Leituras&Leitores
Lendo as matérias do balainho, passei a me lembrar de meu modo de ler literatura com meus alunos e de como mudei de modos de uns tempos pra cá.
Levei muito tempo pra mudar o modo de me relacionar com o livro de literatura, que só mais recentemente distingo de outros tipos de livros. Para mim, se era “livro infantil” era tudo literário.
À medida que fui ouvindo palestras aqui e ali sobre a literatura infantil e lendo alguns livros sobre o assunto fui mudando de jeito e de concepção. A formação do educador nos cursos de Pedagogia no que diz respeito à litetatura, à leitura, leitores, deixa muito a desejar. A literatura infantil é dada na última fase e como apêndice. Imaginem! A gente vai ser professor de leitura, antes de mais nada. E com que instrumentos, ã?
No começo de minha carreira, como profe de 3ª série, eu tinha um hábito (mau) que era o seguinte: lia um livro para meus alunos e, ao final, impreterivelmente eu perguntava: e aí, qual é a mensagem dessa história? O que ela quer nos ensinar? Eu não sabia me relacionar com o livro de outra maneira. Tava definido pra mim que literatura era para ensinar, doutrinar, dar alguma mensagem, que eu tinha que resumir com as crianças.
Eu nem atinava o que era fruição, deleite, prazer, envolvimento, ludismo, experiência de descobrimento subjetivo e outras coisas que têm a ver com literatura.
Para vocês terem uma idéia, eu sempre esperava das histórias um final finalizado, vamos dizer assim. Obra aberta? Obra que continua na imaginação? Isso era coisa que eu não alcançava.
Num curso que fiz, me lembro que a mestra deu um livro de literalura pra cada um ler e dar um parecer, comentar ao seu modo. Peguei A limpeza de Teresa, de Sylvia Orthof. Fui lendo, lendo aquela história que me pareceu maluca, sem o enredo “certinho” e “comportado”. Li até o final na expectativa de que a sinhá Teresa fosse castigada por ter aquela mania de limpeza. Eu ansiava por ver o tipo de castigo que a autora ia dar pra sinhá Teresa. E não teve castigo nenhum. A Teresa chega de viagem e vai tirar o pó da sobremesa, se bem me lembro. O nonsense do livro então, me deixava de cabelo em pé! Fiquei até revoltada com esse livro, na época, pra dizer a verdade.
Quando se iniciou o plenário de leituras, eu, na minha vez, não tive saída e confessei a minha dificuldade. Outras colegas também se confessaram e foi lindo a gente reaprender a tratar a literatura com outros olhos.
Diz bem a mestra Tânia Piacentini: “nós, adultos não nos relacionamos bem com a literatura”. Primeiro temos que resolver isso conosco mesmos. O que é a literatura pra nós? Que importância lhe damos? Como nos relacionamos com o livro literário? Qual é o lugar dele em nossas aulas?
Era isto, colegas do querido Balainho. Ah, um Balainho destes em 1983! Como teria me ajudado!
Guiomar. T. de Araújo São Miguel do Oeste/SC
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Afirmo que nós, educadores, precisamos ter mais coragem e dizer o que pensamos em espaços que nos são
facultados, como nesta coluna do Balainho. A palavra dos especialistas, dos dou tos é importante, claro, eles
estudaram mais, se aprofundaram, mas a gente não precisa ter receio não, se não temos as altas sabedorias,
temos a experiência, estamos no dia-a-dia com as crianças e isso não é saber vão.
Sei de muita gente que quer escrever para este espaço, ou telefonar para a Zê, a Eloí, a Tatiana mas tem medo de se expor, acha que vai dizer bobagem, que vão julgar fraco.
Bom, venho colocar algumas considerações sobre um tema que o Jornalzinho enfoca muito que é Ler na escola.
Primeiro acho que botamos os livros tudo no mesmo balaio (balaio que não é mágico!) Reunimos ali os mal traduzidos, as adaptações caolhas, os tais paradidáticos, que inundam escolas, aquelas coleções horríveis sob todos os sentidos, e que diretores adoram comprar dos vendedores que vem em chusma oferecer nas escolas.
Com um balaio assim, como é que uma criança vai se apegar aos livros? Sem contar que as autoridades (secretários de educação, por exemplo) fazem coisas do tipo: comprar 60 volumes do mesmo livro, dito clássico, mal traduzido, mal ilustrado, capa mole, feiento. 60 volumes de um único título e ainda ruim!!! E os tais vão às mídias dizer que estão incentivando a leitura das crianças!!!!
Temos os projetos do MEC, que mandam bons livros, mas as nossas bibliotecas não têm atendentes, então os livros logo somem, vão pro ralo.
Só nos resta mesmo equipar nosso próprio balaio e andar com ele pendurado pra lá e pra cá a ler com nossas crianças'. É isso que faço. Tenho meu balaião mágico e boto nele tudo que acho bonito, bem escrito, aproveito sugestões de vocês, mas não todas, e creio nessa dieta porque meus alunos também crêem e se deleitam. E como se deleitam!
Vai meu abraço a toda equipe.
lsaura O. Mafra
São José/SC
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