Leituras&Leitores
A Bruxa da Ponte
Escrever sobre um livro da infância me fez mergulhar num turbilhão de memórias.
Minha mãe, professora, sempre cuidou com muito zelo de nossa biblioteca e nos tornou
pequenas leitoras, desde muito cedo. Sim, digo "pequenas", assim no plural, porque
éramos três filhas. Eu, a mais velha. Meu pai, um talentoso "contador de histórias”,
tratou de conferir-nos os dotes da imaginação.
E naqueles tempos da infância na pequena cidadezinha do interior em que fui criada,
os dias eram compridos, e as noites de sono eram sempre inauguradas pelo momento
mágico da história. Assim, desfilaram sobre meus lençóis os personagens de Andersen,
irmãos Grimm; das fábulas de Esopo... e uma tal Bruxa da Ponte.
Bruxa da Ponte? De onde vêm esta lembrança? Quando fui convidada para escrever
algumas linhas sobre um livro inesquecível da infância, tentei associar memórias a
algum título clássico da literatura infantil, e a sensação que eu tinha era de que
nada emergia como novo. Pensei em João e Maria, pois uma das fantasias mais queridas
da minha infância é a tal casinha feita de balas e bombons; apesar da bruxa, da
madrasta, e de todos os vilões da história. De Chapeuzinho Vermelho eu lembro que
tínhamos uma versão narrada em disquinho, aqueles pequeninos e mágicos discos de vinil
cor-de-rosa, e mesmo sabendo o final da história, meu coração quase saía pela boca a
cada vez que a faca cortava a barriga do lobo e tinha que ter a precisão exata para
salvar a vovó. O suspense desta cena era absoluto. Eu não podia conter um suspiro
aliviado sempre que se confirmava a vida da vovó. Como se a cada vez houvesse
realmente a possibilidade da tragédia acontecer...
E fui por aí, recortando cenas e fragmentos, mas tudo me parecia um pouco o mesmo,
a não ser ela - a tal Bruxa da Ponte. E desta história lembrava apenas que se tratavam
de cabritinhos amedrontados tentando passar pela ponte em baixo da qual morava uma
bruxa. Lembro especialmente desta história contada pela minha avó nas férias, quando
passávamos alguns dias, eu e minhas irmãs, em sua casa. Movida pela curiosidade, fui
procurar a tal história, para ver afinal, porque esta, logo esta - que afinal era tão
destituída do glamour dos castelos e reinos mágicos - teria ficado "inesquecível".
Fui folheando alguns livros que minha mãe guardou até hoje com tanto zelo e
carinho, e viajando pelos índices, sem sucesso. Até que na coleção Mundo da Criança (1949),
volume 3, achei a tal bruxa, cheia de maldade, ainda bem embaixo da ponte, esperando
para engolir o primeiro cabritinho que desse bobeira. Então era esta a história,
afinal, intitulada "Os três cabritinhos". E qual foi a minha surpresa, ao descobrir
que a grande história que marcou minha infância, não tinha mais do que duas páginas!
Duas páginas que encerravam o drama de três cabritinhos que tentavam salvar-se da
maldosa bruxa, sempre recorrendo ao irmão imediatamente mais velho. Claro que o mais
velho dos três teve ele mesmo que lutar com a megera:
“Venha, que sou bem valente
De bruxas não temo o berro
Pra isso, tenho bons dentes
e chifres que são de ferro!”
O primeiro cabritinho recorria ao segundo que recorria ao terceiro que não tinha
outra saída senão lutar com a bruxa até destruí-la.
A pedido, minha avó repetia a história a cada noite, e depois, pacientemente, me
dava um copo de leite quente com açúcar, pois eu havia "perdido o sono", enquanto os
outros “cabritinhos”, dormiam tranqüilos...
Afinal, bruxas da ponte são problema de irmão mais velho...
Taiana Brancher Psicóloga (UFSC) Mestre em Educação (UFMS)
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