Crônicas do Arco-da-Velha
Eloí Elisabet Bocheco
Figueiras
Minha vó, a velha Olímpia, era uma figueira que dava belos frutos dourados. Não sei se já
nasceu com ares de figueira, ou se foi se tornando tal qual devido à convivência com as
figueiras que cultivava no terreno próximo da cada ou se, um dia, sem que ninguém notasse,
nascera de novo e viera ao mundo com o perfil das figueiras da terra.
Sempre que aquelas figueiras me dão a mão, é a mão da minha vó que seguro.
As folhas das figueiras e as mãos da minha vó tinham a mesam textura cascuda e áspera,
mas tanto ela como as figueiras davam frutos de enorme doçura.
Se volto a me sentar debaixo daquelas figueiras, logo vem a minha vó com um cesto
de vime e, então, enchemos o cesto de figos e rimos de qualquer coisa que nossos olhos
alcançam. Nem parecia que ela tinha o abismo em si, nem que vinha de tantos desertos
de tão pronta que era para achar graça nas coisas mais miúdas que acontecem debaixo
do céu.
Um caminho de formiga, uma minhoca que caísse da bica d'água, um grilo que saltasse,
de repente, no chapéu, um louva-a-deus sobre a pedra, o melado que ficasse mais escuro
que de costume, uma mamangava que tentasse entrar no cabelo, uma espiga de milho mal
nascida, tudo era motivo de encantamento e risadas para a velha Olímpia.
Essas contas lúdicas que ela ia desfiando ao redor de si, juntei-as todas e, delas,
fiz lindos colares que uso para enfeitar a alma.
Os figos maduros viravam doce, feito no tacho, sobre o fogo, aceso entre pedra,
ao ar livre. Eu me sentava num toco de cabreúva para acompanhar a transformação dos
figos das figueiras em doce. O tacho era, na verdade, um caldeirão mágico onde ela,
maga cônscia de seus poderes, misturava magias de várias procedências, e mais os
cantos da tarde: de cigarra, de sabiá, pomba-rola, bem-te-vi, canarinho, nhambu,
curucaca, que entravam na massa e giravam nas voltas da colher de pau.
Com o olho, eu virava e desvirava o doce de figo: o doce chegava no ponto e o meu
olho também. Depois de frio, era guardado em caixinhas de madeira e estocado no
guarda-louças, de onde vinha à mesa no café da manhã e da tarde. Aquele era o doce de
figo mais do outro mundo que já provei. Os que tenho encontrado, hoje em dia,
misturam pós-mágicos de pouca confiança para os intestinos e para o coração.
Tinham, ainda, em comum, as figueiras e minha vó, a sombra boa, que atraía de longe.
As figueiras, pelas folhas largas, e ela, pelas grandes asas, sempre abertas, feito
sombrinhas abrigando do sol ardente. As duas tinhas seus silêncios pendentes:
as figueiras, pelas chuvas de granizo, que abriam rombos em suas folhas, e a minha vó,
devido a espinhos fincados na carne, por descuido do destino. As folhas das figueiras
se refaziam das pedradas, e a minha vó ia mudando de lugar os espinhos da carne
para não a espetarem sempre no mesmo lugar, e lhe dessem trégua para ir vivendo,
sem perder o humor e o ludismo de que transbordava.
Vai ano e vem ano, e no entanto, conservo a afeição pelas figueiras. Plantei
duas em meu quintal, em homenagem à minha vó. Tenho certeza de que ela já sabe,
e tem vindo vê-las; sabe que estão cheias de folhas novas e de promessas,
que não sei se vão cumprir, porque a terra é outra sob as suas raízes.
Haverão de vingar e dar sombra e frutos; principalmente sombra, onde me sentarei
com minha vó e contaremos uma a outra as coisas deste e doutro mundo.
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