Literatura para a vida inteira

três livros inesquecíveis

Rubens da Cunha - escritor

Ao escrever sobre os livros inesquecíveis que li, revejo o meu percurso e percebo que não sou um leitor formado na infância. Vindo de uma família que não tem na leitura um hábito, o leitor que eu sou se fez na adolescência, mais por uma necessidade pessoal de preenchimento do vazio típico desta fase, do que por algum incentivo externo, seja de professores ou dos pais.
Sempre que falam de como é fundamental se adquirir o hábito da leitura na infância, me sinto uma exceção. Às vezes, tenho vontade de dizer que em qualquer tempo é possível se tornar um leitor. Obviamente, depois de uma certa idade, é um exercício que demanda mais esforço, mas nada que o prazer alcançado pela leitura não compense. O mundo da leitura se revela muito mais fácil para quem começa cedo, mas não deixa, em momento nenhum, de se revelar a quem começa tarde.
Por uma destas artimanhas do destino, com dezesseis anos, escolhi ao acaso A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, meu primeiro livro inesquecível. Clarice é a escritora mais arrebatadora da língua portuguesa. Difícil não cair em suas seduções. Sua narrativa existencial e dolorosa vai se imiscuindo no sangue como um vício. A analogia pode ser perigosa, mas não é pejorativa. Acompanhar G.H. é revirar-se inteiro nas dezenas de perguntas que a narradora joga-nos na cara.
O fluxo narrativo de Clarice já me encantava num tempo em que eu não me sabia escritor. Depois que adquiri consciência do processo criativo, ficou ainda mais fascinante reler A Paixão Segundo G.H. Vez em quando, retorno ao livro para reler as diversas partes que já sublinhei, ou ainda descobrir novas frases reveladoras que eu havia deixado para trás, acompanhar do início ao fim a solidão de G.H. dentro de um apartamento, frente aos desenhos deixados pela empregada, como forma de vingança, ou ainda, me esvaindo em prazer e nojo no conflito máximo do livro: a mulher frente à barata. O humano frente aos seus limites.
Muitas outras obras de Clarice chegaram a mim depois desta. Causaram seus estrondos e estragos na minha estagnação de homem comum. Mas nenhuma teve o impacto de A Paixão segundo G.H. Foi o primeiro livro a me mostrar que a literatura é muito mais que uma seqüência de palavras bonitas ou divertidas, mas se trata de um mundo concentrado no papel, com todos os seus paradoxos e mistérios. Com Clarice, descobri da melhor forma que "ser real é assumir a própria promessa: assumir a própria inocência e retomar o gosto do qual nunca se teve consciência: o gosto do vivo".

Quando eu comecei a assumir a persona de poeta, porque diziam que meus versos eram bons, suscitavam emoções e encantamentos, surge o segundo livro inesquecível de minha vida: Poesia (1959-1979), de Hilda Hilst. A obra de Hilda é uma vastidão feita de poesia, prosa e teatro. Na prosa, ela expõe as vísceras humanas embasadas no tripé sexo-Deus-morte. Trata-se de uma viagem pornográfica e filosófica, em que a polêmica advinda pela quebra de dogmas, pela exposição crua do corpo, pela forma como os personagens chafurdam na loucura, constitui a força desta obra revolucionária. No entanto, na poesia, temos outra autora: lírica, comedida, dona de grandes imagens e de um sentimento profundo. São visões únicas sobre o amor, o abandono, Deus, a Morte.
De todos os poetas que li, Hilda Hilst foi a única que me fez parar de escrever. Num período de mais ou menos um ano, fiquei apenas perdido naquele mundo de beleza explícita. Eu não precisava dizer mais nada. Tudo havia sido dito, da forma como eu precisava dizer.
Depois, decidi resgatar minhas digitais poéticas, busquei uma linguagem própria e me assumi como escritor. No entanto, este livro que reúne boa parte da obra poética de Hilda ainda é meu carrasco. Toda vez que acho que escrevo bem, o releio e volto ao meu lugar de poeta em começo de viagem. Sofri, e ainda sofro, com Hilda, a angústia da influência.
Hilda levou, injustamente, a pecha de maldita, quando apenas viveu exclusivamente para a sua literatura. Sem concessões, marketing, ou coisa que o valha. Quando eu a li pela primeira vez, seus livros eram raros, editados em pequenas tiragens. Hoje, sua obra ocupa lugar de destaque nas prateleiras das livrarias. Ainda assim, seu nome não é muito usual. Tenho uma espécie de apostolado em relação a Hilda: qualquer oportunidade que me dão, lá estou eu falando de meu amor incondicional por ela.

Já mais adulto, pensando estar mais solidificado como homem e escritor, descubro Osman Lin e seu romance: Avalovara. Abel, o personagem principal, vai desfiando seu universo amoroso e criativo. Osman mistura tempos, focos narrativos, poesia e técnica raramente vistas na literatura brasileira. Com o personagem, vamos descobrindo conceitos literários, descrições amorosas, metáforas belíssimas, e as três mulheres que fizeram parte de sua vida. Um romance complexo na linguagem e na forma que coloca Osman Lins num patamar superior, daqueles que Ezra Pound denominou como "os inventores".
Como Clarice, o autor também morreu no auge, com cinqüenta e poucos anos. É de se pensar o que fariam com mais trinta anos de vida. Igual a Hilda, é dono de uma obra à frente de seu tempo, o que o torna menos reconhecido do que precisa ser.

Entre uma obra inédita e outra, releio estes três livros, busco em suas páginas alimento para minha fome de leitor. Estes livros são mananciais infinitos, porque revelam muito da complexidade humana: matéria-prima inesgotável para estes três grandes escritores.
Atualmente, estou começando a ter contato com literatura infanto-juvenil, ainda não encontrei um livro que abalasse minhas estruturas, mas como não matei o menino que sou, encontrar um livro feito para crianças que vá me seduzir emocional e fisicamente como estes três livros adultos, é só uma questão de tempo. Só espero que não demore muito. Ando muito necessitado de ter umas alegrias literárias advindas da leitura de um livro inesquecível.