Leituras&Leitores



Volto a ocupar este espaço com algumas questões “(im)pertinentes”. Primeiramente, gostaria de lembrar os resultados de pesquisas recentes sobre o desempenho de nossos alunos em leitura.
Segundo dados do SAEB (MEC), mais da metade de nossos alunos da 4ª série do EF não consegue retirar informações simples de pequenas frases e, segundo dados de um órgão internacional (PISA), 67% dos alunos brasileiros com 15 anos de idade, cursando nossas escolas, não compreende o que lê.
Ater-me-ei ao meu Estado, Santa Catarina, cuja realidade conheço mais de perto. Vejamos: temos aqui políticas públicas de leitura? NÃO.
Nossas escolas públicas têm bibliotecas funcionando, com pessoal capacitado para dinamizar e promover a leitura? NÃO.
Nossos editores de escolas, coordenadores, educadores, salvo as exceções, compreende o valor da biblioteca, do livro, da leitura como ferramentas indispensáveis para a cidadânia? NÃO.
Ainda temos, por aqui, escolas que usam a biblioteca como “paredão”, onde colocam os alunos “indisciplinados”, encostados na parede para lerem livros, como castigo? SIM, AINDA TEMOS!
Temos aqui a carreira de bibliotecário, agente indispensável numa sociedade que se preocupa com a criação de leitores competentes? NÃO, NÃO TEMOS.
Salvo as felizes exceções, nossas autoridades constituídas demonstram amor aos livros, à leitura, à literatura, que é a grande aliada da formação de leitores; priorizam o livro antes do arquivo, e orgulham-se de estar empenhados em criar uma sociedade de leitores? NÃO PARA TODOS OS ITENS.
Temos aqui políticas públicas de valorização dos escritores, projetos de fomento à ida dos escritores às escolas para falar de suas obras, conversar com os leitores? NÃO, NÃO TEMOS.
Nossos parlamentares, vereadores e deputados, elaboram projetos em que defendam as bibliotecas públicas e escolares; mostram-se interessados em criar aqui um ESTADO de LEITORES? NÃO.
Os municípios de SC, salvo as felizes exceções, têm biblioteca pública, ou biblioteca de bairro, com acervo atualizado? NÃO.
Notamos preocupação de nossos secretários municipais de Educação, salvo algumas exceções, com a biblioteca pública e as bibliotecas das escolas, com o uso maciço do livro? NÃO.

Temos 293 municípios em SC, e investir em livros não é a regra geral; é a exceção. É preciso que seja regra geral. Deveríamos ter a Lei do Livro, como têm outros Estados. Deveríamos poder “puxar na lei” os mandantes que negam às crianças o direito ao livro.
Lembro que a biblioteca, quando é ativa e dinâmica, consegue envolver toda a escola e passa a dialogar com o Projeto Pedagógico, fazendo circular a paixão pelo conhecimento em todas as direções, bem como influi nas concepções de leitura de toda a comunidade escolar.
Lembro, também, que as novas tecnologias, motivo de deslumbramento de nossas autoridades, que se gabam de prover escolas com computadores e internet, como se, com isso, todas as carências educacionais estivessem resolvidas, prescindem da competência em leitura para o bom aproveitamento. Um navegante de internet com escassa linguagem pode se afogar ao topar com textos mais elaborados, bem como terá menos possibilidades de discernimento diante das toneladas de informações que bóiam na Web, nem todas confiáveis, nem todas dignas.
Marlene C. Zanchetti
São Miguel do Oeste SC