Leituras&Leitores


Descobri o prazer de ler em minha adolescência. Menina retraída, tímida, encontrei nos livros a divina magia de comunicação e de conhecimento pelo mundo. Através deles, viajei por quase toda a Europa, parte da Ásia e quase o Brasil por inteiro.
No Mater Dolorum, colégio de minha infância e vida juvenil, vasculhei O Tesouro da Juventude e praticamente todos os clássicos da literatura mundial. Ah!, a biblioteca Madre Elisa Andreoli que me permitiu ler As aventuras de Tom Sawyer, Mulherzinhas e tantos outros. E tinha ainda a tia Pina que me emprestava obras como Oliver Twist, Os Miseráveis, clássicos impressionantes, inesquecíveis.
Sempre tive a leitura como um momento mágico, aconchegante e essencial em minha vida. É sublime e soberano o ato de ler, ato este que toda pessoa deveria aprender a considerar como insubstituível e necessário, porque vem minado de magia, é puro encantamento, provoca um extraordinário enriquecimento interior. E o conhecimento que se adquire, então! É inigualável.
Enquanto fiz o curso superior de Letras, não me defrontei com variada gama de subsídios para trabalhar a leitura discente. Mas, quando comecei a minha atividade docente, senti o quanto se fazia urgente trabalhar a leitura lúdica, principalmente. Em reuniões com professores da disciplina, residentes na região onde moro, trocávamos idéias e criávamos estratégias para convencer o aluno da necessidade e das vantagens da leitura em sua vida, bem como em toda a sua trajetória profissional. Conseguimos grandes avanços neste tempo. Inclusive, muitas verbas foram direcionadas para a aquisição de bons títulos literários em nossas escolas.
Sempre procurei transmitir aos meus alunos o quanto é bom ler. Alguns acreditam e entram no mundo da leitura. Outros duvidam um pouco, mas, pelo menos em minha presença se entregam aos livros. Às vezes, até penso que querem me impressionar porque eles sabem como eu gosto e valorizo este momento. Muitos me deixam tremendamente feliz porque lêem mesmo, são necessários muitos livros, várias histórias para saciar-lhes a vontade imensa de ler, conhecer, saber, divagar.
Quando quero aguçar a curiosidade da gurizada sobre alguma obra literária escolho alguma idéia, um pensamento básico, suficiente para impressionar o interior adolescente e lanço para a turma. A resposta vem certeira, de retorno imediato: querem logo saber qual é a obra literária, quem é o autor de pensamento tão original. Outras vezes, desfilo com algum livro em meu material escolar, ou permito que fique na companhia de um ou outro adolescente; às vezes, sorrateiramente, deixo sobre a mesa do professor, enquanto trabalho na sala de aula. É tiro e queda: sempre tem o aluno, a aluna que olha e é fisgado: senão pela capa, pelo título ou pelo assunto da obra literária.
Convencer o adolescente de que a leitura é um bom negócio nos nossos dias é um trabalho bem difícil porque a mídia é voluptuosa e os entretenimentos são exageradamente sagazes. Mas, se nos esforçarmos, com variada sutileza, conseguiremos adentrar no coraçãozinho peralta de alguns, no coraçãozinho empedernido de outros; de alguma forma sempre é possível. Em turmas grandes, como temos geralmente em nossas escolas, nem sempre é fácil levá-las por inteiro a se familiarizarem com a biblioteca e se tornarem sempre presentes neste local, que eu vejo como o coração escolar. Mas vale a pena conduzi-los sempre e insistir com sugestões, títulos e assuntos que se encaixem devagar ao interesse adolescente. É como o velho ditado diz: água mole, em pedra dura, tanto bate até que fura.
Como professores, temos o dever de fazer o aluno descobrir que ler é bom e necessário, e, principalmente, que, no ato de ler, cada ser se descobre — e, quanto mais a criatura humana se encontra consigo mesma, mais ela se depara com a sua total liberdade.

Mariliza T. Gasparetto Boz
Capinzal/SC