Histórias pra boi acordar

Eloí Elisabet Bocheco

Mandioca Ofídica


Estava uma camponesa recolhendo ovos de pata quando ouviu:
– Ô de casa! Não tem fogo nem brasa nem a dona da casa?
Era um homem meio velho, meio novo, montado num cavalo que não era bem claro, nem bem escuro, quase uma coisa quase outra.
A camponesa mandou o homem descer do cavalo e convidou-o para conhecer a plantação. O homem ficou admirado com o viço dos pés de amendoim, a exuberância do milho, mas, sobretudo, se espantou com a robustez das ramas da mandioca.
– Quer ver as raízes como são viçosas? – a mulher perguntou e arrancou um pé, ao mesmo tempo em que caía por terra com o peso da planta.
– Isso é mandioca? Parece mais tronco de árvore! – ele falou e, cada vez mais admirado foi apalpar as raízes. Ele deu um puxão para separar a raiz da rama e foi quando levou um laçaço na perna direita. Foi aí que ele viu que as raízes de mandioca eram, na verdade, uma cobrona de três cabeças.
– O que há com esse mandiocal? – o homem perguntou e tratou de correr da mandioca ofídica. E a mulher não ficou para trás, assustada até a raiz dos cabelos como estava.
Eles foram para trás de uma touceira de cana verde, mas a cobrona seguiu-os, saltando como canguru. Então eles se encheram de coragem e juntaram uma porção de pedras com as quais pensavam afugentar a cobrona.
O homem não quis atirar a 1º pedra, nem a 2º, nem a 3º, nem pedra nenhuma. A mulher, vendo o caso sério, acertou uma pedrada no meio das três cabeças da temida.
Aí deu-se um fenômeno, ou um fato, ou as duas coisas, a cobrona quicou no chão três vezes como uma bola, jogando terra para todo lado, deu um silvo medonho, que arrepiou os cabelos do milharal e virou um tronco de árvore, que o homem botou em pé, sob o sol.
– Eu tava mesmo querendo um tronco assim para encher de orquídeas! – a mulher exclamou.
Mas, o tal tronco de pé muito tempo não ficou. Tombou e saiu se arrastando pelo chão, virado taturana com pêlos daqueles que queimam a pele.
– Hoje não era um bom dia para eu visitá-la – o homem disse à mulher e juntou um pedaço de pau para espantar a taturana. Tentou rolá-la para dentro de um riozinho que havia por ali e que separava as terras da mulher das terras do tio dela.
Foi preciso arranjar um cacete maior, pois aquele que estava usando parecia palito de fósforo perante o corpanzil da taturana.
Dum ponto em diante do rola-rola, a taturana arrepiou-se toda, não bastasse ser ela uma criatura de corpo arrepiado, se estrebuchou, como se estivesse passando mal, partiu-se em duas e, de dentro dela, saiu uma sanfona, vistosa como aquela do cantor Dominguinhos.
– Você nunca me falou que suas terras eram encantadas – o homem disse à mulher.
– E eu lá sabia dos encantamentos destas terras? Vai ver é alguma coisa que veio na sola do seu pé e despertou a magia da terra.
– Na sola do meu pé?!
– Do senhor, sim!
Nisso, a sanfona, como quem diz: se ninguém me toca, eu toco sozinha, começou a tocar uma canção do Luiz Gonzaga, não era a Asa Branca, era outra que não lembro o nome. Um pé-de-milho se animou e tirou um pé de abóbora para dançar e aí, pouco a pouco, a lavoura da mulher entrou na dança.
Foi pé-de-feijão com pé de batata-doce, pé de amendoim com pé de cará, pé de acelga com pé de repolho, pé de chuchu com pé de nabo A verdade é que as plantas dali nunca espalharam tanto o pé como naquele dia.
Houve, porém, um certo problema: a sanfona não parava mais de tocar e o que era pra ser só um baile virou um baile só.
O sol se pôs sem que a sanfona parasse de tocar e sem que a roça parasse a dança. O abraço da lua prateou o mundo, prateou a sanfona a tocar.
A mulher se esconjurava e mandava a plantação parar a dança e tratar de terminar de se criar, para produzir mantimentos. Como teria espigas de milho boas para colher, se o milharal não parava para crescer? Se só queria saber de dançar conforme a música da sanfona que tava na taturana, que foi tronco, que foi cobrona de três cabeças, que foi mandioca?
Quando o galo cantou pela terceira vez a sanfona parou de tocar e a lavoura da mulher ficou igualzinha a uma lavoura de todo ano. Ninguém dizia que há poucos instantes as plantas haviam saracoteado tanto! Nem que a lavoura da mulher tinha parte com a magia. Nem que todos ali haviam se perdido de tanto brincar de mudar de costume!