entrevista

com o escritor e presidente da
Associação Nacional de Escritores e Ilustradores
de Literatura Infantil e Juvenil — AEI-LIJ

Luiz Antônio Aguiar



Luiz Antônio Aguiar tem mais de sessenta títulos publicadose ganhou diversos prêmios, inclusive, o Jabuti, em 1994, com Confidências de um pai pedindo arrego. É Sócio-fundador e Presidente da AEI-LIJ. Seu último livro (até o fechamento da edição) chama-se Alqueluz - uma aventura das Arábias (ed. Objetiva) O making of do livro pode ser visto em www.docedeletra.com.br/alqueluz

B – Qual a influência da escola em sua história de leitor?
Luiz Antônio - Num primeiro momento, pouca. Eu me formei como leitor escutando histórias das 1001 Noites, lidas por meu pai, enquanto me alfabetizava, e na biblioteca dele que, estava lá, sempre aberta, e onde a gente podia escavucar, caçar, explorar, descobrir. Na escola, ou mais precisamente no ginasial (denominação de antigamente), descobri os clássicos brasileiros, especialmente Machado de Assis, pela mão dos meus professores. Mas, esta não é a realidade da maioria do povo brasileiro. A escola, bem como a biblioteca pública, são essenciais para que a população tenha acesso aos livros.

B – Em seu site (http://www.docedeletra.com.br/laa/), consta que você é leitor de Monteiro Lobato, e que seu “Lobato fundamental” é A chave do tamanho. Fale-nos de sua experiência com a obra de Lobato.
Luiz Antônio - Foi com Monteiro Lobato que eu descobri que a Literatura podia me oferecer um mundo que eu queria habitar mais do que o que me cercava. Foi com ele que, pela primeira vez, meus sentidos se apagaram para o que estava em volta, no momento da leitura, e eu entrei na história. O Sítio do Picapau Amarelo foi meu primeiro mundo individual, propriamente meu, íntimo, querido.


B – Em entrevista à Teia de autores, obra organizada por Pedro Benjamim Garcia e Tânia Dauster (Autêntica, 2000, p. 90), você diz que “formou-se leitor pelo lado afetivo, pelo lado lúdico. Na sua opinião, a escola tem conseguido estabelecer uma relação amorosa com o livro literário?
Luiz Antônio - Ainda não, de um modo geral. Há professores apaixonados pela Literatura e que transmitem essa paixão para seus alunos. Mas há, pesando sobre a instituição escolar, a obrigação de usar a Literatura para ensinar alguma coisa, outra coisa, como se ela em si não pudesse arrebatar o ser humano, mas precisasse de uma utilidade para poder ser consumida, ou vivenciada.


B – O mercado editorial não promove o marketing do livro. As vendas de livros de LIJ são realizadas diretamente com as escolas. Isso afeta a procura espontânea por livros de LIJ nas livrarias. Se a criança e o jovem só lêem o que é “vendido” na escola ou para a escola, isso não contribui para a formação do “leitor de escola”, e não o leitor para a vida toda? Gostaríamos que você comentasse sobre essas questões.
Luiz Antônio - Sim, há poucas iniciativas para estimular a leitura espontânea, que é o modelo básico do leitor, ou melhor, é o leitor em estágio de leitor conquistado para a vida toda. Mas, pesa no Brasil principalmente o baixo poder aquisitivo, a péssima distribuição de renda e de bens culturais, as limitações de leitura, o analfabetismo. Na escola, como já disse, de modo geral, há ainda uma falta de articulação sobre o que seria a Literatura, livre do peso e desestímulo didatizantes. Leitor que lê somente o livro que vai cair na prova, acaba lendo resumos, não lê, detesta o que lê, quando pode se livra de todos os livros. Enfim, falta entre nós uma iniciativa poderosa para tornar a leitura um elemento de nosso cotidiano e cultura.


B – É comum pais, educadores, diretores de escolas torcerem o nariz para os livros que abordam temas tidos como “intocáveis”. Acham que se deve “poupar” a criança e o jovem. Em seu site, você diz que” a criança leitora não se deve poupar nem a dor, nem o horror, nem a paixão extremada”. Na sua opinião, por que os adultos têm tanto medo desses temas?
Luiz Antônio - Não há Literatura sem um Nabukov e sua pervertida Lolita. Sem um Machado de Assis e as ruínas morais que são alguns de seus personagens. Sem o escândalo que representou uma Lucíola, no tempo de José de Alencar. Sem os atrevimentos e desobediências da Emília. Não há Literatura livre enquanto haja temas sobre os quais não se possa escrever palavras que não se possam escrever etc. Por isso, a Literatura com fins didádicos, edificantes e politicamente corretos é uma Literatura reduzida, filtrada, aguada, que não proporciona ao leitor o salto para as 1001 realidades.


B – Qual é o seu parecer sobre as políticas de leitura em curso no país?
Luiz Antônio - São belos esforços que precisam se somar, articular, e ganhar mais infra-estrutura e pessoal especializado com condições profissionalizadas de trabalho.


B – Os escritores, em geral, não são chamados para sentar-se à mesa com os que formulam as políticas de incentivo à leitura no país, nos Estados e nos municípios. A AEI-LIJ, da qual você é o Presidente, tem conseguido avanços importantes no sentido de reverter essa prática, e garantir a representação do escritor de LIJ nas discussões e decisões sobre o livro e a leitura. Poderia comentar a respeito?
Luiz Antônio - De fato, até então ilustradores e escritores foram sempre mão-de-obra grátis ou barata de diversos programas de leitura. Nossos livros são a matéria-prima básica e essencial desses programas. E nunca fomos chamados para discutir a formulação desses programas, como se não tivéssemos contribuições a dar. Isso está mudando, os autores estão se organizando, e o fortalecimento da AEI-LIJ prova isso. O mercado editorial está se tornando cada vez mais competitivo, mais disputado. Nós, os autores, não poderemos mais nos conformar em sermos a parte mais fraca, mais desunida, com mentalidade profissional menos consolidada. Além de se afirmar como rede de troca de idéias, inclusive do debate estético, e de informações e experiências pertinentes ao nosso ofício, a AEI-LIJ trabalha para aumentar sempre o peso relativo dos autores nas negociações e embates do mercado; é a aplicação prática do óbvio: a união faz a força.