Arreda do caminho
que lá vem O boi-de-mamão
de Rogério Andrade Barbosa!


Eliana Debus
Doutora em Letras (PUCRS)
Professora da UFSC e UNISUL

O Boi-de-mamão talvez seja um dos folguedos mais populares de Santa Catarina. Suas personagens cirandam ao tom da cantoria e desenvolvem uma coreografia marcada pelo non sense e a alegria: Maricota, boneca gigantesca, balança seus longos braços pra lá e pra cá; junta-se a ela a Bernunça, bicho brabo e comilão, “come arroz, come feijão, come tudo que lhe dão”; o Cavalinho, que cumprimenta o dono da casa, entre outras figuras (re)criadas sempre pela fértil imaginação popular.
O enredo, com algumas nuances, é quase o mesmo de outras regiões do País: o boi adoece depois de uma mutilação, e vários especialistas — curandeiro, benzadeira, médico e outros — são conclamados para ressuscitar o boi. Mas as variantes dessa trama são muitas, mesmo na Ilha de Santa Catarina, como já comprovou Reinaldo Gonçalves na sua dissertação de mestrado (UFSC, 2000).
Lembro-me com carinho e até com um pouco de nostalgia do meu Boi, que não era daqui (“Lá do sertão de Araquari”, dizia a música mas era realmente de Joinville) e fez-me correr várias comunidades de Santa Catarina e de outros estados brasileiros (Minas Gerais, Bahia, São Paulo...) com suas apresentações. Apoiado no texto Gelci Coelho (Peninha) e sob a direção de Jairo Maciel, o Boi ganhava glamour e adentrava o espaço cênico. Era lá pelos idos de 1985/1986.
Pois bem, quando Rogério Andrade Barbosa me falou de seu desejo de “contar” o Boi, imediatamente apresentei a ele os Bois que conhecia em papel e tinta (Benina Bernunça com dor de barriga, de Sérgio Jeremias, Boi-de-mamão, de Graça Carneiro, e o Boi-de-mamão, de Gelci Coelho), e, pelas mãos da Professora Tânia Piacentini e de Reinaldo Gonçalves, ele viu e ouviu as cantorias e apresentações de Boi de madeira e pano e saiu daqui (Florianópolis, 2003) com um bom arsenal bibliográfico cheio de idéias e do desejo de narrar o boi.
Tal façanha foi concretizada: Rogério apresentou ao público, em maio último, na Bienal do Rio de Janeiro, o magnífico livro O boi-de-mamão (FTD, 2005), com ilustrações de Regina Yolanda.
Rogério é desses escritores que se debruçam sobre o que será narrado, estudam e refletem sobre o que escrevem, basta comprovar a farta bibliografia de que o autor se muniu para construir o livro. Dele já li muitos títulos — afinal, são mais de 50 —, presenteei amigos e, encantada, fiz resenha neste mesmo Balainho (2002, nº 12) de Duula, a mulher canibal (DCL, 2000). Seu primeiro livro, Bichos da Áfria, lendas e fábulas (Melhoramentos, 1987) traz as narrativas que ouviu/leu enquanto esteve na África (Guiné-Bissau) por dois anos como voluntário da Organização das Nações Unidas (ONU).
O folclore brasileiro permeia a sua produção literária. Em Viva o Boi Bumbá! (Agir, 1996), retrata a tradicional festa de Parintins, no Amazonas; em Rio acima, mar abaixo (Melhoramentos, 2002), narra as tradicionais festas do Marabaixo, do Amapá; na coleção Ciranda de São Francisco (A sereia dos cabelos de ouro, O menino e o caboclo-d'água, A bordadeira de histórias e Romãozinho, todos publicados pela FTD), reconstrói as histórias de assombro e espanto que navegam pelas águas do Rio São Francisco.
Como educador que é, professor e contador de histórias, Rogério absorveu as palavras de Reinaldo Gonçalves de que o Boi-de-mamão “é entendido como um grande aliado na construção de experiências educativas entre seres humanos de diferentes gerações” (2000: 11) e confecciona sua narrativa a partir da memória da personagem Dona Bentinha, que vai relatando a um grupo de estudantes a sua meninice e, ao reconstruir o folguedo do Boi-de-mamão com seus brincantes, descreve outras tradições da Ilha da Magia, suas bruxas e Pão-por-Deus. Pelo diálogo entre o hoje e o ontem, a memória vai sendo ressignificada e vamos apreendendo um pouco da cultura de Santa Catarina:
Uma das coisas que mais me davam medo eram as bruxas, criaturas narigudas e verruguentas, que os mais velhos juravam habitar as copas das figueiras espalhadas pelos quintais. E outra era a Bernúncia, aquela monstrenga coberta de pano, que engole as crianças com a sua boca imensa, durante as apresentações do Boi-de-Mamão.
Mais do que fazer um livro Rogério, agora um pouco desta terra Catarina, apresenta aos leitores (crianças e educadores) a importância da história oral, a necessidade da escuta atenta para o que tem a nos dizer o Outro, para que acreditemos que não perdemos por completo a arte de intercambiar histórias.
Nas ilustrações de Regina Yolanda, o Boi entra em cena e faz suas estrepolias ora por imagens multicoloridas, ora em preto e branco, aqui em página inteira, acolá em moldura, imitando o pão-por-deus, além em página dupla, e nos convida para a dança.
É necessário também dizer que, em um país em que o livro é ainda objeto de luxo — como apregoava Monteiro Lobato, em 1923 —, levando em conta o tipo de papel, a qualidade das ilustrações e a comparação, que é inevitável, a outros títulos que circulam no Mercado editorial, o valor de O Boi-de-mamão (R$ 13,00) surpreende de imediato.
No ritmo do Boi-de-mamão, Rogério explicita ao leitor o que aprendeu pela voz de seus informantes: para fazer o Boi é necessário “primeiro se informar como é que tem que ser feito, para depois fazer”. Parece que Rogério aprendeu a lição! Por isso, caro leitor, arreda do caminho todos os entraves, que é hora de ver e ler O boi-de-mamão, de Regina Yolanda e Rogério Andrade Barbosa.
Mais do que isso não posso dizer, senão estraga a brincadeira!!!