Poetando e proseando

Texto-depoimento do escritor Elias José, autor de livros inesquecíveis como Namorinho de Portão, Caixa Mágica de Surpresas, Cantos de Encantamento, Segredinhos de amor, Cantigas de adolescer, A Cidade que perdeu o seu mar, só para lembrar alguns dentre quase uma centena que o autor escreveu.

Era uma vez... Nas noites dos tempos, sem que possamos dizer primeiro onde nem quando, o homem nasceu cantando ou contando.
De repente o homem primitivo prestou atenção nos sons do mundo. Ouviu os pássaros cantarem com suavidade e de forma variada. Gostou dos muitos ritmos marcando o movimento das águas dos rios e mares. Achou que o vento fazia um som bonito e diferenciado ao movimentar toda a natureza. Percebeu que podia, com o seu corpo, imitar os sons que ouvia. Mais que tudo, começou a observar a beleza dos sons que soltava e que os outros homens soltavam. E havia o ritmo do choro e do riso, os barulhos das criancinhas e dos casais fazendo amor. As primeiras onomatopéias e repetições vinham plenas de musicalidade, portanto de poesia.
Aí o homem se aventurou a caminho do conhecer, tocar, modificar o mundo que o cercava.
E voltava para o seu agrupamento todo prosa, querendo contar acrescentando pontos a cada ação que fez ou viu os outros fazerem. Contar e acrescentar eram formas de enriquecer o visto, enriquecendo o seu cantar. E começou a prosear e poetar por tudo e por nada, por necessidades lógicas e psicológicas ou por simples encantamento.
O era uma vez passou a ser uma necessidade primária e fundamental do homem. A música da prosa e da poesia fazia parte do seu ser e viver e o encantava. Estava em seus ouvidos e em todos os demais sentidos, agora mais aguçados. Contar e cantar eram passes de mágica, varinhas de condão que o levavam ao mundo do faz-de-conta e davam-lhe mais alegria e sentido para a vida. Eram fórmulas mágicas de desligar o homem ou a criança do seu cotidiano repetitivo e vazio, levando-os por um certo tempo para o país dos sonhos. Para lugares onde tudo é livre, belo, possível e permitido. Contar e cantar passaram a ser formas de bem viver e reviver, de marcar o ser e estar no mundo e de deixar lembranças vivas na memória do outro.
E o homem registrou sentimentos e lembranças nas inscrições rupestres e nas cavernas. Contou e cantou aventuras com vontade de eternizá-las, de eternizar-se. Contar e cantar foram formas mágicas de encantar, de conquistar, de fincar bandeiras no coração do outro, de mostrar-lhe e demonstrar-lhe amor e amizade. Foram formas de registrar a vida vivida e a idealizada, de pôr para fora os sentimentos e de criar fortes laços humanos.
Sherazade sofisticou o feitiço do faz-de-conta. Acrescentou doses de amor, poesia e sensualidade em cada aventura narrada, primeiro para o seu rei, depois para todos nós.
Selvagens africanos ou os nossos índios, nas selvas, mostraram, em seu era uma vez e nos cantos líricos ou guerreiros, o seu espírito épico ou o seu convívio afetivo com o outro, com os bichos, com a água, com a terra e plantas e com os céus.
Guerreiros e aventureiros, por mares e terras nunca antes tocados, abriram caminhos, conquistaram terras e gentes. Contaram, cantaram e ouviram histórias. "Navegar é preciso/viver não é preciso". Viver é preciso no sentido de ser necessário, mas é impreciso no sentido de ser sempre a vida uma aventura inesperada, imprecisa. Narrar e cantar é preciso para enriquecer e para melhor conhecer a vida.
Feliz da criança que teve pais, avós ou babás que enriqueceram o seu imaginário com muitas histórias, varando, virando e transformando o mundo pelo poder mágico da ficção. Pessoas que a fizeram dormir mais tranqüilamente ao som dolente de uma cantiga de ninar.
Triste criança de hoje, que tem que se contentar com as histórias cantadas ou contadas pela televisão. Histórias mais cínicas e perversas do que lírico-poéticas, mais interessadas em vender produtos do que em oferecer prazer e magia.
Sou um poeta e contador de histórias. Conto e canto, onde sou ou não convidado. Hoje e sempre, mais do que nunca, é preciso contar e cantar. Se uma voz se perde no meio de tantas vozes, é preciso treinar muito, ter muito fôlego, insistir sempre e mais, para que o conto e o canto quebrem o muro das indiferenças.
Os cantores e os cantadores não nasceram do nada, tiveram uma história de vida vivida, uma iniciação mágica. Tiveram alguém que jogou sementes, adubou e cuidou muito do seu imaginário, só pelo prazer de passar alegria, sem intenção didático-educativa.
Ouvi muitas histórias contadas pela minha avó paterna. Dona Joana era uma libanesa pequenina, pobre, sofrida, comum, talvez mais feia do que bonita, que mal sabia falar o português, mas que sabia contar histórias. A fala diferente era um recurso a mais que, ligada aos gestos, ganhava mais expressividade. Contar era reviver e despertar amor à terra distante. Era oferecer aos netos um tapete voador capaz de levá-los a árduos desertos ou a castelos aveludados, coloridos e luxuosos. Era conviver com as personagens incomuns, reis e princesas apaixonados, Ali-Babá e os quarenta ladrões, Aladim, guerreiros bons ou vingativos. Era abrir o imaginário com uma única palavra de ordem: abracadabra.
Li muitas histórias dos muitos livros que minha mãe nos dava quando viajava, nos aniversários ou no Natal, acompanhando roupas, calçados e brinquedos simples. Se recontássemos as histórias, mostrando a opinião, os próximos brinquedos seriam melhores.
Depois do recontar, vinha o inteligente e lúdico acrescentar coisas, transformar partes, mudar o final ou inventar o que poderia acontecer nos outros dias depois do desfecho. E pensar que minha mãe, grande leitora de romances, mulher com uma certeza muito grande na necessidade de estudo para ser alguém na vida, era uma autodidata, sem ter completado sequer o curso primário.
O meu pai era calado e não contava histórias, mas tinha quem contasse por ele. Tinha uma fazenda de café com vários colonos. O homem do campo em Minas, penso que em todo mundo, é um contador de "causos" fantástico. Para emocionar o ouvinte, aumenta muitos pontos 'na história, fantasia de modo natural, sem alterar a voz ou exagerar nos gestos. Poucas vezes cacei ou pesquei de verdade, mas participei das pescarias e caçadas mais emocionantes e bem realizadas, através da voz deles. De vez em quando, ainda tremo ou me arrepio de medo ao me lembrar das histórias de assombração e lobisomens, mulas-sem-cabeça pondo fogo pelas ventas, Eram ex-fazendeiros mortos que voltavam às antigas propriedades para dar ordens aos herdeiros ou atuais donos de suas terras. Antigos escravos, que mesmo mortos, soltavam gemidos de dor e de raiva contra os seus donos. Devo muito a algumas poucas professoras que me estimularam a ler, a escrever, a copiar e a declamar poemas.
Com o tempo e o prazer de ler, fiz muitas viagens pelos variados espaços e tempos de mil e uma narrativas. Convivi com os personagens de ficção, vivendo as histórias que elas viviam. Senti na alma e na pele o que os poemas me passavam. Tornei-me parceiro apaixonado de grandes poetas e prosadores, pois o bom leitor é sempre um co-autor. Aí era uma vez em que achei que também poderia escrever. Poderia começar a contar e a cantar.
A tremenda vontade de escrever e de mostrar meus textos para quem entendia, me levou, ainda muito jovem e tímido, a enviá-los para escritores de nome. Muitos sequer me responderam. Outros me abriram muitos caminhos. Leram carinhosamente os meus contos iniciais, me sugeriram, anotaram erros e me deram oportunidades. Osman Lins, o mais exigente de meus críticos, o que mais me cobrava assumir compromissos políticos com o ato de escrever, enviou-me O ofício de escritor, livro de Nelson Werneck Sodré. O romancista e crítico Octávio de Faria, que primeiro escreveu em jornal de circulação nacional sobre os meus contos, enviou-me Cartas a um jovem poeta. Se o primeiro livro me ensinava a olhar para fora, para o social, o segundo me ensinava a olhar para dentro, para a minha infância, para os meus problemas. Ambos foram muito úteis para a minha formação, me fizeram caminhar pelos caminhos do mundo e pelos meus caminhos, desvios e encruzilhadas. Fizeram-me buscar por conta própria outras obras que deveria conhecer.
O tempo passou e muitas coisas boas e difíceis aconteceram. Se não era fácil o ofício de escritor, impossível não era. Se era trabalhoso, descobri que me dava enorme prazer. Como é bom saber que a literatura me possibilitou um diálogo silencioso, solitário (por isso mesmo mais rico) com o outro, o meu leitor! Estive horas com ele e não conheço o seu rosto. Como explicar isto?
O jovem que sonhava ter um livro publicado um dia, antes de morrer, hoje, quase quarenta anos depois, tem perto de cem livros publicados, alguns com prêmios significativos. Muitos deles com várias edições, prova que foram lidos e, às vezes, amados e odiados. Como podem ver, um escritor não nasce do nada. Sempre há uma história pessoal, tecida com a trama de muitas histórias ouvidas ou lidas. Um poeta-cantor não nasce do nada. Sempre tem em seus ouvidos o ritmo de cantos e poemas ouvidos. O canto provoca o canto. a conto provoca outros contos e recontos. E como é emocionante saber que o meu conto e o meu canto serão ouvidos, lidos, contados e cantados por outras pessoas! E como é compensador saber que muitas crianças terão uma infância mais lúdica e feliz alimentada por meu jeito carinhoso de cantar e de contar! E como me faz bem saber que faço algo de bom às pessoas e a mim mesmo – e faço com uma febre, uma energia, uma alegria e uma paixão que tornam a minha vida melhor.
Não me importa saber se o homem nasce cantando ou contando. O bom mesmo é saber o que a poesia e a prosa significam em nossas vidas. De minha parte seria uma felicidade morrer (o mais tarde possível) escrevendo coisas para outras pessoas cantarem ou contarem comigo.