Histórias pra boi acordar
Eloí Elisabet Bocheco
Ora vai, ora vira
Certo dia, uma moça se aprontou pra sair e botou um chapéu clarinho, com umas florzinhas bordadas de vez em quando. Era dia de ventania. Que fosse — pensou — iria de chapéu. E foi.
Mal passou o portão e o vento carregou o chapéu. Tivesse amarrado com uma fita ao pescoço... ela tinha fitas dentro de um vidro, em cima da penteadeira. Lamenta não ter se lembrado e corre pra alcançar o chapéu que caiu no meio de umas pedras. Leva a mão pra pegar o chapéu mas este, ao toque da mão da moça, vira um enorme besouro avermelhado.
__ Tivesse virado um tatu, ia dar no mesmo. Como é que eu ia botar um tatu na cabeça? Por certo, hoje era dia de chapéus virarem besouros e ninguém me avisou — ela comenta com o vento.
Andou um pouco e viu que o besouro avermelhado voava a par dela. Ela parava, o besouro parava. Ela corria, o besouro apressava o vôo. Ela sentava, o besouro pousava nalguma planta ou pedra próxima.
__ Será o infinito? O que parece que é mas não é não vai largar do meu pé? Pois então que volte a virar chapéu! As palavras da moça caíram bem em cima de uma pedra que tava fervendo de sol. Ouviu-se um chiado de coisa frigindo e o besouro voltou a virar chapéu.
__ Ah, meus deuses! Cada coisa que me acontece. Bom, enfim, vou de chapéu!
Pra onde essa moça ia? Pra onde ela ia, não sei. O que importa é que ela ia. Deixemos que ela vá indo até descobrirmos pra onde.
Ela não andou muitos metros e o chapéu foi, de novo, levado pelo vento. Aí a moça se irritou e disse: chega de correr atrás de chapéu, que vá com o vento pra onde quiser! Foi andando e, mais adiante, encontrou o chapéu enroscado nuns cipós.
__ Opa! Peguei!
Ela pegou foi uma enorme cachopa de flores de cipó, pois foi nisso que o chapéu se transformou ao ser tocado pelas mãos dela.
__ Hum! Virado flor é melhor que virado besouro! Posso botar no meu cabelo. E botou a cachopa de flores amarelas nos cabelos pretos. Combinaram super bem as flores amarelas e o cabelo preto da moça.
Andou mais um tanto e deu de cara e de cachopa com vários começos de caminho. Escolheu um caminho sinuoso que tinha uma porção de amoreiras pela beira dele afora. A moça não parou na primeira amoreira. Cada amora preta madura se oferecendo pra ela! Também não parou na segunda e muito menos na terceira. Só na quarta amoreira ela parou e encheu a boca com as doces amoras.
Ela tava ali se deliciando com as amoras quando caiu uma amora madura bem em cima da cachopa de flores amarelas que ela trazia no cabelo. Ao toque da amora, a cachopa virou chapéu. Oba! — a moça exclamou e encheu o chapéu de amoras pra comer mais adiante.
Em certa altura da caminhada, ela sentiu saudade do gosto bom da fruta e já ia levando à boca quando percebeu que a amora na mão dela, amora já não era mais: era, isso sim, um bem-te-vi bem pequenininho. Na mesma hora, as outras amoras do chapéu viraram tudo bem-te-vis e saíram voando céu afora.
Espantadíssima, a moça abriu a boca pra dizer ÓÓÓÓÓÓÓ!, o chapéu aproveitou, virou um bombom de creme e pulou pra boca da moça.
__ Agora sim eu tô bem arrumada... Como vou comer o meu próprio chapéu? — perguntou ao vento e guardou o bombom no bolso.
Depois sentou numa pedra, tomou água e comeu uns bolinhos de canela. Teria comido umas amoras se “aquelas amoras” não andassem agora pelo céu viradas bem-te-vis. Em seguida, foi indo. Pra onde e o que vai fazer descobriremos acompanhando-a por estas linhas afora.
O bombom de creme começou a melar o bolso da moça. Darei este bombom à cobra que vem vindo ali — decidiu. O bombom ouviu e deu um pulo certeiro: foi cair em cima de uma folha de bananeira, lá se grudou que nem fosse de cera. A formiga ruiva vinha subindo pela folha de bananeira e topou com o bombom. Atacou-o com aquela gana que formiga tem por doces, mas não pôde saboreá-lo, pois o bombom virou chapéu num instante e pulou pra cabeça da moça.
__ Tanto vira e desvira não há quem agüente. Eu devia ter jogado você pra Cóóóóó... — a moça parou no meio da palavra por causa de alguma coisa que ela viu:
__ Oh! O portão! É este o portão! É de madeira, pintado de verde desbotado, preso à cerca por um pedaço de corda, nem muito grossa, nem muito fina... Tudo confere: pé de goiaba no lado esquerdo, pé de jabuticaba no lado direito, um poço de roldana cercado de cipós... Meu chapéu de três pontas que de tanto vira e desvira três pontas já nem tem mais, é aqui que vamos entrar!
— Que lugar mais afastado! Tudo aqui parece abandonado — o chapéu disse ao vento.
Com cuidado ela abriu o portão, só o tanto que precisou pra ela passar e, com mais cuidado ainda, fechou e foi andando até a casa que aparecia mais ao fundo. Quem olhasse muito rápido não via a casa. Pintada de verde no meio do mato, o telhado oculto pelas folhas e cipós.
A escada da frente, que dava acesso a uma varandinha, tava podre e ruiu assim que a moça botou o pé no segundo degrau.
__ Que será que esta moça veio fazer aqui? — o chapéu perguntou ao vento e o vento deu uma ventada forte e derrubou um monte de folhas das árvores.
A moça abriu a porta que tava tão somente encostada e entrou numa sala grande, cheirando a mofo. Não ficou muito tempo ali. Passou para outro cômodo, a cozinha. Em cima do fogão, uma chaleira e uma panela de ferro pareciam dormir um sono sem fim. Ela começou a abrir os armários um a um. Abriu as portas de um guarda-louça, que ficava no canto mais escuro da cozinha. Foi tirando pra fora canecas, jarras, xícaras, travessas, tigelas... Quando viu uma bacia azul esmaltada não se importou mais com louça nenhuma. Agarrou a bacia e ficou abraçado nela um tempão.
A bacia tinha flores em alto relevo, esparramadas aqui e ali, tanto dentro como fora. Com a ponta da saia de popeline, ela limpou o pó da bacia. Então o chapéu virador não se conteve e assobiou ao vento: seria por causa dessa bacia azul esmaltada que ela caminhou tanto? Se ao menos fosse por causa de um chapéu de três pontas....
A habitante fixa da casa, uma cobra coral, volta de um passeio e dirige-se ao seu abrigo preferido: debaixo do guarda-louça. A moça leva um baita susto e sai correndo porta afora com bacia e com chapéu até pra lá do portão pintado de verde desbotado.
Dava pra adivinhar o quanto a moça amava aquela bacia azul esmaltada. O chapéu adivinhou. E se chapelou todo de ciúme. E o ciúme virou azedume. Bailando no ar, vinha perdido um vaga-lume que pousou no chapéu e o chapéu virou bola de fogo e chamuscou o cabelo da moça.
Foi aí que eu saí de trás das palavras onde eu tava escondida pra espiar a moça e pulei na estrada.
__Ops! — ela exclamou, se chacoalhando toda pra se livrar da bola de fogo. Você tava aí há muito tempo?
__ Não sei dizer há quanto tempo. Tempo de palavra é tempo que agente nem vê passar.
A recém bola de fogo, ex-chapéu, caiu numa poça d'água e ficou lá soltando fumaça para os céus. A moça não largou a bacia, nem quando tava se chacoalhando toda pra se livrar do fogo no cabelo.
__ Você é chegada em bacias — provoquei.
__ Gosto de bacias, sim, mas especialmente desta — e frisou bem o desta.
__ E o que faz esta bacia ser tão especial pra você?
__ Meu coração pula dentro dela!
__ Nossa! É de estimação mesmo!
__ Essa bacia ajudou a me criar.
__ Ah, sei, você nasceu e te botaram dentro dela. Mas, não era um aparador muito frio, não? Objetos esmaltados são tão gelados...
__ Foi nessa bacia que eu tomei o primeiro banho da vida, o segundo, o terceiro e muitos, muitos banhos de água morna.
__ Posso entender o seu apego,sim, Tenho uma caçarola com cem anos de idade... eu ia falar mais da caçarola pra moça e perguntar uma porção de coisa sobre a bacia esmaltada que ajudou ela a se criar, só que o chapéu, desvirado, pulou pra cabeça da moça, ela pegou a rir do vira e desvira e eu até esqueci o que ia dizer.
__ Vou voltar lá na casa e fechar a porta que, na corrida, deixei aberta — a moça falou.
Ela se virou pro lado da casa. Eu me virei. A bacia se virou. Casa nenhuma havia mais ali. Voltei pro meu esconderijo de palavras e fiquei espiando a moça voltar. O que seria aquilo na cabeça dela? Podia jurar que era um cacto. Nas mãos não levava nada. Ué?! O que foi feito da bacia?
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