O Armazém Literário
Tânia Piacentini
Doutora em Educação (UNICAMP)
Leitora Crítica da FNLIJ
Diretora Geral da Sociedade Amantes da Leitura
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Esses italianos
Alberto Moravia é um escritor bastante conhecido dos leitores brasileiros, pois seus livros circulam há muitos anos entre nós. Romances e contos tais como Os indiferentes, A romana, 1934, Desideria, O desprezo, Contos dispersos, e mesmo sua autobiografia, em forma de entrevista, Vida de Moravia. Uma das figuras intelectuais mais significativas da cultura italiana, Moravia publicou 40 livros, dos 17 aos 83 anos, atravessando praticamente todo o século XX, e muitos de seus romances foram adaptados para o cinema. Foi deputado e jornalista, escrevia semanalmente no “Corriere Della Serra”. Faleceu em 1990 e, alguns anos antes, publicou na Itália seu único livro de literatura infanto-juvenil, chamado Histórias da pré-história, que a Editora 34 publicou no ano passado. Traduzido por Nilson Molin e ilustrado por Cecília Esteves, as 24 narrativas, podem servir aos jovens leitores como uma excelente introdução à obra de Moravia. Mas seus fiéis leitores certamente reconhecerão a linguagem despojada, econômica e cheia de ironia, o humor sutil e, principalmente, o antimoralismo e anticonvencionalismo tão característicos do escritor italiano, na subversão que faz do gênero do qual se apropria, as fábulas.
No universo pré-histórico de Moravia, os animais têm nome e sobrenome: Croco Dilo chora lágrimas amargas depois que o golpe que preparara para os peixes na danceteria de sua boca, com seus dentes servindo de mesa e cadeiras e sua língua sendo a pista de dança é descoberto a tempo pelo inteligente Estur Jão, ajudado pela traição da fofoqueira Gar Ça, que não sabe guardar segredos. Noutros contos, ficamos sabendo que a Ba Leia, já foi pequeninha, porque a Cama Leoa muda de cor, como a Gi Rafa parte em busca de sua própria identidade, a teoria sobre o gelo e as aulas do professor de geografia Pin Güinzão, além da origem nobre do Ta Manduá brasileiro. Mas não só do bestiário vêm os personagens: os homens também se fazem presentes, assim como as mulheres, representados pelo primeiro casal no jardim do Eh Dehn e mesmo o Paih-eh-ther-noh tenta consertar o mundo terrestre que criara, após ouvir em tantos epigramas, jogos de palavras e frases de espírito as queixas dos animais descontentes com as imperfeições causadas pela pressa dos sete dias da criação.
Nenhum leitor, seja qual for sua idade, ficará indiferente a essa refabulação tão anticonvencional, a esse texto novo cheio de surpresas lingüísticas, estilísticas e de pensamento, a essa releitura cômica e séria ao mesmo tempo do antigo e conhecido mito da criação.
Se Moravia me era familiar, eu desconhecia totalmente Silvana Gandolfi, autora do instigante Aldabra, a tartaruga que amava Shakespeare, editado pela Rocco na linha Jovens Leitores. Uma história surpreendente, em que um tema difícil e delicado como é o lento progresso da velhice humana ganha possibilidades insuspeitas. Num romance curto e ágil, realidade e fantasia se entrelaçam num novo mundo criado pela linguagem poética, imagens sutis, lugares fantásticos, sentimentos finos, descobertas e reposicionamentos afetivos. A relação entre três mulheres, a neta de 10 anos sendo o elo de ligação entre a vó com mais de 80 e a mãe que a criou sozinha, as adultas separadas por um segredo que a menina desconhece. Tudo se passa num vai-e-vem entre o lugar da fantasia criado e mantido por uma avó excêntrica e artista, que declama e encena Shakespeare com a neta, pinta pequenos quadros mais ou menos comerciais para vender como souvenir aos turistas que sempre invadem Veneza, enquanto cria e recria em telas cada vez maiores o novo mundo em que aos poucos penetra, e o lugar da vida cotidiana, o mundo da mãe, a casa e a banca de jornais, a escola, a cidade cortada pelos canais, as estações do ano, a passagem do tempo, a velhice e o amadurecimento de todas as personagens. Narrado pela menina, a história mescla emoções infantis a dores mais velhas que o mundo, e ritos de passagem simbólicos são tratados com uma originalidade desconcertante.
“O melhor-jeito de passar a perna-na morte é mudando de aparência”, diz a avó no início do livro, fortalecida pela frase do dramaturgo preferido: “Sabemos o que somos, senhor, mas não o que podemos ser”. Podemos dizer que entre essas duas máximas a autora construiu uma terceira margem, fluida, poética, doce e amargamente verossímil. A mesma máxima que encontrei no poema de Manoel de Barros, Introdução a um caderno de apontamentos*, onde também um menino e seu avô convivem nos deslimites da imaginação, naquele mundo e “naquele tempo de dantes (onde)não havia limites para o ser”.
E enquanto eu me regozijava com a fantasia e criatividade desses escritores, com o que eles têm de mais surpreendente, a capacidade de jogar as nossas certezas e as nossas expectativas para um improvável mundo, para mudanças quase inverossímeis, porém facilmente assimiláveis, outros nomes e obras me vieram à mente. Ítalo Calvino e sua trilogia O visconde partido ao meio, O barão nas árvores, e O cavaleiro inexistente –, Gianni Rodari com A gramática da fantasia e Fábulas ao telefone, por exemplo.
Mas também, me perguntei: esses italianos, bem lá no começo de tudo, não tiveram Dante, com A Divina Comédia?
* No livro Concerto a céu aberto para solos de ave. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1998.
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