O Armazém Literário

Tânia Piacentini
Doutora em Educação (Unicamp), leitora crítica da FNLIJ
e diretora geral da Sociedade Amantes da Leitura
Bons temas, bons livros

Para o leitor comum, nem só de ficção e poesia é feita a chamada literatura infanto-juvenil. No vasto mundo de livros para crianças e jovens, existe uma grande variedade de títulos e temas que acabam sendo etiquetados em categorias criadas pelo mercado editorial, abrigadas sob o grande guarda-chuva da literatura destinada a esses público específico ou, indiretamente, aos profissionais que trabalham com ele. Sem entrar na discussão das especificidades e diferenças, destaco alguns livros informativos dirigidos aos jovens, com qualidades e méritos suficiente para interessar a qualquer leitor.
A Coleção Descobertas, que a Objetiva traduz e edita no Brasil, mantém a qualidade das Edições Gallimard, na França, respeitando a tradição de uma linha de livros científicos para iniciantes e curiosos dos temas enfocados, sem desmerecer a inteligência e o bom-gosto do leitor. Escritos por especialistas em cada uma das áreas, a linguagem acessível e a capacidade de síntese dos principais aspectos se aliam a uma quantidade atraente de imagens cuidadosamente editadas. As cores, todo o projeto gráfico, as informações bibliográficas, os textos selecionados como testemunhos e documentos, tudo contribui para atrair o leitor neófito e deleitar até o especialista no assunto.
O livro A Escrita - memória dos homens é uma contribuição inestimável para o acervo dos amantes do livro e da leitura, enquanto Marco Polo e a rota da seda encanta qualquer leitor que já se deixou seduzir quer pela verdade quer pela fantasia das viagens e descrições desse personagem histórico e também literário, protagonista de outras tantas obras de ficção. Destaco esses dois livros, mas a argumentação vale também para Darwin e a ciência da evolução, O cinema, invenção do século XX, Picasso, o sábio e o louco, e Jesus, o Deus surpreendente. Chamo ainda a atenção para outros aspectos relevantes da edição: a qualidade do papel e a simplicidade da apresentação em brochura, que tornam os livros atraentes e acessíveis ao mesmo tempo.
Para os adolescentes, meninas e meninos, que querem ser bailarinos, sugiro a leitura de O livro da dança (Companhia das Letrinhas). A autora, Inês Bogéa, escreve da mesma forma como se dedicou à dança, isto é, com o corpo e com a alma. Sua narrativa transforma os leitores em cúmplices e fãs, tal a leveza do texto, a graça e a simplicidade do que é narrado e a afetividade que perpassa sua memória, da formação à descrição de momentos significativos de sua carreira. Perfeitamente adequado aos objetivos da Coleção Profissões da editora, o texto de Inês não escamoteia os percalços e as dificuldades da vida de bailarina, mas deixa transparecer a paixão que norteou sua vida profissional. As fotos pessoais, de grupos de dança e as ilustrações de Marcelo Cipis enriquecem ainda mais o texto de quem se revela agora apaixonada pela escrita, metaforizada em dança: "Depois danço com as palavras, até elas formarem a coreografia. (...) Para escrever, assim como para dançar, a gente precisa ter ritmo. Precisa ter forma. Acima de tudo, precisa escutar o mesmo silêncio de dentro, que é onde tudo começa". Uma bela descrição do processo de criação artística, sem dúvida!
Os leitores preocupados com o meio ambiente certamente se encantarão com A caatinga (Guia do viajante e diário de viagem), de Rubens Matuck (Editora Biruta). Um livro que narra uma viagem à caatinga nordestina, um diário dessa mesma viagem e um guia do viajante experiente para futuros pesquisadores e observadores das diversidades naturais e culturais, eis o conjunto com que Rubens nos presenteia. A linguagem do texto informativo é científica, mas acessível, as ilustrações são belíssimas aquarelas e têm a mesma qualidade técnica e artística e a mesma intenção formativa dos melhores viajantes naturalistas dos séculos passados. Trata-se de um trabalho digno de destaque na história da edição de livros culturais para crianças, no nosso país, um projeto que teve continuidade com outros dois destinos para viajantes descolados: Rubens nos leva agora para A Amazônia e para O Pantanal. E depois, descansando das viagens, o leitor pode simplesmente olhar para fora de sua janela com os olhos curiosos de investigador melhor preparado e tentar identificar na sua rua, no seu bairro ou em sua cidade que árvores são aquelas que felizmente ainda resistem: o autor e ilustrador também publicou Árvores das cidades e ilustrou sua própria história de ecologista, que foi contada por Ruth Rocha, em Rubens, o semeador.
Explicando a filosofia com arte, de Charles Feitosa (Ediouro), é uma proposta audaciosa e cativante. Viajar pela história da filosofia, ao longo dos séculos, conhecendo os principais pensadores, discutindo os conceitos, explorando semelhanças e contrastes e ilustrando esse saber com as obras de arte que têm a ver com todo o conhecimento sintetizado no livro. Um exemplo de integração de diversas áreas da cultura, do clássico ao contemporâneo, numa linguagem clara e leve, sem escamoteara densidade de temas complexos da existência humana.
E para que não digam que me esqueci dos jovens e adultos mediadores da leitura, profissionais ou não, indico Ilhas no tempo: algumas leituras, de Ana Maria Machado (Editora Nova Fronteira). É sempre um prazer se conceder um tempo para atravessar uma ponte - a leitura - e parar numa das ilhas que Ana Maria Machado constrói: um texto que foi uma palestra, uma intervenção, uma reflexão, uma conversa, um debate, uma lembrança, sempre sobre livros, leituras, escritos e escritores. A linguagem clara, a atitude corajosa, a cultura sólida, o desafio instigante permeiam seus textos que, agora reunidos em livro, passam a servir de parâmetro para todas as pessoas interessadas em fugir da retórica e dos modismos sobre questões tão fundamentais como são a formação do leitor, o papel da escola e das bibliotecas, o tempo para ler numa sociedade sem tempo, o prazer de ler, além de outras nuances desses mesmos temas que ela sabe tão bem matizar.
Valioso também é Como e por que ler o romance brasileiro, o terceiro volume da série como e por que ler da Editora Objetiva. É pela mão experiente e voz sedutora de Marisa Lajolo que se atravessa dois séculos da literatura brasileira, num vai-e-vem do passado ao presente e algumas fugas rápidas ao exterior, lendo o romance brasileiro. Um painel amplo e consistente, variado e sempre atraente, em que o leitor vai se situando, concordando e discordando da autora, encontrando seus romances prediletos, buscando referências, anotando sugestões, escrevendo a sua própria história de leitura. Um guia valioso para leitores que querem ir bem além das listas dos mais vendidos!
Por último, dois livros essenciais na biblioteca dos contadores de histórias: A palavra do contador de histórias, de Gislayne Avelar Matos e O ofício do contador de histórias, da mesma autora e Inno Sorsy, ambos em bonitas edições da Martins Fontes. Nesse momento em que vivemos o renascer de uma das mais antigas e belas tradições da humanidade, a de contar histórias, a leitura dessas duas obras vai auxiliar a formação do contador, enriquecendo o campo de conhecimento específico e aquecendo corações e mentes. São histórias do mundo inteiro, preparadas e comentadas pelas duas experientes conhecedoras deste ofício que é também uma arte.