e n t r e l i n h a s

A Vitória de Vitória
de Urda Alice Klueger

Yedda Goulart
Escritora, Mestre em Literatura e
Representante Regional da AEI-LIJ em SC

Segundo Ziraldo, cartunista e escritor, um dos autores de maior sucesso na área, escrever Literatura Infantil e Juvenil não é escrever infantilmente. Pelo contrário: “escrever para crianças requer um esforço dilacerante, uma vez que é necessário reencontrar em si mesmo a criança com sua fé, sua confiança e uma ingênua capacidade de ver o lado lúdico de todas as coisas”.
É com esta capacidade que a escritora Urda Alice Klueger, autora de vários romances históricos, livros de viagem, obras memorialistas e documentários, aventura-se pelo mundo da Literatura Infantil e Juvenil com o livro “A Vitória de Vitória”.
Neste trabalho, serve-se a autora deste rico recurso de expressão poética, a personificação ou animação, uma das chaves de sucesso no gênero infantil, usado desde sempre nas obras que encantam a infância de várias gerações em todos os países. Haja vista, às fábulas e histórias em que os animais falam, sentem e pensam como seres humanos. Neste maravilhoso mundo de encantamento, absolutamente tudo pode “ser” alguém que se emociona, que sofre, que apresenta sentimentos profundos como a dor da perda de um ente querido, a dor da saudade; como também pode ser enganador, esperto e maquiavélico como o lobo mau que se faz de manso e inocente para capturar a ovelhinha que tranqüila bebe água da fonte, da fábula de Esopo, ou para enganar a menina que atravessa tranqüilamente o bosque como em “O Chapeuzinho Vermelho” .
Urda tem a capacidade de ousar, atribuindo vida a uma colher que orgulhava-se por ser uma colher com um cabo caprichosamente esculpido com cachinhos de uva e que se “ruborizava” quando alguém elogiava sua beleza.
Mas, a colher que se chamava Vitória e que vivia dentro de um estojo forrado de veludo, passou também por várias dificuldades e sofrimentos, como ter sido trocada de donos várias vezes e ter sido afastada de seus amigos, os demais talheres, entre eles um especial, de nome Herbert , orgulhoso e ranzinza com a própria sorte.
Para falar do tema da perda e separação, a autora faz com que o faqueiro, onde reside Vitória, além das muitas trocas de casas, se desintegre separando seus moradores durante uma das muitas enchentes que assolaram a bela cidade de Blumenau, personagem presente em quase todas as obras da autora.
Desta forma, sutilmente, estes temas vão trazendo o tema da contingência dos seres e situações, através de um elemento que adquire vida para contar uma trajetória comum para a humanidade.
Nos contos maravilhosos que nos foram narrados na infância, os personagens preferidos para a personificação foram os animais, seres irracionais, portanto, não seres inanimados; estes últimos foram menos explorados. Exemplo mais famoso são as cartas de baralho, que formam o universo de “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carrol, cujo tema revela principalmente a subversão das regras e valores, como também subversão da linguagem, ou brinquedos como O Soldadinho de Chumbo de Hans Christian Andersen - que traz a consciência da precariedade da vida, entre outros.
Assim sendo, “A Vitória de Vitória” está entre o que chamamos de conto do fantástico-maravilhoso, ou seja, do mundo imaginário ou da fantasia. Utiliza além da personificação ou animação de seres inanimados o fator do estranhamento, que faz de uma colher, este objeto tão útil, ser transformado em um “ser” que sente todas as dores e alegrias de um ser humano.
A “Vitória de Vitória” é uma história que contém todos os ingredientes mágicos que encantam crianças e adultos e ainda traz, nas entrelinhas, uma constante alquímica da autora, que é a transposição das angústias vividas por Blumenau nas várias enchentes que chegaram a ameaçar a existência desta bela cidade, bem como a inserção de realidades tais como: velhice morte e separação, reação e retorno permanente ao lado de uma expectativa do bem, do melhor.
Assim mesmo têm sido as vitórias de Blumenau, terra de Urda Alice Klueger.