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Os livros vêm morar em mim...
Reflexões da personagem Luzia Teresinha Lopes, varredora de rua que, junto com suas colegas, descobre o livro literário.
Em “Sala de Ferramentas - Leituras em serviço” (III capítulo) obra inédita de Eloí E. Bocheco
Os livros de invenção nos levam a viver uma imensidade de outras vidas. Nem dizemos ô de casa! e já vamos entrando pelos vãos das palavras e quando vemos estamos morando nos lugares mais diferentes, descobrindo o segredo das gentes inventadas, seus mistérios, seus penares, sua alma, sua palma. Elas vão entregando pra nós o jogo, o ouro, o doce, o amargo, como coisa que esperavam pela nossa chegada. As gentes inventadas falam do de dentro de nós, daquilo que redemoinha em nosso pensamento, do nosso recheio de dor, alegria, iras, tribulações, suspiros, gemidos e tanta coisa que habita no de dentro de cada uma pessoa.
E a gente pode se mudar pro livro por quanto tempo quiser. Morar em livro ajuda a gente a se criar. Por dentro, a gente se cria até a morte, ou não se cria e seca, como vimos na leitura daquele conto em que o personagem vira arquivo de metal de tanto não se criar por dentro. Acho que livro serve à nossa criação e serve durante toda a vida, porque não é só na meninice que estamos nos criando, mas criação é pra sempre, e com as leituras pude ver o quanto a nossa criação fica mais fortalecida e variada e mudativa de um degrau pra outro. Tem um conto que lemos com a Rosália, que é de um autor chamado Inácio (de Loyola Brandão, obrigado). A personagem escrevia aquelas cartas porque tava sufocada num casamento sem graça nenhuma, chocho que nem baba de sapo, tão somente suportado por falta de tomar tento com a vida, por falta de se criar, no fim das contas.
Muita gente por fora tá criada, mas por dentro não. Como dizia meu pai: por fora seda e renda, por dentro Deus me defenda!, porque, por dentro, a pessoa tá mal criada, e é nisso que o livro ajuda, eu acho; livro que preste, livro vantajoso pro pensar, enlevoso pros sentidos. Dei O AbraçoLivro pode ser uma morada pra sempre porque a gente termina de ler e pode voltar pro começo e morar tudo de novo, e quanto mais mora mais se cria. E são moradas tão diferentes umas das outras que a gente aprende tudo quanto é jeito de morar no mundo.
Me representa que o livro também vem morar em mim. Me mudo pra ele com tudo que tá no meu viver de ontem e de hoje. Moro nele. Ele mora em mim. Misturamos as moradias, ou trocamos, não sei bem, o que sei é que vira uma mistura tão bem misturada e variada que não tem mais fim.
De certos livros, quem disse que quero voltar depois que boto meu pé pra lá da cerca? Livro que de louco não tem pouco, esses, então, atiçam por inteiro o meu juízo. A Rosália trouxe uma piosca de livros de um autor estrangeiro, na qual piosca, uma das histórias é O vendedor de palmadas e outra é O diabo de cabelos brancos. A gente se escangalhou de rir com essas histórias, foi como uma rajada de alegria atravessando o coração da gente de ponta a ponta. A Rô explicou que essas histórias “loucas”, que ela chama de histórias do nonsense, fazem o olhar da gente se desacostumar do costume. Dão um susto na ordem e quebram as pernas das regras.
Dei um livro desses pra professora da minha sobrinha e a profa. disse que não leu pros alunos porque não tinha nada na história que servisse pra matéria que ela tava ensinando. Aí, a minha sobrinha leu por conta e se encantou com o tanto de vida brincada que tem nos livros desse autor*. Não entendo de ser professora, mas o que é que custa ler um livro pras crianças, só pra elas se alegrarem? Alegria também é sustento, não é?
Qualquer um livro da autora dO Abraço dá muito que morar. O primeiro que lemos dela foi A Bolsa Amarela e aqui ninguém perde de vista as moradas que ela prepara pra gente. A Use, quando ainda lia soletrado, andava com os livros dessa autora na mão, que nem um que andasse com um pires, pedindo ajutório, a pedir pra gente ler alto pra ela ouvir, de tanto anseio que ela tinha por essas moradas. Têm uns que sabem ler, têm o livro perto, e nunca lêem nada; isso eu acho triste. E têm os que davam a vida por um livro mas não têm o conhecimento das letras; isso eu acho mais triste ainda. É como ter diante de si uma mina d 'água, ter sede e não poder beber porque a mina d 'água tá cercada de arame farpado, e tramado. Quem não sabe ler fica pra cá da cerca e a mina d 'água é só pra olhar e deixar.
De pouco em pouco lemos pra Ilse O Sofá estampado e Os colegas, dois livros que têm bicho. Livro que tem bicho me acena e eu já faço caso do aceno. Quando a Rosália trouxe A cama, a Use já tava lendo por conta, devagar, mas leu até o fim. Quando terminou de ler ela nunca mais que parava de beijar A cama da Lygia Bojunga. Ela tava é comemorando! A gente viu. Tinha derrubado a cerca e tava bebendo da mina d 'água com a própria concha da mão. Ela se impressiona com os nomes dos personagens, de como é que a escritora faz o nome cair tão certinho na cabeça deles. E é mesmo! Parece que o tatu Vítor, só podia chamar Vítor, a Petúnia, Petúnia, o Tobias, Tobias, e por aí assim.
Uns livros têm mais esconderijos que outros. A Rosália sabe tudo sobre o jeito de cada livro, por isso, guia bem a leitura, pra gente entrar e sair dos esconderijos com vitória.
Louvo a ação dessa moça, e mais a paciência dela pra ajudar a gente a ler os livros, que são mais cheios de esconderijos, uns dentro dos outros, que gente como nós não leria por conta. Macunaíma... que livro mais espiritado, que vira e desvira e também dá pinotes! Vai indo de um jeito, de repente, pula pra cima, e muda tanto de esconderijo que a gente tem que dar meia volta e tornar a entrar nele pela porta da frente, porque, senão, não se acha a de saída. A Rô disse que tava lendo o livro , não pra gente gostar ou desgostar dele, mas pra dar notícia do livro (vai rodar o filme também, e a Use se animou porque ela não ficou muito de bem com o livro, que achou muito enredado pra idéia dela). Eu, pra dizer a verdade, gostei do livro e entendi um bom pouco. Perguntei pra Rô se o autor era tinhoso que nem o Macunaíma e ela disse que o autor era trezentos, trezentos e cinqüenta. Se era tantos assim num só corpo, não ia inventar personagem morninho. Ainda perguntei: Rô, será que é tal autor, tal livro, que nem tal pai tal filho? Ela prometeu que mais pra diante vai trazer um escritor pra contar pra nós sobre as gentes inventadas, de como é que elas vêm ao mundo com a carne das palavras.
Disse que mais pra frente a gente vai ler o Macunaíma e vai ter uma surpresa. Acho que ela quer dizer que vamos entrar nos esconderijos dele e descobrir que os esconderijos não são tão volteados. Esse caminho por dentro do livro só vai adiante. Um livro bota degrau pro outro e um dia um livro que é dificultoso fica em ponto de entendimento é preciso vir vindo e lendo e elevando o juízo da gente cada vez mais pro alto.
*Pierre Grippari
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