A Leitura:
Poeticidade e Sonhos
Rubens da Cunha
Escritor
Ler é gestação. Esperar que se desvele o signo. Clarividência.
Ver o mundo no texto, ver-se na inteireza do corpo. Ler é traduzir-se em palavra.
Ir contra o barulho das televisões. Optar pelo silêncio. Quem lê compartilha a solidão de um escritor. Não o deixa abandonado. O leitor é um ávido. A cada livro, uma nova fome. Um novo escopo de atalhos. Um novo arsenal de guerra neste mundo de insanidades complestas. O que faz com que tantos não vasculhem o fundo dos livros? Com que tantos se satisfazem com a superfície. O raso das águas fáceis? Ler é vencer o medo de afogar-se e nadar onde não encostamos o pé no chão. Nos dias de agora, os homens andam tão rápido. A velocidade aborta a leitura. A vida quer abreviaturas. Não mais planos longos. O que interessa é a edição acelerada. Ler de verdade ainda é resistir. Recolher-se na utopia de que a literatura salvará o mundo. De que a poesia retornará a seu rio primeiro: ser o fio condutor das gerações. Ocupar o papel da História. Ler é abri-se: leque arrefecendo o rosto da liberdade. Quem lê renasce sempre melhor, mais amplo nas decisões, mas largo nos caminhos. Quem não lê ouve e segue cordeiro.
Nas escolas, o desafio dos professores é moldar leitores, fazê-los coragem: ler é um ato de luta contra as imagens prontas. Tudo se apresenta mastigado, condensado. Ler é o trabalho de reconstruir imagens. Árduo. São suores por sobre a alma. O não entendimento se mostrando em sete cabeças, todas com voragens múltiplas. Ler é combater. É recomeçar, mesmo ferido, mesmo estilhaçado pelo cotidiano, pela falta de tempo. Ler é cavar nas horas uns buracos e lá plantar-se.
O professor é quem escolhe: faz seus alunos árvore ou arbusto. Faz seus alunos dominadores da linguagem ou servos de que a domina. Alunos são reflexos de seus professores. Isso é irreaal? A vida é mais próxima da terra e menos do sonho? Ler é propor rotas de fuga, planos B, saídas de emergência. Quem os conhece, salva-se. Se os professores retiram de si um certo idealismo, uma certa vontade profética de revelações, acabam com o que a profissão tem de cosmovisão. Professores que não ensinam alunos a ler, ensinam alunos a aceitar o estabelecido. Esquecem que ler é revirar. Avesso, contrário: ler é o outro lado.
Existe ainda a dúvida: é melhor ler qualquer coisa do que coisa nenhuma? Ler é caminhar. Por mais gritante que seja a obviedade: começa-se com o primeiro passo. O que não se pode é estacionar na primeira vereda de facilidade e lá ficar de férias. Ler é entretenimento, mas não o tempo todo. A leitura nos propõe o trabalho dos sentidos: gratuito, militante, voluntário, por vezes quase escravo. Ler é doar-se em solidariedade consigo mesmo. Ler é difícil.
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