LIVROS QUE CUIDAM
Eloí E. Bocheco
Quando explode o tiroteio no morro, um menininho corre pegar seu livro de histórias
e, agarrado nele, se esconde debaixo da cama. Ele tem vários livros, que a mãe dele
ganhou na casa da patroa. Gosta de todos mas, para companheiro de todas as horas,
inclusive as de medo e morte, escolheu Veludinho, que conta de um menino e de
um pássaro marrom. Abraçado ao Veludinho o menininho espera a guerra acabar.
O que ele faria do medo sem o Veludinho por perto?
Uma mulher da mesma comunidade do menino vinha à biblioteca procurar livros de
Cecília Meireles porque a confortavam. Uma vez apareceu com a testa cortada — uma
facada do marido — e disse que precisava de toda Cecília Meireles que tivesse e mais
um pouco de Manuel Bandeira, se fosse possível. Ao devolver, na semana seguinte,
perguntou: "tem aí mais coisas de consolar?" Levou Cartas do meu moinho de
Alphonse Daudet. Renovou quatro vezes e declarou: "pudesse, ficava com esse consolo
pra sempre".
Outro menino vinha de longe buscar o livro literário. Na escola dele só tinha
livro de lição. O menino se ressentia da falta de livro inventado e se abastecia com
vários títulos para a semana. Nas férias, queria levar um que durasse até as aulas
recomeçarem. Era um menino raro aquele. Dizia que queria estudar para ser um bibliotecário.
Na verdade, já começou a ser. Criou uma biblioteca na comunidade. O acervo é pequeno,
o lugar é inóspito; ele não se importa e vai fazendo a repartição de sonho.
Certa menina copiava num caderno todos os livros que levava. "Posso voltar “lá”
quando quero". "Lá" era dentro da história e "lá" ficava a graça que consola, o puxão
pra fora do limite, o sopro lúdico, a asa inventada.
Tinha um menino que escondia o livro debaixo do colchão. A providência era para
evitar que o irmão menor rasgasse. O menino cuidava do livro e o livro cuidava do
coração do menino. Tinham um ao outro. Contava que se escondia num canto pra ficar com
o livro. Não podia ficar muito porque vendia balas nos terminais de ônibus da cidade.
O menino era triste como todos os meninos sem infância, que rolam pedras muito
maiores que eles morro acima. Havia outros mundos. Ele via nos livros. No livro,
brincava de ser outros. Um dia teria outra vida. Todo dia era dia de teimar. Livro
ajuda a teimar.
"Um pouco entendo, um pouco sinto. Sei mais sentir do que entender o que leio" —
declarou uma mulher, faxineira de sol a sol. Pedia livro que a levasse pra bem longe.
Gostava de voltar "de longe" porque tinha novidade pra contar. Dizia que A terra dos
meninos pelados é um livro quase de verdade. "A gente já gostava de livros assim,
mas não sabia" — falava com ares de quem adivinha.
Um leitor de 51 anos confessou numa roda de leitura que quando fica desesperado
esconde-se na Divina Comédia ou em Orlando Furioso. Procura as moradas
de liberdade, para se abrigar temporariamente do chumbo e da treva e tomar distância.
Todo dia um outro menino queria ler para os colegas de turma seu poema preferido.
De novo? — a classe perguntava. Nunca vi um poema tão de novo gostado como aquele.
Alguma coisa naquele texto tocava aquele menino de cara brejeira, sempre rindo, apesar
de se levantar tão cedo para vender jornal.
O coração do menino era de ouro. De ouro só. Soube que ele conseguiu entrar numa
grande universidade pública. Em silêncio e, de longe, abracei-o e abracei todos os
meninos e meninas sem infância que teimam até o limite, e teimam além dos limites que
podem suportar.