entrevista

com Georgina Martins

Professora da UFRJ, escritora, militante dos movimentos sociais, autora de várias obras para o público juvenil, dentre as quais citamos O menino que não se chamava João e a menina que não se chamava Maria , O menino que brincava de ser , Outros bichos , Fica comigo , Uma maré de desejos - livro que foi contemplado com o Prêmio UBE 2006.

B - Como foi a sua descoberta dos livros, na infância? Quem lhe apontou o caminho para o mundo da literatura?
Georgina - Descobri o prazer da leitura com minha mãe que, mesmo quase analfabeta, declamava Meus oito anos do Casimiro de Abreu, e me ensinou a declamar poesia. Aprendi a ler com 4 anos e depois disso tanto ela quanto meu pai faziam tudo para que eu estudasse, pois para eles estudar era a coisa mais importante do mundo.

B - A infância abandonada é tema de muitos de seus livros, inclusive do primeiro - O menino que não se chamava João e a Menina que não se chamava Maria - numa referência ao conto clássico, porém, à luz da infância brasileira perdida nas ruas da cidade. O livro No olho da rua – historinhas quase tristes, no qual aborda a mesma temática – você dedica "aos meninos e meninas perdidos, nesta Terra do Nunca às avessas, e que precocemente perdem a infância, sem que nenhum Peter Pan, fada ou bruxa possa transformá-los em meninos de verdade". Na abertura, o narrador diz que não inventou nada... bem... quase nada. É um livro quase de verdade?
Georgina - É sim, é quase de verdade, porque eu retrabalhei as histórias que tem no livro: todas reais, aconteceram comigo e com uma amiga. O que tentei fazer foi transformá-las em Literatura.

B - De agosto de 2002 a agosto de 2003, você coordenou a Oficina da Palavra, um projeto do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Favela da Maré (CEASM). Até que ponto essa experiência influenciou a escritura do livro Maré de Desejos?
Georgina - Acho que escrevi esse livro para não enlouquecer, porque vivenciei lá na Maré, situações que mais pareciam ficção, então tentei colocá-las no papel, numa tentativa de compreender o que acontecia. Coisas como crianças que vendem cartuchos de balas perdidas, criança que espera que a mãe volte, sem saber que na verdade, ela morreu, diretora de escola que faz pais assinarem promissórias para entregar os livros didáticos... e muito mais do que posso falar aqui, me deixaram muito mal, por isso respondi com Uma Maré de desejos, uma tentativa de recriara um cotidiano mais ameno, mais feliz para aquelas pessoas. Coisas que só posso fazer no plano da literatura.

B - Qual é a sua relação com os mitos e figuras do folclore brasileiro, tendo em vista Outros Bichos e Diário de um Lobisomen, livros em que predomina a feição lúdica e o tom afetivo?
Georgina - Sempre gostei de contos de fadas, de histórias de medo e de assombração. Minha mãe sempre me contou muitas histórias. Acho que é por isso, e também para não deixar que essas histórias se percam.

B- Em Todos os amores você passeia pela mitologia grega. Como foi essa experiência de escritura e o diálogo com os mitos gregos?
Georgina - Nesse livro resolvi fazer uma experiência, ou seja, fazer um passeio pelas diferentes formas de amor, falar um pouco da história do amor, como se fosse uma continuação do Menino que brincava de ser. E além disso, adoro mitologia grega. Lembro que na minha adolescência, saiu a coleção que é famosa até hoje: Mitologia Grega. Eu achava linda, e comecei a colecionar com 12 anos, depois não tive mais dinheiro para comprar e tive de parar. Depois de algum tempo, resolvi recortar as ilustrações para fazer quadros de artesanato, que eu vendia em lojas.

B - Como professora, você nota um crescimento do interesse por livros por leitura? Como é a experiência de leitura que você realiza com seus alunos no Curso de Letras, na UFRJ?
Georgina - Acho que os professores e os pais precisam investir mais em uma educação para a contemplação. Precisamos trabalhar com atividades que ensinem as crianças a se concentrarem mais, porque hoje em dia é tudo muito veloz, o que se valoriza é o que acontece rápido: televisão, jogos de computadores, etc. Isso tudo não combina com leitura, porque ler é um ato solitário. Não é como ir ao Shoping. Nos meus cursos falo sempre sobre isso. Quando dou aulas de literatura: prosa ou poesia, priorizo a leitura dos textos e não a teoria sobre os mesmos. Mas acho que a teoria também é muito importante, mas não pode vir primeiro que o texto.

B - Na sua opinião, como escritora, professora e militante de movimentos sociais, o que pode dar conta de inocular uma cultura de leitura e de valorização do livro em nosso país? Onde se encontra o nó da questão, a ponta solta que impede a finalização dessa costura, que vai do ACESSO ao mergulho efetivo na leitura, com efeito multiplicador para a sociedade? (Temos visto que somente o acesso não dá conta dessa formação. Em muitos casos, os livros, que vão para as escolas (oriundos de compras oficiais) permanecem nas caixas, ou "arrumadinhos" e "bonitinhos" nas prateleiras).
Georgina - Pergunta complicada, viu? Penso em algumas coisas, como, por exemplo, investir em formação de professores e no aumento do salário dos mesmos. Nossos professores que atuam no ensino fundamental e médio ganham muito mal. É criminoso isso. Como alguém que recebe algo em torno de R$ 80,OO por mês (Estado do Rio de Janeiro), pode se dar ao luxo de além de cuidar da família, pagar contas, comprar livros, ir a teatros, cinemas, exposições e etc.? Coisas que um professor teria de ter obrigação de fazer. Vi na Maré, muitos livros encaixotados, mofando, guardados em banheiros de escolas, em cubículos. Livros que as crianças sequer podiam chegar perto, e isso é terrível. Por que isso acontece? Acho que é porque alguns professores não valorizam o livro, tampouco as diretoras de escola.

B - Livros Inesquecíveis...
Georgina - Bem, tem alguns que não me saem da cabeça, e que um dia vou relê-los:
Éramos Seis, de Maria José Dupré
Helena, de Machado de Assis
Caminhos Cruzados, de Érico Veríssimo
Poliana,
A Mãe, de Maximo Gorki
E os recentes:
Romance: todos do israelense Amós Oz.
Contos: No meio do mundo e outros contos,
Aberto está o inferno, de Antônio Carlos Viana e
Chove sobre os campos da minha infância, de Miguel Sanches Neto.
Infantil e Juvenil: Sumri, de Amós Oz e Beatriz em trânsito.