Histórias pra boi acordar
Eloí Elisabet Bocheco
Atrás de um pirilampo
Uma mulher que tinha um V no meio do nome foi ao campo olhar os pirilampos.
Era de tardezinha, já entrando o escuro. Ela tava cansada do barulho repetido da máquina
de costura. No campo, em boca da noite, há milhares de pirilampos. Brincaram até não
poder mais, a mulher e os pirilampos. Ela ria todos os risos do mundo.
Nesse dia, ela levou um pirilampo pra casa, o mais brincalhão de todos,
e guardou-o entre carretéis de linhas numa caixa nem muito larga nem muito estreita.
Mas o pirilampo, na manhã seguinte, escapou e então ela foi atrás do vôo dele pelo
campo.
O pirilampo mudou de vôo e desceu num precipício enorme. A mulher debruçou-se
à beira do precipício e viu o pirilampo voando lá dentro, cheio de luz. Ela acenou
várias vezes, pediu que ele voltasse e, por fim, perdeu-o de vista na imensidão.
Debruçada muito rente ao precipício, a mulher escorregou penhasco abaixo até uma
rede de teia de aranha. Da teia fez escada. Agora podia descer e subir do precipício
quando bem entendesse.
As árvores do precipício estavam carregadas. Era tempo de frutos ali.
Colheu algumas pêras e subiu para o campo aberto.
__ Pêras! A irmã da mulher exclamou e deu uma dentada com vontade
na fruta. Pêra com polpa de pedra? Onde encontrou? E por que não disse que eram
pêras decorativas?
__ Eu não sabia que em precipícios davam pêras decorativas
__ a mulher explicou e foi terminar um vestido que ficara sobre
a máquina de costura.
Outra vez desceu a mulher ao precipício. Da escada prateada,
ela viu as lagartixas subindo e descendo pelas paredes de pedra.
É um bichinho tão limpo. Vou levar um para casa, ela falou para a gota d'água
que não fazia outra coisa senão pingar dia e noite.
A mulher agarrou uma lagartixa e prendeu-a atrás da orelha. Ao chegar em casa,
soltou-a na parede: que vá comer as muriçocas pra mim, assim poderei ter sonos
e sonhos tranqüilos.
A irmã da mulher era louca por lagartixas e tava procurando uma pra levar
à faculdade. Atirou-se à lagartixa na maior exaltação, mas soltou um ohhhh!!!
de desapontamento.
__ Onde você foi buscar lagartixas de brinquedo?
E por que não falou que eram de brinquedo?
__ Ora, eu não sabia que em precipícios davam lagartixas de brinquedo
__ a mulher respondeu.
Na terceira tarde do mês em que caiu um meteoro na cidade que tinha as casas pintadas
em xadrez e petit poá, a mulher desceu ao precipício, que se tornara a sua
atração preferencial. Nesse dia, ela resolveu que ia pisar no fundo do precipício.
Ao pisar no último degrau da escada, ela foi botando o pé no chão com cuidado,
experimentando de leve, sem largar todo o peso do corpo. Parecia frio. Parecia mole.
Era mole. Era frio. O chão do precipício era de cobra. Uma cobra colossal em cujo
debaixo dormiam milhares de cobrinhas. A mulher soltou o maior berro de sua vida
e subiu na escada. Tremeu até gastar todo o tremor do corpo e então pensou sem calma:
eu podia levar uma cobrinha dessas e fazer dela uma cobra criada.
Aproveitou o sono da cobrona, pegou uma cobrinha, a de rabo mais fino que viu,
e botou no bolso. Quem tem uma cobra criada não precisa ter inimigos,
ela pensou e gostou do pensado.
Na soleira da porta, tirou a cobrinha do bolso e largou-a no assoalho. Aí viu que a cobra
tinha presas de ferro, num instante roeu a parede e se enrodilhou lá dentro.
__ Que fique aí e durma o resto do dia __ a mulher disse
e suspirou. Mas, dormir a cobra não dormiu e, desse dia em diante, nem a parede.
A cobra pegou o gosto por roer as paredes e não parou mais nem para comer nem para
beber. Não tinha tempo de se criar para virar cobra criada. Seu tempo ia todo para
roer as paredes.
__ Não quero mais cobra nenhuma __ a mulher decidiu.
Tomou um cacete, matou a cobra e jogou-a num terreno baldio.
Lembrou que a mãe dela dizia que espinho de cobra, seco, entra no corpo
e mata feito o veneno da víbora. Então ela ateou fogo à cobra. Deixou o fogo ardendo
e foi consertar as paredes. Quando chegou em casa, a fumaça da cobra chegou também.
Seria aquela fumaça a alma penada da cobra? Como vou viver com uma alma penada de cobra
dentro de casa?
A fumaça não dava sossego pra mulher. Entrava no ouvido do telefone,
no pêlo do carneiro da vizinha, na torta de maçã, no bule de café, nos olhos
das freguesas. E tomava muitos banhos por dia sem se molhar. De vez em quando, sumia
__ mas tornava a voltar.
Certa feita, a fumaça entrou num litro vazio. A mulher aproveitou e rapidamente
tapou o litro: daqui ela não sai. Saiu pelos cacos do litro que se espatifou no chão.
A mulher foi almoçar pensando no que fazer. A fumaça entrou no prato de salada,
ela viu e ploct engoliu a fumaça. Depois disse às paredes: agora tenho duas almas:
uma de gente e outra de cobra.
Então ela foi ao campo olhar os pirilampos brincarem.
E do campo foi ao precipício. Ficou bem na beirinha e, com muito cuidado,
com muita calma, com um pouco de medo, dobrou o precipício em quatro partes,
levou-o para casa e guardou-o no fundo de uma gaveta para sempre.
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