entrevista com o escritor catarinense

Flávio José Cardoso

por Yedda Goulart*

Mestre em Literatura e
Representante Regional da AEI-LIJ/SC

Yedda — O que o levou a escrever?
Flávio — Quando perguntam o que me levou a escrever, não vejo resposta melhor: foi a descoberta, bem pequeno ainda, da magia das palavras. Lá na minha remota vila do Guatá, estudei as chamadas primeiras letras nos livrinhos do professor Henrique Fontes, que traziam as histórias do macaco intrometido, do Zacarias medroso, do menino chorão, do serrote vai-e-vem. Além disso, havia na saleta da diretora um armário muito especial. Num compartimento dele estava a nossa biblioteca - uns dez livrinhos com poucas páginas mas com tapetes voadores, um sapo que queria ser rei e outras maravilhas. Fui vendo que as palavras fazem a gente voar, correr como o vento, entrar na cabeça de outras pessoas. Aquilo desde logo me fascinou. Era o despertar de um gosto que ia ter conseqüências. Sou alguém que vai morrer em dívida com a Série Fontes e com aquele armário.

Yedda — Seu primeiro livro tem um título muito significativo: Singradura. Principalmente para o início de uma trajetória...
Flávio — Singradura é um dos contos desse primeiro livro. Dar ao volume o mesmo nome do conto pareceu uma boa solução poética, tinha um quê de simbólico. O livro se passa à beira-mar, com praieiros e pescadores. O fato é que só vim a conhecer o mar já com a avançada idade dos onze anos. Envolver-me com esse ambiente foi uma espécie de desvio de rumo, o mais natural teria sido eu escrever sobre os mineiros, os tropeiros que desciam a Serra, aquele povo e aquele mundo bem característico da minha infância na região carbonífera. Faço isso só agora, com um livro ( inédito) que se passa todo no Guatá.

Yedda — O que o levou a dedicar-se ao conto? E o cronista seria apenas uma vereda por onde o contista às vezes incursiona?
Flávio — O conto é o gênero em que mais tenho trabalhado. Não sei a que atribuir essa preferência, penso que nem tem uma explicação. Mas o romance não está fora de plano, tenho muita vontade de escrever um quem sabe situado aqui na Ilha ou lá nos idos da infância. Quanto à crônica, valeu como uma atividade mais próxima do público, um permanente exercício de luta com a palavra e com o prazo de entrega. Durante um tempo, eu escrevia um ano no jornal, parava, voltava a escrever, e assim ia, não me cansando e não chateando muito o leitor. Com a vinda do "Diário Catarinense", me fizeram uma proposta, relutei, acabei aceitando e exagerei na dose - fiquei mais de oito anos escrevendo todos os dias. Foi muito. Parei e penso que nunca mais volto a essa barbaridade que é a crônica diária.

Yedda — Em uma entrevista você diz que seus personagens são seus amigos, que neles você está presente e cita o João Dinis de Ares gentis de João Dinis, a Natália de Chamamento, o Mingotinho Três por Quatro de Olindona. Você quer dizer com isto que os personagens possuem características suas ou são baseados em amigos reais?
Flávio — O escritor não inventa o ser humano. Vive entre seus semelhantes, pessoas de carne, osso e emoções, e é com eles que faz as histórias. A composição dos personagens resulta da aplicação da vivência que ele foi tendo ao longo da vida com a humanidade. Há muito de empatia nessa elaboração e, no final das contas, tudo tem a ver com o sentimento que tem do mundo. Toda ficção acaba contendo o autobiográfico, no mínimo por representar gostos, afinidades, conhecimentos pessoais, participação no drama e na comédia da existência. O escritor tem de ter um comprometido com o humanismo, por isso lhe são sempre caros os indivíduos que entram nas suas invenções.

Yedda — Se assim for, que características suas você empresta a seus personagens e que mais gostaria de revelar através deles? Neste caso a escritura pode ser também um caminho para o auto-conhecimento fazendo do autor um analista de si mesmo?
Flávio — Se digo que estou presente nos personagens que vivem minhas histórias não é no sentido de uma consciente projeção de mim mesmo, feita com o intuito de me introduzir na trama e de passar ali minhas idéias e os gestos que me individualizam. Os gestos e as idéias são dos personagens, estou neles porque para compô-los preciso botar o que sei da natureza humana. Os personagens resultantes desse esforço de composição só serão humanos e causarão alguma sensação de verdade se eu me colocar na pele deles enquanto escrevo. Acho bem mais desafiador e gratificante esse estar-em-todos do que me introduzir na história como um alter ego.

Yedda — Você é um autor que já tem consolidado seu espaço na Literatura Catarinense e Brasileira, com vários trabalhos premiados. Seu último livro é uma agradável surpresa por ser um livro dedicado à infância ( O tesouro da Serra do Bem-bem). O que o levou a "singrar" para o mundo infantil? Um resgate das origens, um retorno ao mundo mítico da Serra do Rio do Rastro, ou o desejo de participar do mundo de seus netos?
Flávio — Sempre tive vontade de escrever para crianças. Alegava ter outros projetos para não estar ainda escrevendo, mas era uma desculpa boba e pretensiosa, como se qualquer outro trabalho pudesse ser mais importante do que tentar uma história infantil. Na verdade, tinha medo da tarefa. Não estava maduro para a simplicidade do gênero, para ser bem criança, me despir de todo artificialismo, para não apenas criar mas fruir com meus leitores o que fosse criado. Um dia, aqui em Santo Antônio de Lisboa, caminhando com Isabel pelo Caminho dos Açores, perpetrei uma piadinha ao ver um bando de bem-te-vis fazendo algazarra.: "Escuta, tem um bem-te-vi gago, escuta". Uma besteirinha. Depois pensei: aquele bem-te-vi gago podia render literariamente alguma coisa, ia aproveitá-lo na tal historinha que queria escrever. Para o fundo de uma chácara em Santo Antônio puxei coisas da memória, a paisagem da Serra do Rio do Rastro, louvei a passarinhada solta, botei netos a viajar de carrinho de mão fazendo de conta que era a possante caminhonete XLL-1000. No centro da aventura o bem-te-vi gago. Foi um esforço pelos caminhos da fantasia inocente, na qual mergulhei com grande prazer.

Yedda — A Literatura infanto-juvenil terá um espaço permanente em sua obra ou foi apenas uma "aventura" literária? O que você pensa da literatura dedicada à infância que se faz em nosso Estado?
Flávio — Gostei da brincadeira com o bem-te-vi gago. Quero escrever mais para crianças. Tenho ido, em função do livro, a diversas escolas. A resposta da garotada é fascinante. Não há idade mais criativa, mais bem humorada, mais sincera e espontânea do que a deles. Vou ficar muito feliz se puder produzir mais nessa área e, como alguém integrado no processo cultural de nosso Estado, não menos feliz se vir meus colegas também escrevendo livros, fazendo teatro para crianças, trabalhando mais com esse público fantástico cujo cérebro está aí fervilhando e querendo coisas. Já temos gente de muito valor produzindo, mas podemos ter bem mais.

Yedda — Que outras atividades você tem exercido profissionalmente para o desenvolvimento da cultura em nosso Estado e quais seus planos para os próximos livros?
Flávio — Durante vários anos trabalhei na Editora Globo, em porto Alegre. Em 1975 vim para Florianópolis trabalhar na Imprensa Oficial do Estado e lá fiquei cerca de dez anos, respondendo pela Diretoria Industrial, onde pude desenvolver, além das atividades próprias da função, um trabalho de apoio à edição de livros. Integrei também o Conselho Estadual de Cultura. Ao me aposentar na IOESC, trabalhei na Fundação Catarinense de Cultura. Tenho procurado contribuir no que posso com a nossa área cultural, tão rica em valores. Sonho com uma união maior dos criadores e com mais seriedade dos que, detendo o poder, têm responsabilidades definidas com relação à cultura.