O Armazém Literário
Tânia Piacentini
Graduada em Letras (UFSC)
Doutora em Educação (UNICAMP)
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Sugestão de leitura
Uma das dificuldades que encontro quando falo, formal ou informalmente, sobre livros
de literatura, é a de desfazer estereótipos que já se tornaram verdades. Coisas do tipo:
ler é um dever, uma obrigação que justifica a imposição; a leitura é necessária quando se
é criança ou jovem, mas depois não se tem mais tempo; o leitor tem que descobrir a
mensagem que o autor quer transmitir; o livro de literatura considerado objeto sagrado,
ou reverenciado pela admiração encomendada a priori ou chato porque velho e ultrapassado.
Essas são simples amostras das dezenas de lugares-comuns que, de tanto serem
repetidos acabam sendo aceitos e incorporados. E nada mais difícil que lutar contra
verdades absolutas, principalmente no terreno da arte, da palavra literária por definição
ambígua, relativa, transgressora. Os que usam esses argumentos estão se justificando, não
gostam de literatura mas se sentem culpados por isso, afinal ler livros e ter biblioteca
continua sendo sinônimo de inteligência e Cultura. Assim mesmo, com C maiúsculo, que é
para justificar até voto naquele candidato — eleito, lembram? — que atravessava a rua
para fazer pose para os fotógrafos diante das estantes repletas de sua grande biblioteca.
E deu no que deu...
Outra manifestação de insegurança diante da literatura é a necessidade de indicações
taxativas sobre o que se deve ler, o que aconselhar para leitor de tal e tal idade, como
escolher um livro realmente bom e que ensine... Aí eu já começo a ficar cansada, o livro
de literatura, minha cara colega professora, senhora mãe ou interlocutor anônimo, não foi
escrito para ensinar nada! A literatura é gratuita, não é remédio e aquelas bulas
disfarçadas de fichas de leitura são um desrespeito para com o leitor que precisa
ser "conduzido na leitura correta" e um atestado de desconfiança na capacidade do
professor envolver alunos com seu amor pelos livros.
Mas antes que me acusem de heresia e indisciplina, tento acalmar os ânimos. As coisas
são mais simples do que se julga, embora demandem exemplos, tempo, dedicação, interesse.
Um leitor que lê para alguém, pais que têm o hábito de ler e comentar suas leituras
normalmente, adultos que freqüentam livrarias, deixando cada um escolher seus livros,
professores que têm mais que o hábito, "o hálito de leitura", como diz Bartolomeu Campos
Queirós, um escritor cujos livros recomendo.
Sim, é interessante recomendar a leitura de livros especiais, a divulgação e a
crítica são necessárias no circuito literário, mas sem dogmas e subserviência. Melhor
que falar sobre é falar de.
Como simples leitora, sugiro para os amantes de policiais
a leitura de Presto con Fuoco, de Roberto Cotroneo. O título é a indicação musical
que significa velocidade, força, intensidade. E paixão, no caso por uma página musical, a
balada nº 4, vivida pelo narrador, um pianista famoso e solitário, reconstituindo a
história do "autêntico manuscrito" de Chopin, original versão da balada cujo final seria
diferente daquele que todos conheciam. A trama tem todos os ingredientes de um romance
policial e o leitor não precisa ser conhecedor de música, nem nada de Chopin, para se
descobrir perfeitamente à vontade nesse universo. E talvez se apaixonar pelas baladas e
noturnos do compositor, interpretadas pelos pianistas elogiados pelo narrador:
Artur Rubisntein, Cláudio Arrau, Glenn Gould. Como aconteceu comigo. Foi o caso de
"leia o livro e compre o CD..."
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