O Armazém Literário
Tânia Piacentini
Graduada em Letras (UFSC)
Doutora em Educação (UNICAMP)
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Os fantasmas de Eglê
Eglê Malheiros é uma escritora bissexta, ou seja, publica pouco e com muito tempo entre um livro
e outro. E quem perde somos nós, os leitores, uma constatação que seu último livro torna
flagrante. Os meus fantasmas, publicado pela Editora Movimento, de Porto Alegre,
é um desses livros que se lê em estado de graça, presos aos acontecimentos que nos
surpreendem e envoltos pela sedução da linguagem de uma narradora experiente, ágil e
ousada.
Trata-se de uma história, na verdade uma pequena novela, catalogada como literatura
infantil e juvenil, com características que a filiam a melhor linhagem dessa produção
no Brasil e permitem que se questione alguns dos pressupostos desse gênero literário,
ao mesmo tempo em que reafirma a máxima de que a boa literatura agrada a leitores de
qualquer idade. Escrita a pedido de um neto, que queria uma história de fantasma,
a dedicatória engloba todos os outros netos e é também extensiva a três pessoas que
presumo serem irmãos da autora, pois “compartilham os fantasmas”, e a Salim Miguel,
marido e companheiro sempre. Desde a primeira leitura, comecei a ver a obra como
uma espécie de “léxico familiar”, como um resgate da memória pessoal e familiar e
um legado para a nova geração da infância, da cidade, da linguagem e cultura da época,
dos valores éticos e políticos, muito bem trazidos para os dias atuais,
onde se encaixam atualizados e reavivados.
De cara, o impacto, o estranhamento causado pela inversão que prenuncia quem
é a protagonista da história, que não podia dormir direito por causa dos barulhos comuns
do dia e se sentia mal à noite, quando saía para viver a sua vidinha, pela falta de sono.
O suspense só é desfeito no terceiro dos nove capítulos, depois que os demais personagens
já nos foram apresentados ou reapresentados, pois nos são familiares e mesmo velhos
conhecidos:
o Boi da cara preta que passa a ser o Cara -;
a charmosa gata Leti, de batismo Laetitia Felix Catus;
o cachorro Mito, de basto pêlo fulvo e o Negrinho do Pastoreio que,
em busca de um nome que lhe conceda a digna cidadania, acaba por escolher
chamar-se Dilvanino Espártaco Negrinho do Pastoreio. A líder é Momó, uma elegante,
vaidosa e sábia fantasminha, elo atemporal, mítico. E é no cotidiano dessa turminha
que tudo acontece, no vai-e-vem entre o real e a fantasia, o concreto e o imaginário,
o passado que se torna presente porque eterno.
A narradora é uma cúmplice bem-humorada dos pequenos leitores e se encarrega
de mantê-los atentos, atraindo-os com sutis digressões explicativas, respeitando
a inteligência de todos através do desafio do vocabulário utilizado.
Sim, porque a ousadia maior talvez seja a da linguagem. Eglê usa um registro
literário elevado e o mescla com a última gíria em voga nas rodas juvenis e na televisão,
com o coloquial da gente comum e sem esquecer alguns regionalismos. As expressões
papo furado, ledo engano, lufa-lufa, vir na volada convivem com
dias de fastígio, soerguer a cabeça e claridade irridescente, além da sofisticada
gradação chamar - invocar - solicitar - conclamar.
Perambular e aboletar-se com o topar e o garrar a estrada,
somados ao piscar de olhos para o leitor de Homero, com os dedos rosados da aurora
e para o das revistas em quadrinhos e cinéfilos com o forte Tarzan.
Ela nos leva a uma festa, presumo que ocorrida no fim do século XIX,
ali no palácio da praça XV, e o vocabulário dos personagens é o da época,
adequado ao conjunto verossímil do cenário e do enredo, e perfeitamente compreensível
a qualquer leitor contemporâneo. O recurso aí é a ironia, a caricatura e o pastiche.
Muitos outros exemplos poderiam ser levantados, mas basta resumir dizendo que a autora
faz um verdadeiro passeio pelos diferentes registros da língua portuguesa e em nenhum
momento é pedante ou inadequada, pois não carrega no erudito ou no literário nem faz
concessões ao pobre tatibitate da linguagem supostamente infantil ou juvenil.
Vocabulário seleto e culto; personagens clássicos interagindo com gente comum
numa história grande, com variação de cenário e época; metalinguagem e intertexto;
nenhuma ilustração: eis aí algumas “anti-qualidades” que um manual de literatura
infantil e juvenil apontaria para um texto. Mas só os manuais simplistas, graças
a Deus! Os fantasmas de Eglê Malheiros nos reintroduzem nas melhores famílias
de narradores, onde estão as boas histórias de todas as épocas e lugares. Só nos resta
pedir que Mnemósina, a adorável Momó, musa dos artistas, continue inspirando Eglê
e que outro livro venha logo.
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