O Armazém Literário
Tânia Piacentini
Graduada em Letras (UFSC)
Doutora em Educação (UNICAMP)
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Para leitores extremamente inteligentes
Em 1926, Virgínia Woof escreveu: "o único conselho que realmente se pode dar sobre leituras é
o de não aceitar conselhos, seguir o próprio instinto, usar o próprio discernimento
e chegar às suas próprias conclusões. Afinal que regras pode-se estabelecer sobre livros?"
(How shoud one read a book).
De certa forma, sou fiel a esta máxima, procurando fugir do extremo das indicações de leituras obrigatórias,
tanto das clássicas quanto — e principalmente — das listas dos livros que a mídia tem nos impingido cada vez mais.
Já há alguns anos é o mercado cultural que tem ditado o que ler, principalmente através das listas dos mais vendidos,
e criado, a partir do sucesso das vendas alimentado por esse mesmo mercado, novos temas, gêneros e estilos,
além de consagrar autores e obras. Por outro lado, há uma verdadeira enxurrada de novos livros,
disputando espaço nos jornais e revistas, nas livrarias e nas mãos de leitores. Entre esses,
há os que têm discernimento próprio e não se deixam seduzir pelo canto de traiçoeiras sereias,
constituindo um grupo de aficionados da boa literatura e excelentes interlocutores em conversas
sobre livros e leituras. Por causa deles, mas também pelos que não querem se frustrar numa busca demorada e difícil,
fujo à regra e dou um conselho sem nenhum pejo. Leiam, tenham sempre à mão e só emprestem a quem vocês confiam
os três livros que a editora Objetiva publicou, em 2003, sob um título instigante e sedutor:
Contos e Poemas para crianças extremamente inteligentes de todas as idades.
Já circulam entre nós os volumes da Primavera, laranja-quase vermelho;
o do verde verão; e o do outono amarelo-mostarda — segundo minha leitura das cores das capas,
feitas por Pinky Wainer... E aguardo para ler na estação correspondente o lançamento do volume do inverno:
de que cor será?
A isca foi lançada por Harold Bloom, o consagrado crítico literário norte-americano
que nos brinda com uma seleção de textos literários organizados segundo um plano de estações do ano,
porque este "serve para o mundo todo, pelo menos em todos os climas com quatro estações!"
A síntese bem-humorada é complementada pela explicação de que o arranjo é mais temático
do que propriamente um cenário sazonal, onde se associam, tradicionalmente,
"a primavera à comédia, o verão ao romantismo, o outono à tragédia e o inverno a diferentes modos de ironia".
E faz parte da introdução, onde o autor expõe as razões e a metodologia do trabalho: o título, o público,
os critérios de seleção, os autores escolhidos, os temas, as intenções que o moveram. Enfim, deixa claro,
ainda uma vez, seu amor pela literatura e sua crença no poder da leitura. Os jovens (somente em idade)
podem pular estas páginas para se entregar à atraente leitura dos poemas e das histórias —
mas nós, os de qualquer outra idade, certamente reconhecere-mos nelas o prazer intelectual
causado pela leitura de um texto teórico-crítico inteligente, provocador, apaixonado.
A provocação começa com a sua discordância com a categoria "literatura para criança"
ou "literatura infantil" que, segundo ele, "teve alguma utilidade e algum mérito no século passado,
mas que agora é, muitas vezes, a máscara de um emburrecimento que está destruindo a nossa cultura literária.
A maior parte do que se oferece nas livrarias como literatura para criança seria um cardápio
inadequado para qualquer leitor de qualquer idade em qualquer época". Argumenta dizendo que
já leu praticamente tudo o que reuniu nesses livros dos cinco aos l5 anos de idade,
e que os continuou lendo até os 70 anos, tornando preciso o título que alia criança
e inteligência a todas as idades porque os poemas e narrativas que escolheu
"se acham abertos a verdadeiros leitores de qualquer idade". E aos que se espantam com a extensão
ou a dificuldade que algum texto possa apresentar a potenciais leitores desta ou daquela faixa etária,
desafia logo: "Nada há aqui que seja difícil ou obscuro, nada que não ilumine e divirta.
Se alguém encontrar aqui uma obra que não entenda imediatamente, sugiro perseverança.
É quando nos ampliamos, pelo exercício de uma capacidade não utilizada antes, que alcançamos um melhor
conhecimento de nosso próprio potencial".
Haveria muito a destacar nesta introdução, mas já é hora de passar ao miolo,
aos textos e aos autores que Bloom selecionou. São quase todos do século XIX ou ainda mais antigos,
para manter uma coerência de tom e concepção nas fantasias, narrativas líricas e meditações, harmonizando
o conjunto através da especulação visionária e do assombro. Tais características, ele justifica,
desaparecem da criação literária, depois da Primeira Guerra Mundial, nas várias fases do então chamado Modernismo.
Arsenal crítico à parte, as teorias podem ser esquecidas, elas são mesmo desnecessárias diante das
inúmeras seduções contidas nessas antologias. O leitor é livre para fazer seu percurso, ler seguindo
a seqüência de Bloom ou seu próprio instinto, ir e vir deixando que esse conto ou aquele poema o faça
parar pelas razões que a história de leitura e o momento de cada leitor determinar. Cada um pode escolher
seus textos preferidos, eu, por exemplo, amei Zola e As feiosas, uma irônica crítica de valores
através de uma agência de modelos de 1891! Torci o nariz para a visão eurocêntrica de Sir Arthur Conan Doyle
sobre os trópicos e a natureza selvagem da mulher brasileira, personagem de O mistério de Thor Bridge.
Um amigo meu trocou arrulhos e afagos com sua namorada, enviando-lhe uma cópia do poema
O mocho e o miau, de Edward Lear. E gostei também de reencontrar Stevenson, Whitman, Carrol, Kipling,
Shakespeare, em textos que eu desconhecia, e que me fizeram dar, ainda uma vez, razão a Bloom,
quando diz que "estar sozinho com um livro autêntico é ser capaz de conhecer a si próprio".
Mas tem mais, muito mais: boa literatura para todos os gostos! E, por falar em gosto literário,
concordo com Octavio Paz, quando diz que: "em matéria de arte e de literatura não nos guiou uma doutrina
ou um corpo de preceitos, nos regeu uma potência misteriosa, rebelde à definição, feita de razões
e de impulsos do coração, de amor às tradições e de atração pelos riscos — esse conjunto de afinidades,
diferenças e contraditórias simpatias a que chamamos gosto: não é uma filosofia, mas uma segunda natureza.
Por isso é irrefutável. O gosto se defende sozinho; assim, nos defende" (in Revista Vuelta, n.181, novembro de
1991).
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