e n t r e l i n h a s

Na terra do faz-de-conta
O tesouro da Serra do Bem-Bem,
de Flávio José Cardoso (São Paulo, Saraiva, 2002)

Yedda de Castro Brascher Goulart
Mestre em Literatura (UFSC)
yedda@floripa.com.br

Neste livro para a infância, Flávio José Cardoso, autor consagrado nas letras de Santa Catarina pelas inúmeras obras endereçadas com sucesso aos amantes do romance, do conto e da crônica, resolve dedicar aos mais jovens um espaço dentro de sua produção ficcional.
Para isso, resgata o olhar infantil e, em companhia de Xandro, Leco e Lucinha viaja no espaço do fantástico maravilhoso, ciceroneados pelo Bem-Bem, um bem-te-vi segregado do bando por ser diferente, que conduz os personagens para as terras distantes da meninice, lá pelas bandas da Serra do rio do Rastro, onde estão fincadas suas raízes.
De repente, enfeitiçado, provavelmente pelas bruxas da ilha, lá no seu refúgio de Santo Antônio de Lisboa, o autor é seqüestrado para o mundo mágico da infância onde o espaço e o tempo se curvam aos nossos desejos.
E aqui, o tema da diferença, do abandono e das possibilidades nunca sonhadas compõe uma delicada história que envolve a alma infantil sempre aberta ao extraordinário e à inclusão do mundo fantástico, numa aventura partilhada, em que a liberdade flutua nas entrelinhas através dos elementos: um personagem alado, espaço e tempo indeterminados, transformações inesperadas, que compõe a estrutura imaginativa da narração.
Pela subversão da realidade o jardim do refúgio se transforma no universo fantástico onde as coisas são o que se quer que elas sejam. Tempo e espaço não contam. Desaparece o confinamento da visão adulta e o ouvido é capaz de perceber o som diferente do Bem-Bem.
O tempo da trama é permeado do tempo da memória e o espaço do jardim é o espaço subvertido da aventura; a distância pode ser vencida sem sair de casa e num simples carrinho de mão esquecido no galpão.
A simbologia da literatura infantil está presente no personagem Bem-Bem, o condutor da aventura. Seres alados e seres humanos buscam o tesouro da liberdade, da percepção dos universos que nos cercam, da valorização das diferenças, da subversão das convenções e das possibilidades. As ilustrações são de Evandro Luiz e como sugere a contra-capa: se você deseja saber que tesouro se esconde no alto da serra, procure ler rapidinho este livro lembrando, se for adulto, que através da leitura poderá voltar à informalidade e à despreocupação da infância.