entrevista

com o escritor, ilustrador e pesquisador


Ricardo Azevedo


B A L A I N H O — Em palestras, encontros, entrevistas, você tem falado sobre as diferenças entre um livro literário “propriamente dito” e outros tipos de livros, como o didático, o paradidático, o livro brinquedo. Quem é o livro literário “propriamente dito” e qual é a importância desse tipo de texto para a criação de leitores?
Ricardo — Fala-se muito em “criação de leitores”. Todo mundo deseja isso mas creio que, no Brasil, ela só vai ocorrer quando as pessoas aprenderem a diferenciar os vários tipos de textos. Simplificando, existem os didáticos, fundamentalmente utilitários, contendo lições e informações objetivas e um discurso impessoal que procura ser sempre unívoco (só aceita uma interpretação). Normalmente, esse tipo de texto precisa ser atualizado periodicamente, pois as informações mudam. Temos os paradidáticos que, às vezes recorrem à ficção e ao discurso poético mas, no fundo, também são didáticos e unívocos: no final todos os leitores devem chegar às mesmas conclusões. E, finalmente, resumindo, claro, temos os textos de literatura. Essencialmente ficcionais, usam a linguagem com grande liberdade (ela às vezes é, em si, a própria mensagem do texto), apresentam um discurso marcado pela subjetividade, podem se dar ao luxo de serem plurissignificativos (aceitam diferentes interpretações) e tratam de assuntos pelo viés da especulação e nunca da lição. O problema é que como a escola é a grande mediadora entre o livro e o leitor, muitos estudantes, infelizmente, acabam ficando com a impressão de que todos os livros são didáticos, têm sempre uma lição ou uma informação objetiva e unívoca a ser apreendida. Ora, trata-se de tremendo equívoco. Na verdade, a maioria das escolas ainda não sabe direito como explorar a literatura, o que pressupõe respeitar e compreender suas características essenciais. Uma coisa é certa: livros didáticos são úteis e muito importantes mas, definitivamente, não formam leitores.

B A L A I N H O — A escola é o grande espaço mediador da leitura, no entanto, é comum a escola perder os leitores. Ao seu ver, por que isso acontece?
Ricardo — Muitos adultos, inclusive professores, elogiam a literatura, citam e recomendam autores e obras “clássicas” mas não são leitores nem gostam da literatura. Crianças que têm contato com pessoas desse tipo correm o risco de se afastar da leitura. Outra coisa: como disse, muitas escolas tratam os livros de literatura e de poesia utilitariamente, como se fossem livros didáticos. Isso é um erro. Costumo dizer que há assuntos que ninguém sabe, portanto simplesmente não são passíveis de lição, só de compartilhamento. A paixão, o lidar com a morte, as questões sexo-afetivas, os sonhos, a ambigüidade, os medos, as utopias pessoais, o conflito entre a realidade e a fantasia, a busca do auto-conhecimento, a busca da identidade, a construção da própria voz, as contradições entre muitos outros assuntos. Temas assim só admitem uma abordagem subjetiva. Esses são os assuntos da literatura e é essencial que dentro das escolas haja espaço para eles. Aí alguém pode perguntar: “Contradição? Para crianças?” Ora, os contos de fadas, por exemplo, tratam o tempo todo da contradição e da ambigüidade. São os príncipes transformados em sapos, as madrastas que querem destruir as enteadas, as moças aprisionadas em castelos no fundo do mar. Por outro lado, esses contos abordam quase sempre a busca do auto-conhecimento, a busca do parceiro amoroso e a busca do auto-sustento. É fundamental que os pequenos leitores tenham contato com tais assuntos, caso contrário, estaremos formando pessoas dissociadas da realidade. Esses estudantes da elite, formados e diplomados, que assassinaram o pataxó Galdino ou, mais recentemente, um garçom lá em Porto Seguro, com certeza tiveram acesso a livros didáticos, sabem fórmulas de cor, navegaram na internet, estavam cheios de informação, – alguns eram universitários! mas não são leitores de ficção, desconhecem a poesia, são embrutecidos, não sabem lidar com as questões humanas, éticas e sociais advindas da situação, resolveram pura e simplesmente eliminá-la. Ao serem contrariados, no caso do garçom, partiram para a destruição. Em outras palavras, são seres paradoxalmente bem informados e imbecilizados pois não suportam lidar com a contradição. Se fossem leitores de literatura e de poesia, provavelmente seriam mais sensíveis e humanos e não teriam feito o que fizeram.

B A L A I N H O — Em entrevista à Folha de Londrina/PR, em 04.03.2001, você diz que a literatura infantil é muito mais uma literatura popular do que qualquer outra coisa. Poderia comentar um pouco sobre isso?
Ricardo — Se você for ver, todo livro produzido especificamente para crianças é, no fundo, didático, no sentido de que pretende educar, ensinar objetivamente alguma coisa ou aconselhar determinado comportamento. Não é, portanto, literatura. Como já disse, é preciso reconhecer que existem assuntos que ninguém sabe. Tento dizer que existe uma diferença relevante entre livros para crianças e literatura. Pegue a personagem Raquel, de A bolsa amarela, livro de Lygia Bojunga. Ela tem uma bolsa onde guarda a sua vontade de ser menino, sua vontade de ser adulta e sua vontade de ser escritora. A literatura é isso, trata do conflito humano, da contradição e, para isso, recorre à ficção e à metáfora. Se você pensar nos personagens importantes da literatura chamada infantil como Alice, de Lewis Carrolou Peter Pan, vai ver que são personagens complexos atuando em enredos não passíveis de lições objetivas. Por outro lado, tais textos sempre recorrem a uma linguagem capaz de atingir a um número grande de pessoas, abordando temas que podem interessar a muita gente: neste sentido são populares. Isso explica porque muitos adultos gostam de ler a literatura infantil: é que ela é muito mais “popular” do que propriamente “infantil”.

B A L A I N H O — Sua obra revela fortes influências da cultura popular. Como se constituiu esse diálogo com as fontes orais?
Ricardo — Venho pesquisando contos e outras formas literárias populares, como adivinhas e quadras, há mais de vinte anos. Fiz meu mestrado sobre os vestígios dos contos maravilhosos na literatura infantil. Pode ter certeza de que são muitos. Acho que a cultura popular, até por ser marginal à cultura hegemônica oficial, é um impressionante e precioso manancial estético.