Emoções sem limite(s):
Juarez Machado e o livro de imagens


Eliane Santana Dias Debus
Doutora em Letras - Professora UFSC/CED/CNPq
e-mail: edebus@bol.com.br

O artista plástico catarinense Juarez Machado, nascido em Joinville em 1941, e residente em Paris desde 1986, na década de 70 presenteou as crianças com dois livros exclusivamente de imagens (Ida e volta e Domingo de manhã). Em 2001, ele retomou a essa seara com mais dois títulos Emoções e Limite, ambos publicados pela editora Agir.
Em Emoções a marca dos pés calçados vai incorporando as cores e sabores do outro. Na capa, as faixas em horizontais do aparelho de televisão como que anuncia que já é hora de partir e é o ponto de largada para aventuras intelectuais (leitura, pintura, reflexões), populares (carnaval, brincadeira de amarelinha, futebol) e amorosas (encontrar-se com a amada...).
Um personagem invisível mas identificado pelas pegadas – um ser andante –, vai mostrando ao leitor uma trajetória de emoções; cada pegada representa um guardado do vivido, como uma caixinha de badulaques (a carteira de vacinação, a carta do primeiro amor, o convite de formatura, os cartões postais dos amigos, etc.) que vai sendo abarrotada e trambolhadamente preenchida com as pequenas coisas da vida, das quais não podemos nos desfazer. O livro em sua completude narra uma história da capa à contracapa e nada pode ser esquecido. Já o colorido das ilustrações penetra no colorido das pegadas, criando um jogo de cabra-cega (Quem será? Onde estará? Para onde irá?).
Limite difere dos demais livros publicados por Juarez Machado, com ilustrações em preto e branco. Um personagem retido, detido no limite de quatro paredes – ou de um quadrado ou da própria página – isso depende de você, caro leitor! vai criando os mais intricados planos em busca da saída, da liberdade. Se lá dentro, na imagem, há o aprisionamento, cá fora a imagem traz a reflexão dos limites impostos e muitas vezes não percebidos.
O livro aguçará a memória daqueles que guardam a presença de Juarez Machado no Fantástico, nas noites de domingo da década de 70, naquele quadro de mímica hilariante em que ele desvendava segredos e despertava o riso. Limite traz a marca da irreverência, a comicidade de ver o outro em apuros, o encontro de saídas nem sempre: definitivas, tudo muito próximo, do que me lembro, daquele personagem incorporado: pelo próprio artista na TV.
A leitura da linguagem visual, de livros: como esses, sem dúvida aquece a alma e a imaginação das crianças pequenas, colaborando para a formação de leitores perspicazes, ávidos por descobertas. Um lembrete: os livros não estão catalogados como literatura infantil e/ou juvenil, e sim como “caricaturas e desenhos humorísticos”, mas fatalmente irá parar na estante das crianças e adolescentes, como evidencia a premiação de Emoções na categoria de melhor livro de imagem, concedida em 2001 pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, e em 2002 o selo Altamente Recomendável da mesma instituição para os dois títulos. Assim, o convite para adentrar nessas Emoções sem Limite(s) se estende também aos adultos que sem preconceitos visitam as estantes dos livros para crianças e jovens.