A memória é uma arca que guarda muitas histórias:
a propósito do livro De fora da Arca de Ana Maria Machado
Eliana Debus
Doutora em Letras (PUCRS)
Professora da UFSC e UNISUL
A escritora Ana Maria Machado é surpreendente, com bem mais de 100 títulos para o público infantil e juvenil, sete romances, três de ensaios e outros acadêmicos, como Recado do Nome (1976). A escritora recebeu pelo conjunto de sua obra o Prêmio Hans Christian Andersen (2001), instituído pelo International Board on Books for Young People (IBBY), prêmio máximo da literatura infantil mundial - do qual Lygia Bojunga Nunes havia sido vencedora em 1982, quebrando o jejum ao retirar o prêmio do Eixo Europa – Estados Unidos. Ocupante da cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras (votação em 24 de abril de 2003), a autora foi a sexta mulher a entrar para a ABL e a/o primeiro escritor(a) com uma produção literária marcadamente para crianças e jovens a ser recebida na casa. Alguns de seus títulos já criaram raízes no repertório literário para crianças e jovens, como Bento-que-Bento-é-o-Frade (1977), História meio ao contrário (1978), O menino Pedra e seu boi voador (1979), Bisa Bia Bisa Bel (1982), entre muitos.
Você já parou para pensar o que aconteceu com todos os bichos que não foram escolhidos para serem protegidos pela Arca de Noé?! Pois é o que Ana Maria Machado nos apresenta no livro De fora da Arca (Ática, 2004).
Narrativa bíblica da Arca de Nóe a previsão de um dilúvio Universal com 40 dias de chuva e a possibilidade de um homem eleito, NOÉ, salvar um casal de animais - é o mote pelo qual a escritora tece sua narrativa. A explicação para aqueles que sobreviveram centra-se nas coisas do mar, aéreas e etéreas. Vida longa aos que sobreviveram nas águas, no ar e na imaginação. Assim, aos animais comuns (reais) é acrescentado um grupo de animais incomuns (fantásticos).
Durante as longas noites de chuva a família de Noé conversava e narrava histórias trazendo à tona muitos animais. Assim, através do contar histórias, a memória dá guarida aos animais fantásticos (animais míticos e lendários). E por meio da imaginação criativa e da voz do contador de histórias eles também são salvos. Estruturado com verbetes em ordem alfabética, todo um bestiário mitológico/medieval vai sendo reconstituído: Anfisbena, Basilisco, Centauros, Dragão, Esfinge, Fênix, Grifos, Hidra, Íbis, Jurupari, Lâmia, Mafagafos, etc.
A linguagem visual é marcada pelas ilustrações de Laurent Cardon e representada pelo colorido azul/céu/mar - o mundo mitológico - e pela cor marrom/terra - o mundo bíblico.
A letra da música “Quem fez a arca?”, cantiga anônima traduzida por Ana Maria Machado, dá ao conto um ritmo acumulativo:
Quem fez a Arca?
Noé, Noé...
Quem fez a Arca?
Foi Noé quem fez a Arca...
Lá vêm os bichos, doze a doze,
Uns se descabelam, outros nem perdem a pose...(p.13)
Esse livro merece ser lido e nada melhor do que as palavras de Ana para justificar a sua leitura: “Nas frases que contam história e em cada canto da memória./Em cada obra que marca, cada lembrança é uma Arca” (p.38).
Este texto foi publicado no site www.asadapalavra.com.br na sessão artigos.
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