entrevistacom a especialista em LIJ
por Tânia Piacentini* Ninfa Parreiras é mineira, de Itaúna, e mora no Rio de Janeiro há quinze anos. Professora e Psicanalista, é formada em Letras e Psicologia pela PUC-Rio. Atualmente faz mestrado em Literatura na USP e é pesquisadora da FNLIJ, onde trabalha com textos, projetos de leitura e pesquisas de LIJ. Foi bolsista, em 2000, na Biblioteca Internacional da Juventude de Munique, Alemanha, maior biblioteca de livros para crianças e jovens do mundo, onde desenvolveu uma pesquisa sobre o desamparo na LIJ. É professora em cursos de LIJ na Estação das Letras, no Rio e mantém uma clínica de atendimentos. É autora de ensaios e artigos na área de LIJ e Psicanálise. Tânia — Como começou tua relação com os livros para crianças e jovens e com a literatura destinada a este público específico? Ninfa Parreiras — Minha relação com os livros começou na minha infância em Minas Gerais, onde nasci. Meu pai teve uma gráfica e fundou um jornal, onde trabalhou como editor; ele lia e escrevia muito, diariamente. Tive o privilégio de conviver sempre com os livros em casa. Foi uma infância povoada de histórias que ouvia da minha mãe, do meu pai e da vizinhança. O mais interessante é que meu pai costumava ler em voz alta as matérias que fazia para o jornal. Foi um exercício importante para a minha formação como leitora. Sou de uma cidade bem pequena, onde demoraram a chegar o asfalto, a TV, a geladeira, mas o jornal e os livros não faltaram. Aprendi a ler em casa, brincando de dar aulas para meus irmãos e colegas. Tânia — E depois, como foi a sua opção por trabalhar com a LIJ? Ninfa Parreiras — Depois, comecei o curso de Letras na UFMG, em Belo Horizonte; me mudei para o Rio de Janeiro e terminei minha graduação na PUC-RIO, onde tomei contato com a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil — FNLIJ, primeiramente como estagiária e depois trabalhando com pesquisas de LIJ. Isso foi em 1987, quando o escritor Luiz Raul Machado deu umas aulas de LIJ na PUC e falou sobre a FNLIJ. Senti uma curiosidade enorme pelos livros, pela literatura para crianças e fui me apaixonando e me aproximando cada vez mais. Morei cinco anos fora do Rio e voltei pra a FNLIJ em 1995, onde estou até hoje. Fiz Psicologia, formação em Psicanálise e agora um mestrado em Literatura na USP. E não deixei mais de trabalhar com literatura para crianças e jovens. Tânia — E como se situa a LIJ nessa trajetória profissional? Ninfa Parreiras — Sempre trabalhei com a palavra, com o livro, com a leitura, com a interpretação, com o olhar. Sou uma pessoa muito observadora e isso tem me ajudado no trabalho como professora, como crítica de LIJ e como psicanalista. No fundo, no fundo, estou lidando sempre com a subjetividade e com o imaginário; com as palavras e com as pessoas. A LIJ me ajuda no consultório, a entender o inconsciente das pessoas e a Psicanálise me ajuda na leitura de um livro, dando-me ferramentas e suportes para a crítica literária. Tânia — Tu tens trabalhado em artigos e ensaios, sobre a questão dos afetos presentes na ficção e na poesia para crianças e jovens. Como a tristeza, a dor, o sofrimento, o medo, a raiva, a inveja, por exemplo, são trabalhados pelos autores e são recebidos pelo leitor? Ninfa Parreiras — Há autores que sabem muito bem trabalhar os afetos numa obra. Como exemplo, temos o autor Daniel Munduruku, um indígena que tem feito muito sucesso com livros para crianças e jovens. Em Você lembra, pai?, ilustrado por Rogério Borges, da editora Global, temos um poético depoimento de um filho ao pai, que pode ser lido e apreciado por um jovem, por um adulto. É um exemplo de uma relação edípica bem elaborada. O menino se identifica com o pai, fala das memórias da infância e adolescência, fala das mágoas e vai apresentando os ritos de passagem da cultura indígena e a subjetividade presente em sua vida. Na LIJ brasileira, há outros autores que trabalham os afetos de uma maneira poética, como o Bartolomeu Campos de Queirós, em Por parte de pai, da editora RHJ, e Lygia Bojunga, em Os colegas, da Editora Casa de Lygia. E há muitos autores brasileiros, que mergulham fundo na nossa alma, nas nossas dores, nos nossos conflitos: Angela Lago, Ana Maria Machado, Ziraldo e tantos outros. E fazem nossos sentimentos travestidos em metáforas, em Poesia. Tânia — Por que muitos adultos mediadores da leitura se assustam com a presença de sentimentos considerados “fortes” ou “negativos” em livros que sofrem, assim, uma espécie de censura psicológica? Ninfa Parreiras — Isso se dá porque muitas pessoas têm preconceitos com determinados assuntos, como a morte e a perda. Mas esses valores podem estar presentes nas obras para crianças e jovens, para que eles conheçam os meandros da existência humana. Outras vezes, os adultos têm medo de não saber lidar com a situação. Na verdade, um afeto como o desamparo está presente numa obra, assim como o humor pode estar presente. A literatura é, principalmente, para ser lida. O professor não deve ficar receoso de levar um livro que trabalhe com as fragilidades humanas. A literatura é porta-voz dessas fragilidades. Cada leitor vai senti-las de uma maneira diferente. O que há de mais lindo na literatura é o fato de ela ser uma radiografia do inconsciente, sem compromisso moral. Tânia — Outra questão que tens abordado é a da imagem e de sua relação com o texto narrativo ou poético na ilustração de livros. Quais seriam as condições para um casamento feliz entre essas duas linguagens? Ninfa Parreiras — A formação que é oferecida aos professores enfatiza muito o valor da palavra e do texto escrito. No caso da literatura para crianças, a ilustração tem uma relevância a ser destacada. Um livro para crianças se caracteriza pelo conjunto do que é composto: texto, desenhos e projeto gráfico. Então, não há como fechar os olhos à ilustração. São linguagens diferentes dentro de um livro. Um texto não tem que se sobrepor à ilustração. E a ilustração não tem que ser fiel ao texto. Para mim, uma ilustração não deve ser uma mera legenda: se o texto fala de uma casa azul e a ilustração traz apenas a casa azul, ela ficou no óbvio, serviu como legenda. A ilustração pode e deve entrar com elementos que não foram mencionados no texto, seguindo uma coerência obviamente. Ela deve trazer um olhar em imagens da história que está ilustrando. Claro que há obras em que o texto surgiu primeiro que a ilustração e há obras em que a ilustração surgiu antes do texto. E há obras com trabalhos em parceria. De fato, há espaço para todos os artistas da LIJ, quando o compromisso é a arte, o respeito ao leitor. Vizinho, vizinha, de Roger Mello, ilustrado por Graça Lima, Mariana Massarani e Roger Mello, da Companhia das Letrinhas, é um belíssimo trabalho de parceria, a seis mãos; a expressão de um artista não rouba a cena do outro. Há espaço de expressão para os três mostrarem a individualidade e solidão de dois vizinhos e a própria ruptura trazida pelas crianças que “bagunçam” a história, brincam com o mundo dos adultos. É uma obra de arte, vale a pena conhecer! Um bom casamento entre texto e ilustração se mostra na obra que intriga o leitor, que o deixa apaixonado ou com mal estar, tanto do ponto de vista da escrita, quanto da imagem. Tânia — Qual a importância de uma educação para a leitura de imagens? Ninfa Parreiras — É importante para enriquecer o olhar da criança. Lembro-me que quando criança, eu ia muito para o campo, à zona rural, à roça mineira. E era bom ficar olhando a mudança da paisagem, a gente brincava de falar do que via, do que sentia, do que ouvia... Até hoje tenho aquelas imagens dentro de mim, a poeira rosa, a poeira vermelha, a poeira cinza, a poeira molhada, a poeira lavada, a poeira de vaca, a poeira de pedra, a poeira podre, a poeira perfumada... Aquilo tudo alimentou meu imaginário e meus sonhos. Quando tinha que fazer redação na escola, na época era chamada de composição, não me faltavam idéias. Havia muita poeira, havia muitas pedras, muitos sentimentos, havia muito de tudo... E depois, uma educação para a leitura de imagens abre caminhos para se gostar da Arte, das pinturas, esculturas, dos desenhos, do texto e das ilustrações de um livro. Minhas primeiras professoras, providas de poucos recursos, usavam recortes de revistas e folhinhas com fotos para ensinar a ler a gravura, o texto sem palavras. Daquela leitura a gente tinha que escrever. Hoje em dia, vivemos um momento que oferece recursos para uma educação do olhar plástico: fotos, reproduções de obras de arte, livros ilustrados... Tânia — Uma distinção importante a fazer nos livros para crianças e jovens é entre o livro de literatura e o informativo, entre as linguagens, os objetivos e as recepções diferenciadas que demandam. Como tu vês os professores, a prática escolar, quanto a isto? Ninfa Parreiras — Vejo que muitos professores ainda não sabem diferenciar um livro de literatura de um livro informativo. Costumo dizer que a literatura é diferente de uma manifestação literária. A literatura, como arte, como Poesia, é absolutamente singular. Ela existe para deleitar o leitor e pronto. Não há uma obra igual à outra. E ela não é datada em faixa etária, ela pode ser uma literatura para criança, para jovem, para adulto, respeitando essas diferentes etapas do desenvolvimento humano. Quanto aos professores, percebo que eles têm poucos recursos para lidar com a literatura e outras artes na escola. E é difícil fazer com que um aluno goste de ler se o próprio professor não gosta de leitura. A formação do professor deveria ser enriquecida com o ensino de artes e de literatura. O livro informativo, de não-ficção, pode ser aproveitado para pesquisas, para leituras escolares e deve ser trabalhado de acordo com os conteúdos que traz. Ele é diferente do livro literário, que não deve ser utilizado para se ensinar gramática, mas deve ser utilizado para o deleite do leitor. E a literatura deve estar presente na escola sem compromissos com avaliações, com notas; do contrário, ela traz um anti-clímax. Tânia — Tu trabalhas na Fundação Nacional de Literatura infantil e Juvenil - FNLIJ, há bastante tempo. Como esta instituição se organiza e como funciona? Ninfa Parreiras — A FNLIJ é uma instituição de direito privado, é uma fundação, sem fins lucrativos. Ela foi criada há mais de 30 anos e é a pioneira na promoção da leitura no Brasil. A FNLIJ é a seção brasileira de um órgão internacional, o International Board on Books for Young People - IBBY - criado após a segunda guerra, por uma judia que queria reconstruir os destroços da guerra e aproximar os povos por meio da leitura de LIJ. Há mais de 60 seções nacionais do IBBY pelo mundo hoje. A FNLIJ desenvolve um trabalho importantíssimo no Brasil de promover o livro de qualidade para crianças e jovens: promove e organiza cursos para professores; cria bibliotecas; realiza há seis anos uma feira de LIJ, no Rio, o Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens; publica mensalmente um jornal informativo sobre LIJ; desenvolve há 30 anos o prêmio FNLIJ, hoje em 16 categorias, para os melhores livros de LIJ do ano. São muitas ações desenvolvidas em parceria com empresas e instituições públicas e privadas. Internacionalmente, a FNLIJ representa o Brasil em feiras internacionais, como a feira de Bolonha, a mais importante no setor de LIJ; em exposições e congressos de LIJ. E é a instituição responsável pela representação do IBBY no Brasil, indicando escritores e ilustradores para concorrerem ao Prêmio Hans Christian Andersen, já concedido duas vezes às escritoras brasileiras: Lygia Bojunga, em 1982, e Ana Maria Machado, em 2000. Tânia — Como pessoas físicas — pais, professores, leitores — e pessoas jurídicas podem se associar? Que benefícios podem usufruir dessa associação? Ninfa Parreiras — Uma pessoa física ou jurídica pode se associar à FNLIJ — no site há informações: www.fnlij.org.br. Ao se associar, a pessoa recebe o jornal mensal Notícias durante um ano e pode fazer pesquisas no Centro de Documentação e Pesquisa — CEDOP, que é aberto a sócios. A FNLIJ possui um excelente acervo de livros de e sobre LIJ, de periódicos e revistas da área, além de um acervo internacional bastante representativo. Os sócios têm acesso a todas as áreas do site da FNLIJ e podem se manter informados sobre o mundo do livro de LIJ e da leitura. Tânia — Muito se tem destacado a importância do trabalho da FNLIJ na formação de leitores, na melhoria da qualidade do livro para crianças e jovens em nosso país, na difusão da literatura brasileira no exterior: o que tu consideras mais significativo neste trabalho? Ninfa Parreiras — O que há de mais significativo no trabalho da FNLIJ é a singularidade do que ela faz: divulga e promove o livro de qualidade dentro e fora do país. Não há outra instituição no Brasil com tamanha responsabilidade. E as iniciativas da FNLIJ são pioneiras, como os programas de incentivo à leitura, a exemplo do programa Ciranda de Livros. Agora, a FNLIJ conta com quatro concursos dirigidos a professores, bibliotecários, pais, educadores, escritores indígenas. No site da FNLIJ, encontramos muitas das ações desenvolvidas por essa instituição que abriga a leitura, a literatura, o livro, o leitor, a criança, o adulto. Tânia — Que entraves e dificuldades a FNLIJ ainda enfrenta como organização civil? Ninfa Parreiras — Principalmente a dificuldade de manter a sua equipe de profissionais com poucos recursos financeiros. A FNLIJ está hoje conhecida e reconhecida pelo trabalho que realiza, mas faltam parcerias que possam manter sua estrutura de pesquisa e difusão de informações na área de LIJ. |