. A leitura não era uma atividade escolar, era um deleite. O livro volumoso, com capa dura e ilustrações em preto e branco, mesmo sem atrativos visuais, era uma leitura que me encantava.
A Chave do Tamanho foi publicado no período da 2a. Guerra Mundial e Lobato estava preocupado com o destino da humanidade, daí a criação de uma história fantástica com chaves capazes de controlar o tamanho das pessoas e de acabar com o sofrimento que se abatia sobre o mundo.
Quando li A Chave do Tamanho, meu desejo era ser Emília e também ter poderes de manejar chaves e fazer transformações. Meu sonho era mexer na chave que transformava as pessoas em gigantes. Como toda criança, eu queria crescer, ser grande, ter vez e voz. Emília, protótipo da liberdade, era uma criança que podia fazer o que queria. Como desejei ser Emília!
Duas passagens do livro me chamavam a atenção: a edênica cidade de Pall City, uma São Saruê americana, e o final da história quando todas as pessoas voltam ao tamanho normal e o Coronel Teodorico permanece escondido no guarda-roupa de Dona Benta porque estava sem roupa. Na conclusão da história, tia Nastácia lamenta, de forma ingênua: “Imaginem em que estado vai ficar a roupa da Sinhá com esse cavalão em pêlo pisando em tudo lá dentro”.
Havia ainda, na minha casa, um livro de Lobato, de formato um pouco diferente dos tradicionais, era um livro retangular com ilustrações coloridas dos personagens lobatianos na contracapa. Lá estava Emília, tia Nastácia, Dona Benta, o Visconde, Narizinho, Pedrinho, os animais do sítio, todos caracterizados segundo a descrição do autor. Tia Nastácia, de avental, com uma colher de pau na mão, era o modelo perfeito da cozinheira. Dona Benta, de vestido longo, sentado em uma cadeira de balanço, com óculos na ponta do nariz, trazendo um livro na mão, representava a avó contadora de histórias. Emília, com ares de menina sapeca, parecia feita de fios de lã e o Visconde, todo vestido de verde, era um sabugo com roupas de palha de milho.
Eu ficava muito tempo olhando aquelas figurinhas minúsculas e me imaginava morando naquele paraíso que era o sítio do Pica-pau Amarelo. O título do livro? Por mais esforço que faça só ficaram as lembranças das ilustrações.
Outro livro que acompanhou a minha infância foi O Talismã de Vidro. Não recordo o nome do autor, não sei se era um fragmento de algum clássico para criança ou uma história completa. O enredo se prendia a uma aventura no mar. O protagonista era um marujo rebelde que jogava os óculos de grau do capitão do navio no mar. É um livro que também permanece como lembrança de leitura da infância.
Depois de Lobato, vieram outras leituras. As fugidas para a casa de Dona Wanda Almeida tinham um objetivo - ler os contos da coleção Tesouro da Juventude. No quarto de Dorotéia e Inezita, havia uma estante e, entre outros livros, estava a coleção de dezoito volumes do Tesouro da Juventude. Da coleção, eu só me interessava pelos contos de fadas. Talvez o meu gosto, a minha paixão pela literatura infantil tenha surgido com a leitura dos livros de Lobato e dos contos do Tesouro da Juventude.
Clarice Lispector, no conto Felicidade Clandestina, de conteúdo autobiográfico, apresenta um personagem, uma criança, que sonhava em ler As Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, caro, acima das posses da menina. O conto gira em torno desse "objeto de desejo" - o livro de Lobato e das torturas sofridas pela pequena para conseguir o livro emprestado. Ao realizar o sonho, isto é, ao conseguir o livro, leva-o para casa, comprimindo-o contra o peito, fingindo que não o tinha "só para depois ter o susto de o ter". Ao ser "dona provisória" daquele "objeto sagrado", ela se sentia não uma menina com um livro, mas uma "mulher com o seu amante".
Eu não podia levar nenhum livro da coleção para minha casa, a leitura devia ser feita na casa da vizinha. Livro de coleção não pode ser emprestado, se perder um volume toda coleção fica prejudicada, sentenciava Dona Wanda. Ao isolar-me naquele quarto, diante da coleção do Tesouro da Juventude, eu sentia a mesma sensação de que fala Clarice Lispector: era "dona provisória" daquele "objeto sagrado".
A literatura para adultos chegou às minhas mãos, quando tinha dez anos, através das estampas do sabonete Eucalol. As gerações mais novas não conheceram essas estampas, as mais antigas certamente se lembram. Nas estampas, vinham ilustrações dos personagens de romances brasileiros, das sete maravilhas do mundo, retratos de grandes compositores musicais do Brasil e do exterior, entre muitas outras coisas. Eu tinha um irmão mais velho que colecionava essas estampas e conseguiu reunir a história completa de Iracema, romance de José de Alencar. Era uma versão resumida do romance em estampas, tudo bem colorido. Vendo o grande interesse que eu tinha pela história, ganhei de meu irmão Iracema, O primeiro romance que li em versão integral, contudo aquela história comprida, sem ilustrações, não tinha o mesmo encanto das estampinhas do sabonete Eucalol.
Descobri, há pouco tempo, no site () um texto de Sarnuel Gorberg, pesquisador e colecionador das Estampas Liebig e Eucalol, a esteira do nascimento e morte dessas encantadoras estampas. Gorberg finaliza seu texto com essa observação digna de registro:
As Estampas Eucalol são as estampas mais importantes da América Latina, encontrando-se colecionadores das mesmas em vários países do Hemisfério Sul. Fizeram parte da vida brasileira durante quase 30 anos, deixando marcada sua presença nas gerações que as vivenciaram.
Gorberg ressalta, ainda, que, de 1910 a 1957, foram emitidas 54 séries temáticas, distribuídas em 2.400 estampas e as séries HISTÓRIA DO BRASIL e LENDAS DO BRASIL eram usadas, nas escolas brasileiras, como material didático.
Terminada a fase lobatiana e dos contos de fadas do "Tesouro da Juventude", houve o despertar para novas leituras. Nas proximidades do Colégio das Damas, ficava a Biblioteca Pública e, após as aulas, eu me refugiava no grande salão da biblioteca. Foi lá que se deu o meu encontro Com Machado de Assis. Lentamente, em conta-gotas, fui lendo os "Contos Fluminenses", "Poesias" e os romances da fase romântica "Helena", "Iaiá Garcia", "A mão e a luva". Muitos anos depois, já adulta, comprei a obra completa do bruxo de Cosme Velho. Quando quero relembrar essa fase da minha vida, releio os contos machadianos, trechos dos romances e volto a ser a ginasiana ávida por leitura.
Esses livros foram lidos na infância e adolescência e fazem parte da minha bagagem literária. Devo muito a Lobato e a Machado de Assis. Com o primeiro aprendi a sonhar, a viajar através da leitura, a gostar de literatura infantil. Com o segundo, aprendi que escrever é pensar, é filosofar, é refletir.
Para concluir essas reminiscências de um "passado que põe tempo nas lembranças", resta dizer que o sonho de Lobato - escrever livros onde as crianças pudessem morar neles - foi realizado. Além de me considerar filha de lobato, eu morei, de forma imaginária, no sítio, eu fui Emília, a boneca contestadora. Li, atentamente, as histórias contadas por tia Nastácia, deliciei-me com os contos do Tesouro da juventude e como aquele (a) menino (a) do poeta Manuel Bandeira dos Versos de Natal, eu não quero deixar morrer essa menina que mora comigo, essa menina que acredita em A Chave do Tamanho, nas Histórias da tia Nastácia e nos contos do Tesouro da Juventude.
Neide Medeiros Santos é licenciada em Letras, FURNE - Campina Grande. Fez mestrado em Teoria da Literatura - UFPE- Recife e Doutorado na UNESP/Car em Estudos Literários. Publicou A hora e a vez da literatura infantil. Recife: Outras Palavras, 2000; Guriatã: uma viagem mítica ao país-paraíso. João Pessoa: Idéia, 2005. É pesquisadora do FIC/PB e membro votante da FNLIJ/PB.
* Esse texto se encontra no livro Memórias rendilhadas: vozes femininas, de Neide Medeiros e Yolanda Limeira (organizadoras). João Pessoa: Editora da UFPB, 2006, p. 61-64.