Amorosa casa

de Inês, de Márcia, de Alice...
quem dera de todos nós!

Eliane Santana Dias Debus
Doutora em Letras e Professora UFSC/CED/CNPq
edebus@bol.com.br

Venho como quem não quer nada, de mansinho, dar-te um presente, leitor. Um presente quente, cheio de ternura, que me foi dado por uma fada prazenteira que aqueceu palavras e me fez descobrir uma casa iluminada, uma enluarada casa... casa aquário, casa ventania, enfim uma casa amorosa.
O livro de poesia A casa amorosa (Cultura em movimento, 2002), da escritora catarinense Inês Mafra, é cheio de versos ternurizantes carregados de afeto, sem pieguice e com muita simplicidade, que agasalham e confortam o leitor. A escritora faz crer que produzir poesia com qualidade estética sem cair no didatismo e moralidade para o público infantil é possível, como já comprovaram, entre outros escritores, os catarinenses Alcides Buss (A poesia do ABC, 1989; e Pomar de Palavras, 2000) e Eloí Elisabet Bocheco (Uni...Duni...Teia, 1998; A de amor, A de ABC, 1999; e Ô de casa!, 2000).
A casa que é vôo permanente abre as portas e se anuncia como prenúncio de alegria. Na escada os pés desenham uma proeza nunca antes tentada; a porta com o senhor sininho se abre para uma sala com o sofá que envolve um preguiçoso gato, gato gente, dolente, que mansamente se enrodilha no pequeno espaço quente; a lareira queima chamas alaranjadas; uma estante de livros guarda e aguarda para ser visitada. Casa segredante de porão escuro e de segredos encantadores. No banheiro a banheira e o chuveiro falam de molhados banhos infantis, de gestos brincantes da criança que no quentinho da água enfrenta a voz adulta pai e mãe. Aninhando-se, avisa aos adultos em gritos:

Não posso escutar,
Virei peixe!

Seria impossível ao leitor não ficar desejoso de conhecer casa tão amorosa. As ilustrações de Márcia Cardeal trazem para o livro o colorido aconchegante e (re) significam o olhar do leitor, pois o exercício da escrita de Inês se emaranha no exercício ilustrativo de Márcia. Como observa Sílvia Teske, na apresentação do livro, elas (escritora e ilustradora) estão na categoria daquelas que “são feiticeiras, fadas, verdadeiras poetas”.
Na última página a casa alça vôo com suas asas, casa alada em pleno vôo, casa de sonhos e sonhada, guarda seres sonhadores:

Da casa
o que amo mesmo
é a asa.

O livro integra o belo projeto “Literatura para todos”, da editora Cultura em Movimento, órgão vinculado à Fundação Cultural de Blumenau, Santa Catarina. A casa de Vinicíus de Morais “não tinha nada” e alegrou/alegra gerações de leitores. Imagina essa que de tudo tem um pouco e se presta a tanto: encher corações!!!