entrevistacom a escritora, roteirista e tradutoraTatiana Belinky B A L A I N H O — Em meio ao dilúvio de publicações de literatura infantil e juvenil, lançadas no mercado a cada ano, como discernir o que é genuinamente novo e válido? Tatiana Belinky — A criança é nova, portanto tudo é novo para ela. Mesmo o antigo, em especial o clássico, é totalmente novo. Quanto a ser válido, é válida a boa literatura, simplesmente. A literatura de boa qualidade, estética e ética, respeitadas as diferenças individuais e outras dos leitores. B — A senhora acha que a literatura infantil ainda é tratada como um gênero menor no país? Tatiana — A Literatura Infantil, assim como o Teatro Infantil, e outros assuntos importantes já foram tratados como gêneros menores. Isto, felizmente, tem melhorado nos últimos tempos. Haja vista a existência de cadeiras nas Faculdades de Letras, que tratam a Literatura Infantil com o respeito que ela merece, e também a de teses e livros sérios dedicados ao assunto, etc., mas ainda falta muito, há muito chão pela frente. Uma das coisas que fazem muita falta é uma crítica constante e abalizada na imprensa, por exemplo. B — Na sua opinião, qual é o futuro do livro de papel e tinta no mundo dos softwares e games? Tatiana — A literatura, em especial a dirigida à criança e ao jovem, sempre teve de enfrentar muita “concorrência” — o cinema, a música, o esporte, e mil e uma outras “distrações”. Tudo isso pouco tem a ver com literatura. O livro é um capítulo à parte, e quem tiver os estímulos necessários, e até mesmo uma certa “vocação” para a leitura, será um “ledor”, com ou sem games e softs. O livro de papel, felizmente, não vai acabar tão cedo — se é que vai acabar algum dia. Para quem gosta de ler — e sempre haverá quem goste mas nada substitui o amigo livro... B — O mercado escolar sustenta a produção de LIJ no país. Quais são, a seu ver, as conseqüências desse direcionamento? Tatiana — O livro francamente didático é o que é, e tem o seu lugar garantido, ainda que comportando muitas modificações para melhor. Mas a tal “literatura para-didática”, feita como que sob encomenda, de vez em quando até acerta num ou outro caso, mas em geral está longe de corresponder às exigências, tanto de forma como de conteúdo, de uma literatura de boa qualidade, tanto estética como ética, e mesmo histórica e cultural. O resultado — as conseqüências desse direcionamento — é, infelizmente, uma enxurrada de mediocridade, gerada pelo excesso quantitativo de uma leitura “obrigatória”. Coisa que, de resto, nenhuma literatura, mesmo a boa, deve ser. Mas isto é uma outra história... B — Seus textos encantam e apaixonam as crianças nas classes e nas bibliotecas. A senhora tem contato com seus leitores, fica sabendo “diretamente” desse amor pela sua obra? Tatiana — A pergunta está formulada de forma lisonjeira, o que agradeço. Sim, eu tenho muito contato com meus leitores, que me ensinaram muita coisa, mas muita mesmo. E uma delas, fundamental, me foi posta em outras palavras por uma criança de sete, oito anos: “Livro que não dá para rir, não dá para chorar, não dá para ter medo, não tem graça”. As crianças querem emoção, não querem livros “chatos” e “moralistas”. E têm grande sensibilidade para a beleza de um texto, para a “música” da linguagem, para a poesia e, sim, muito importante, para o humor. Não só o humor circense, físico, digamos assim, mas para o humor inteligente, o nonsense, o jogo de palavras e mesmo conceitos, etc. B — Poderia falar de sua experiência como tradutora (especialmente dos contos russos)? Tatiana — A experiência de tradutora sempre foi para mim uma experiência desafiadora e gratificante. É grande o prazer de tentar reproduzir e transmitir, na medida do possível, a forma e o conteúdo de um texto, seja em prosa ou — o que costuma ser mais difícil — em verso. O trabalho de traduzir me cansa, às vezes, sim — mas me descansa, sempre. Para mim, sempre foi, e continua sendo, uma verdadeira alegria poder repartir, com os meus jovens — ou nem tanto — leitores brasileiros, as emoções, os “sustos” e os encantamentos que, desde bem pequena, procurei e encontrei nos textos de bons escritores a que tive acesso, em algumas línguas, a primeira das quais, claro, foi a língua russa, meu idioma “de berço”. Eram acalantos e poemas, contos e fábulas, novelas e romances, e tudo o mais. Toda a minha infância e adolescência. (E até hoje...). Mas as traduções do alemão - o que por sinal também fez parte da minha infância, antes de vir para o Brasil — e as posteriores traduções, principalmente do inglês, e um pouco de outros idiomas também constituíram e constituem, para mim, desafios e satisfações sempre gratificantes. |