entrevistaSalete — Luciana, você diria que é uma escritora com intenção clara de reeditar/registrar a História? Ou seja, você é uma narradora em diálogo constante e explícito com o tempo: passado, presente e futuro vão e vêm em Minhas memórias de Lobato, O Mário que não é de Andrade, Ludi na revolta da vacina, O Sítio no Descobrimento... Enfim, essa é uma marca SANDRONI? Luciana — Acho que a História me atrai mesmo. A História do Rio de Janeiro principalmente. Adoro a minha cidade, apesar de todos os problemas e, para falar a verdade, são eles que me atraem mais. A Revolta da vacina, o "Bota Abaixo" são momentos da História do Rio e do Brasil que representam bem a reação a esses 500 anos de injustiça social, de violência e de exclusão. No caso das biografias do Mário e do Lobato eu realmente precisava "viajar" para a São Paulo do começo do século. O Mário amava São Paulo e, para falar dele, eu tinha que falar da Paulicéia de que também gosto muito. Mas no caso da Ludi na revolta da vacina, foi mesmo o tema do Rio antigo, o Rio do passado, das ruelas, da praça XV, da rua do Ouvidor, do Morro do Castelo que me fascinam. Acho que a idéia de "viajar" para o passado é um desejo muito grande do homem e por isso o tema é tão presente na ficção e no cinema. É como se, vivendo o passado, a gente fosse se entender melhor, fosse perceber o presente com mais clareza e olhar o futuro com mais segurança. A criança é um exemplo perfeito disso. Ela tem a maior curiosidade em conhecer o passado dos pais, dos avós, da sua cidade. Elas necessitam dessa memória para criar uma identidade. Salete — Para transitar no tempo, você usa “recursos”, resgatando, com criatividade, o pó de Pirlimpimpim. Assim, vale-se do “túnel do tempo” na Revolta da Vacina, do "parafuso" em Ludi na TV, do quarto da casa de Mário de Andrade em O Mário que não é de Andrade... Isso seria uma estratégia para conduzir o leitor infantil e juvenil pela ficção? Ou seja, seria um trabalho de formação do leitor, proporcionando com cautela esse “rito de passagem”, entre a materialidade e o “nonsense”? Nesse sentido, você também reedita Cervantes, Lewis Carrol e outros. Concorda? Luciana — Eu gosto muito dessa fórmula de narrar uma história baseada na realidade, na rotina de uma criança, no dia-a-dia de uma família que, de repente, “escapa” da realidade e entra na fantasia. Quando converso com crianças de 11 anos, elas sempre perguntam “mas como ela ficou no fundo do mar sem respirar?”, “mas o Mário menino conheceu o Mário de Andrade de verdade?”. Tento explicar que na ficção tudo pode acontecer, tudo é possível. Os leitores menores, de uns 8 anos, não se colocam esse tipo de questão; para eles, sair da realidade e viver na fantasia é o normal. Gosto dessa idéia do real ser transformado pela fantasia, ser “solucionado” pela fantasia. É o pensamento mágico da criança que faz ela lidar melhor com a realidade. Os meus personagens crianças vão resolver seus problemas através da fantasia, numa referência bem clara ao Sítio do Picapau Amarelo em que as crianças, Emília e Visconde resolvem muitos problemas pelo faz-de-conta. Salete — Em O Sítio na Descoberta e em Minhas memórias de Lobato, o contexto narrativo, ambientação e personagens são claramente lobatianos. Isso não acontece na série Ludi, tampouco em O Mário que não é de Andrade, onde esses aspectos são novos. Você considera essas produções como momentos distintos e de “maturidade literária”? Luciana — Acho que a série Ludi é muito inspirada no Sítio. Ludi é bem emiliana, Dona Sandra é bem Dona Benta e a Marga é totalmente Tia Nastácia, só que é uma família no Rio de Janeiro, vivendo problemas contemporâneos de uma cidade grande. Em Salete — A pesquisa é visível em sua obra, reconhecida e nomeada por você mesma em todos os seus textos. Sobretudo a intertextualidade é um dado forte em sua narrativa. Ou seja, você dialoga o tempo todo com referências, textualidades diversas, gêneros literários, personagens, etc.: reapresenta textos e autores. Em síntese, tem uma postura essencialmente polifônica. A seleção, organização, orquestração desse material deve ser interessante. Certamente sua formação, sobretudo em Semiologia lhe dá um bom suporte para esse “estilo”. Luciana — A intertextualidade eu fui conhecer na obra do Lobato. Essa possibilidade de pegar personagens de outros autores e levar para o texto como ele fez com Dom Quixote, Alice, Peter Pan, entre outros, é muito contemporânea e só comprova que, depois que o escritor publica o livro, os personagens realmente já não pertencem mais ao autor. No curso de Comunicação e Semiótica, eu me detive na questão da Crítica Genética que trabalha com o processo de criação do artista, o caminho que o escritor, o ator ou o pintor percorre até chegar à “obra pronta”. Esse curso me deu material teórico para entender melhor que tudo é construído a partir de uma idéia que pode ter vindo de um outro escritor ou de uma palavra, uma paisagem. uma emoção, que nada é por acaso, apesar da maioria das pessoas acharem que existe uma “inspiração”. O que existe é um trabalho de exploração do mundo. O escritor, o artista tem que estar antenado com o mundo para criar. Minhas Memórias de Lobato é totalmente inspirado em Memórias de Emília, e eu deixo isso bem explícito no texto, mas só fui entender isso depois do livro pronto. Salete — Em Ludi na TV, você apropriadamente traz à discussão, apontando com ironia, problemas contemporâneos, bem como o controvertido papel da TV na educação de crianças, jovens e adultos. Além de escritora, você atua como roteirista de televisão. Fez parte da equipe da última edição do Sítio do Picapau Amarelo e produz Teca na TV. Como é atuar atrás da tela? Afinal, nesse papel, você é a Ludi “palpitando”, gestando programas. Como é trabalhar do lado de lá, multiplicando linguagens, administrando autorias? Em que esse trabalho se diferencia dos demais? Afinal, você é uma escritora essencialmente articulada com linguagens e com a intertextualidade. Luciana — Foi muito emocionante a experiência de adaptar a obra do Monteiro Lobato para a TV. Ver o que você escreve se concretizando é uma emoção. E todos da equipe dessa nova versão estavam envolvidos e querendo fazer o melhor possível. O Teca na TV também está sendo uma ótima experiência. A diferença básica do trabalho na TV é que é um trabalho coletivo, o que por um lado foi difícil para mim, que sempre trabalhei sozinha, mas por outro foi muito bom por me dar a oportunidade de aprender a trabalhar em equipe, a criar com outros autores. Salete — O gênero memorialístico, o biografismo, permeia a intenção de sua escrita, chega a ser uma opção muito bem elaborada, com nova feição em Minhas memórias de Lobato e em O Mário que não é de Andrade. É isso? Luciana — Acho que sim. Eu sempre gostei de ler biografias e pensei que as crianças também poderiam gostar. Minhas memórias de Lobato foi uma idéia que nasceu da curiosidade das crianças em relação à vida de Lobato. Depois, a editora Lia Schwarcz perguntou se eu não gostaria de fazer uma coleção de biografias e sugeriu o Mário de Andrade. Acho que a idéia é continuar a fazer biografias desse tipo e de outros escritores e artistas. Salete — E o trabalho mais recente de edição renovada de Luciana — Foi muito bom. Reescrever um texto de 10 anos atrás foi uma experiência ótima. Cortei muita coisa que estava sobrando e escrevi novas lembranças do meu bairro de infância, o Leme. Falei mais dos meus avós também. É quase um novo livro e ele ficou muito bonito, com fotos da família e ilustrações lindas do Roger Mello. Salete — Luciana, você é uma autora premiada: Minhas memórias de Lobato – Prêmios Ofélia Fontes da FNLIJ 1997 e Jabuti 1998; Ludi na revolta da vacina – Prêmios Carioquinha e Ofélia Fontes da FNLIJ 1999; O Mário que não é de Andrade – Prêmio “O Melhor para o Jovem” FNLIJ 2001. A premiação acaba aumentando seu nível de exigência, impondo-se mais rigor ao trabalho, mais critério e menos criatividade? Luciana — Acho que meu nível de exigência foi aumentando com o tempo. O fato de ter uma família de escritores, ligada a livros, ajuda, mas também sinto que há uma certa cobrança. A minha mãe, Laura Sandroni, é especialista em literatura Infantil, foi uma das fundadoras da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Quando publiquei Ludi vai à praia, com 26 anos, é claro que foi com o apoio dela, mas na época eu não tinha idéia da importância do trabalho da minha mãe. Hoje eu acho que há um nível maior de exigência porque a gente vai ficando mais crítica, querendo fazer coisas diferentes, querendo inovar. Salete — O gosto pela literatura, pela fotografia, pela música, por monumentos e personagens históricas e literárias são transparentes em sua obra. A própria escolha dos temas revela esse interesse. Dizendo de outra forma, você aponta o conhecimento na sua totalidade, com ênfase para o humanístico e o artístico. Certamente, como escritora, essa é uma contribuição social em tempos de valorização extremada do tecnológico, do científico e da materialidade. Como você vê essa questão da função/papel social da literatura e do escritor? Luciana — Acho que escolho meus temas pelo meu interesse por eles. O tema da Revolta da Vacina me fascina, o tema da loucura que foi a Semana de 22, da Baía de Guanabara poluída, do baixo nível da TV, tudo isso me desperta a vontade de escrever. Acho que o escritor quando escreve só quer ter o prazer de contar uma história, de prender o leitor na sua narrativa. No caso da literatura infantil, que é muito ligada ao mercado escolar, ainda existe um peso de achar que o livro tem que ser útil, tem que ensinar, tem que passar mensagens boas — mas a nossa maior alegria é quando a criança diz que vai ler outro livro seu por conta própria e não por causa da escola. É o ler pelo prazer de ler. Acho que a literatura é para o deleite, para o prazer. Monteiro Lobato é o maior escritor para crianças não porque havia uma ideologia nítida de formar cidadãos críticos nos seus livros, mas simplesmente porque a literatura dele é divertida, inteligente, genial. Mas acho que a literatura acaba tendo uma função social porque trabalha com questões do nosso tempo, com nossas angústias e dúvidas e por isso nos ajuda a viver melhor. * Mestre em Literatura, professora dos cursos de Pedagogia e Letras da UNIFEBE, coordenadora do curso de Letras e membro do Núcleo de apoio pedagógico da UNIFEBE - Brusque SC |