Poesia para crianças?

Eliane Santana Dias Debus
Doutora em Letras PUCRS - Especialista em Literatura Infantil e Juvenil. Professora da disciplina de Linguagem Literária do Curso de Pós-graduação Latu Sensu "Fundamentos Epistemológicos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental" na Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL

Refletir sobre uma produção literária que tem seu destinatário marcado etariamente e critérios pré-estabelecidos de escrita (enredo curto, linguagem simples, diálogo de ilustração e texto) traz algumas dificuldades, se não intransponíveis, de caráter específico de um gênero que parece em eterna luta por reconhecimento estético. Quais os limites impostos pelo gênero? Existe uma literatura a priori ou posteriori (Lembremo-nos de Cecília Meireles em seu discurso sobre os critérios de seleção)? Essa discussão, nunca vencida e esgotada, parece fazer parte intrínseca do próprio gênero.
No caso do gênero poético, a reflexão assume aspectos mais conflituosos no que diz respeito a indicações para o leitor mirim. Nem todo livro de poesia escrito para criança tem literariedade, cercado/enredado que está pelo discurso prescritivo e moralista. Os livros das coletâneas poéticas Ri melhor quem ri primeiro (AGUIAR, org. 1998), Poesia fora da estante (SANDRONI; MACHADO, orgs. 2000) e Grandes poemas em boca miúda (PAES, org. 2001) apresentam a possibilidade de introduzir para as crianças poesias que originalmente não foram escritas para os pequenos leitores, mas que podem lhes agradar.
O primeiro, coordenado pela pesquisadora Vera T. Aguiar, é uma antologia de poesia que reúne 30 escritores brasileiros, todos autores representativos do século XX. Dos autores selecionados, alguns têm livros publicados para o público infantil, como Sérgio Capparelli, Alcides Buss e Mário Quintana. Porém outros não, entre eles Mário de Andrade, Paulo Leminski, Millôr Fernandes. Existe, sem dúvida, uma grata surpresa nos poemas selecionados e em sua adequação ao público infantil.
O segundo, organizado por Laura Sandroni e Luiz Raul Machado, é uma caixa de surpresas literalmente, pois os 16 poemas de autores diferentes são introduzidos em pequenos livros individuais (14.5x14.5 cm) e com projeto de ilustração diferenciado dentro de uma caixa. De Castro Alves a Ferreira Gullar são apresentados poemas que não têm, nas últimas décadas, ocupado o repertório das crianças, ao menos nos livros didáticos e outros. Olavo Bilac, Cecília Meireles, Mário Quintana e Vinicius de Moraes, autores que têm livros para infância são inseridos com títulos do universo adulto. Quando ela fala de Machado de Assis, surpreende pela ousadia interpretativa das ilustrações de Roger Mello, e Minha sombra, de Jorge de Lima, ganha movimento na técnica ilustrativa de Elvira Vigna.
E o terceiro, organizado por José Paulo Paes, reúne 31 escritores, agora ultrapassando o universo geográfico brasileiro (Grécia, França, Suíça, Alemanha, Inglaterra, etc.) e temporal (da Grécia antiga à Suíça contemporânea). Estão selecionados autores como Fedro, Lewis Carrol, Bertold Brecht e Frederico García Lorca. A poesia brasileira é representada por Vinicius de Moraes, Sosígenes Costa e pelo próprio José Paulo Paes no poema de abertura.
As antologias ampliam o repertório dos pequenos leitores, dando-lhes significativo direito de serem merecedores de uma produção de qualidade estética sem fronteiras etárias. É certo que a criança terá dificuldades de fruir um texto de complexa significação e que existe a possibilidade de que não consiga reter o lido no que diz respeito ao aspecto cognitivo e emocional, porém isso não inviabiliza a introdução de autores que não são "prescritos" para a infância. Por outro lado, temos no mercado editorial bons autores que têm escrito especificamente para criança, sem menosprezar a capacidade do leitor, e muitos deles já foram citados no presente texto.
O bom senso e a sensibilidade são os melhores conselheiros para aqueles que têm dúvidas na seleção de um poema ou narrativa para criança.