Coração vive de estrada
Peter O'Sagae
Editor de Dobras da Leitura
Alguns livros são feitos de pura emoção, outros mais com suspiro, boreais de descobertas e úmido sangue vivo correndo às veias do leitor.
Beatriz em trânsito, o primeiro livro juvenil da escritora Eloí Elisabet Bocheco, assim se entrega: sem medo de invadir a distância, acarinhar os afetos e tomar nossa respiração ( meu coração viu tudo) — sim, você vai se emocionar.
Esta obra foi o título vencedor do 3º Prêmio "Casa de Cultura Mário Quintana", de 2005, então publicada pela editora Nova Prova, de Porto Alegre.

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Beatriz e seus parentes vivem de mudanças pela vida. Sempre tem casa nova
no caminho e tem que se desacostumar do costume dos mesmos lugares.
Até mesmo as paisagens internas, que podem parecer sempre iguais, vão se movendo ao vento do próprio destino. O avô curtia viagens e, de silêncio, virou tropeiro de bois celestiais.
A família estacionou em Santo Antônio dos Campos e a avó cuida dela "como coisa que criança sem mãe fosse de vidro". E tem a tia Leonor, que é braba só pelas manhãs, tia Rosana, que conta quase todo o alfabeto de namorados,
tia Lia, tio Pedro, uma familia de leitores de primeira. Não toda, é claro, quase não sobra tempo pra Rosana...
Na escola, Biazinha (detesto que me chamem de Biazinha) fica de olho assim grudado no armário bege de livros guardados de Guiomar, uma professora que sabe misturar aula e vida.
E conhece Samuel, um menino de cadeira de rodas com jeitão de quem já leu um montão de livros, que será seu melhor amigo correspondente. E chegará Mariana de longe, com medo trancado que não pode abrir. E um pote de barro que "dentro tinha coisa que chacoalhava, tilintava, farfalhava".
É com o segredo de muitas leituras que a história da menina se descobre, capítulo a capítulo, nesse 'livro de admirações' que só os bons leitores costumam criar. A idéia parte de Beatriz e Samuel, os personagens, mas nos revela a urdidura da Autora. (Sento na escada da varanda pra esperar a boca da noite soltar os pirilampos.) Por ora, muito melhor do que contar seus segredos, é contar que essas pessoas têm segredo: seja gente pessoa viva, seja gente viva de ficção.
Beatriz em trânsito encerra-se em vento de adeus e amizade. Um texto de encantamentos e asperezas da vida em estado de equilíbrio, denso e leve, de umas coisas que se repetem e outras que nunca mais acontecerão.
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