mapeando um percurso literário
Maria
de Lourdes Krieger
e a
literatura infantil e juvenil
por
Eliane Santana Dias Debus
Doutora em Letras - Professora UFSC/CED/CNPq
e-mail: edebus@bol.com.br
Escrever sobre a produção literária de Maria de Lourdes Krieger para crianças e jovens tem sempre o gosto de quero mais, pois nos anos de 1994 a 1996 dediquei boa parte de meu tempo desvendando a sua trajetória literária, sua obra e sua relação efetiva com os leitores através de cartas, resultando em minha dissertação de mestrado: Entre vozes e leituras: a recepção da literatura infantil e juvenil (UFSC, 1996).
O início da produção literária dessa escritora catarinense, nascida na cidade de Brusque, está estreitamente ligado à explosão (boom) da literatura infantil e juvenil; pode-se dizer que pertence àquela geração de escritores brasileiros que começaram a dedicar, no final dos anos 60 e início dos anos 70 do século XX, a sua escrita a esse público leitor. No cenário nacional despontavam para esse gênero nomes como o de Ruth Rocha, Ziraldo, Joel Rufino dos Santos, Ana Maria Machado, filhos da Revista Recreio, que, mais tarde, não muito tarde assim, veriam suas criações em exemplares próprios e reconhecidas internacionalmente.
No cenário regional, Werner Zotz, Léo Victor e Maria de Lourdes introduziam o Estado no cenário nacional, com obras publicadas por editoras reconhecidas, e internacional, pelas mãos de Um pequeno Curumim, de Werner Zotz. Se os dois primeiros viviam em centros urbanos do País, a jovem escritora deixava o interior do vale do Itajaí para conquistar seu espaço na capital de Santa Catarina. Suas primeiras narrativas são lidas nas páginas do Estadinho, suplemento infantil do jornal O Estado.
Como curiosidade, fonte de informação e de pesquisa, trago aos leitores de O Balainho um levantamento dos títulos para crianças e jovens publicados por Maria de Lourdes nestes últimos trinta anos,
lembrando que a escritora tem livros na área do ensino da Língua Portuguesa, Redação e até uma coleção didática de 1º a 4º série, que
circulou na década de 60, além de seu livro Lembranças - leitura obrigatória no vestibular da UFSC/2004.
Como já disse, suas histórias publicadas no suplemento O Estadinho tinham um público cativo: o leitor infantil. Nesse espaço, a autora lançava mão de estratégias que possibilitavam a participação do leitor na construção das narrativas através dos espaços vazios. Adotava o esquema de história seriada, com o prosseguimento da narrativa na próxima edição. A continuação se dava pela interferência dos leitores, que mandavam suas sugestões para o jornal, como na história "Os animais da África, na terra de sol e mar", de 1974, em que o narrador solicitava aos leitores sugestões para o nome da personagem protagonista, tentando assim, mesmo que ligeiramente, o diálogo com o leitor.
Dona Onça da Floresta (histórias do folclore brasileiro) recebe menção honrosa num concurso de literatura infantil realizado em Santa Catarina, em 1972. Em 1977, publica seus três primeiros livros: O natal do pastorzinho, O destino de Redondinho e Leleco e os Ovos de Páscoa (Lunardelli), com tiragem de 4.000 exemplares cada um, possivelmente a maior edição de um livro literário realizado em Santa Catarina, segundo jornal da época. Recordações de Um Agente Secreto é publicado por editora nacional - a Brasiliense - em 1979, na coleção "Jovens do Mundo Todo". Seguindo o caminho aberto, publica mais dois livros pela mesma editora: Um Amigo Muito Especial (1981) e Uma Família Tão Comum (1982); os dois primeiros reeditados pela editora gaúcha Mercado aberto (M/A).
No último livro citado, a autora brinca com o fazer literário, numa proposta metalingüística, ao utilizar o narrador onisciente que perde seu poder com as interferências das personagens. Uma família Tão Comum, na verdade apresenta personagens que não são tão comuns: d. Maria do Carmo, a mãe, que voa; tia Clara, que crocheteia problemas com fios invisíveis, o menino Pedro e sua cutia invisível; Mirela, que toca um piano inexistente; Murilo, o pai, que retira as pernas quando tem algum problema; Daniela, amiga de Mirela, que acaba vendo a cutia, e o ladrão, que entra na história e acaba por retirar seus olhos para melhor ver.
Em 1984 publica O gato que não sabia miar, pela Mercado Aberto, uma história que tem animais como personagens.
O gato Rique, que quer tornar-se rei, sem sangue real, conquista o trono ao ajudar o reino animal a se livrar das armadilhas feitas pelos homens. Em 1985, pela mesma editora, publica Nos Ombros Fortes de Papai, livro considerado altamente recomendável para crianças pela FNLIJ.
Em 1989 publica Ana levada da breca, pela Moderna, com o qual recebeu menção honrosa - Prêmio "Luís Jardim", da União brasileira de Escritores. A personagem Ana, mais levada da breca impossível, descobre que a alegria de viver está em ser aquilo que se quer ser e não o que os outros querem para nós. Brincando de olhar estrelas, publicado em 1990 pela Kuarup, é uma narrativa poética sobre o relacionamento mágico da menina Lila com as estrelas - filha única e sentindo-se limitada pelo espaço do apartamento em que reside, transcende o espaço cotidiano com o jogo de imagens despertadas pelas estrelas.
Em Vovó quer namorar (1990/FTD), a narrativa é realizada por Letícia, a neta, surpresa ao descobrir que a avó espera a visita de um homem. O discurso pontuado pelas duas vozes, a da avó e a da neta, vão trazendo as lembranças da mocidade da primeira e a conquista de seu espaço agora na velhice. Rompe com a representação tradicional da velhice feminina: tricotar, fazer doces e contar histórias para os netos. Segredos do coração foi publicado pela Moderna em 1991 e traz a problemática da adolescência com suas perdas e ganhos; juntamente com Irmão-Sanduíche (1993), que apresenta os dramas e delícias em ser o irmão do meio, espremido entre a valorização aos atos do irmão mais velho e os mimos dispensados ao caçula. A narrativa O monstro que mora em mim, 1996 (Mercado Aberto) traz o conflito em que vive um menino com a gravidez da mãe e a chegada de um rival, a(o) irmã(o).
A convite de escolas, a autora viaja pelo interior do estado, vendo nesses eventos a oportunidade não só de divulgar sua obra, mas de levar ao leitor infantil o estímulo à leitura literária. Interessando-se pelo que o leitor pensa de seus textos, mantém correspondência com eles. Acredita que toda editora deveria abrir uma caixa postal através da qual os leitores pudessem dirigir-se ao autor, dessa forma seria rompida a sacralidade que segrega o autor como um ser à parte. Segundo a autora, em depoimento ao jornal O Estado: "os jovens estabelecem contato direto com o escritor. Eles escrevem cartas, contam suas vidas, mandam cartões de Natal, e eu respondo a todos, pois quem se deu ao trabalho de escrever merece resposta."
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