e n t r e l i n h a s

leitura: um elo para sempre...

Yedda Goulart
Escritora, Mestre em Literatura e
Representante Regional da AEI-LIJ em SC

Da primeira infância, guardamos fortes lembranças, mesmo que não de maneira muito clara. Os primeiros anos, por mais distantes que estejam, permanecem de forma indelével na memória e se expressam na nossa maneira de ser e de atuar.
Quando paramos para "ouvir o coração", quando nos buscamos nos momentos de introspecção, como quem pára em oração, encontramos pedaços fugidios de lembranças que se confundem com sonhos e impressões.
Assim, elas nos parecem pertencer a um outro mundo, a um outro nível de consciência, às vezes, até mesmo a uma outra pessoa, filme, etc. Há quem as guarde muito vivas. Pelo menos algumas delas...
O triciclo que nos levava a percorrer a rua onde vivíamos, a árvore de natal cheia de luzes faiscantes, a boneca de olhos verdes. A presença materna, o aconchego de seu colo, as histórias que ela nos contava, os livros que nos lia... E como um milagre, confundindo-se com os textos, o som de sua voz, relatando as maravilhosas histórias de fadas, príncipes e princesas, animais falantes, anões e castelos que vinham povoar nosso quarto, nossos sonhos e nossa imaginação, e mesmo, nossa visão de mundo.
Sobre a importância da leitura para crianças e o forte elo afetivo que se estabelece muito se tem falado. Algumas linhas da psicologia moderna servem-se de pequenas histórias para tocar sentimentos recônditos. A leitura afetiva faz com que aqueles momentos mágicos se transformem em um sentimento inexplicável de saudade, ternura e paz. Um retorno ao sentimento de segurança quando a alma está plena de felicidade por termos sido aceitos, amados e acarinhados. O tempo que nos era concedido, no espaço mágico da leitura, fortalecia uma relação entre nós e quem nos aproximava daquele mundo fantástico onde tudo podia acontecer.
Assim sendo, conversamos com alguns escritores de SC, para sondar-lhes emoções vividas e doces lembranças através da pergunta:

“Quem leu para você na infância?”

Quem leu para mim e meus irmãos, na infância, foi principalmente meu pai. Na hora de dormir, ele ia ao quarto das meninas e, depois, aos dos rapazes, e contava histórias fantásticas. Muitas ele mesmo inventava, mas não faltavam os contos de fada clássicos. Se tinha reunião de uma das numerosas atividades de que participava — criou clubes de filatelia, numismática, de criação de aves, de cultivo de orquídeas, etc. — contava as histórias do corredor, para os dois grupos, mas sem pressa. Nos fins de semana à tarde, lia para nós; às vezes, apenas o começo de um texto, e se afastava, largando o livro por acaso ao nosso alcance. Presenteava-nos com livros. Foi um grande e divertido contador e leitor de histórias.
Maria de Lourdes Krieger


Quando eu era criança, ainda sem saber ler, a fantasia nos chegava pela voz carinhosa de minha mãe e tias, que nos contavam histórias até que "o velhinho do sono" nos cerrasse as pálpebras; elas também leram Lobato e a coleção de contos de fada da, salvo engano, Editora Nacional. Mais do que uma troca intelectual, era uma troca afetiva, fazia parte do bemquerer.
Eglê Malheiros


Quando eu era pequena, meus pais liam para mim contos de fadas e histórias em quadrinhos. Eu estava com cinco anos e, muitas vezes, pedia para que lessem alguma coisa quando eles não tinham tempo. Então, pedi que me ensinassem a ler. Meu pai comprou uma cartilha e um caderno de exercícios, e minha mãe, pacientemente, foi me ensinando o alfabeto e as primeiras sílabas. Um dia, aventurei-me a juntá-las, decifrando minha primeira palavra; era o nome de um personagem da revista "Sesinho", que existe até hoje. Chamava-se "Chiquinho". É indescritível a sensação de vitória que tive, ao ler aquele nome! Desde então, não parei mais...
Ana Maria Kovacs


Quem leu pra mim foi minha irmã, que era sete anos mais velha que eu. Lembro-me como disfarçava as minhas emoções, que eram extremamente profundas. No dia em que ela leu a história do Patinho Feio, por exemplo, eu me pus a chorar tanto, mas tanto, que botei a família toda em polvorosa. Quando todo mundo quis saber o que eu tinha, e me trouxeram chás, etc. eu fiquei com muita vergonha de estar chorando de emoção, e menti, dizendo que tinha uma dor no lado.
Urda Alice Klueger