O Armazém Literário
Tânia Piacentini
Graduada em Letras (UFSC)
Doutora em Educação (UNICAMP)
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A generosidade do leitor
A história da escrita e da leitura no ocidente estão intrinsecamente unidas desde o surgimento dos primeiros sinais inscritos nas tabuletas de argila. E isso, nos dizem os arqueólogos e os historiadores, ocorreu no final do quarto milênio A. C., na antiga Mesopotâmia, num território que hoje corresponde ao Iraque. A simples evocação desses nome e época propiciam ao leitor de hoje um giro vertiginoso no tempo e no espaço. E nos convidam a uma viagem através da leitura, esse mesmo ato que milhares e milhares de pessoas fizeram antes de nós e que fazemos ainda, automática e rotineiramente, desde que aprendemos a dominar essa mágica e poderosa invenção que nos agrega a todos na mesma comunidade, a dos leitores. Relembrar ou tomar conhecimento da história dessa invenção e refletir sobre o seu significado para a humanidade é uma oportunidade de quebrar o automatismo dos atos de leitura e de revalorizar as experiências vividas com os textos.
Os arqueólogos que reconstruíram Babilônia no início desse século XX encontraram alguns exemplares das tabuletas onde os primeiros escribas registraram em incisões no barro marcas, sinais, desenhos, números, provavelmente com fins comerciais: os grupos nômades começavam a se organizar em centros urbanos e normas e leis surgiam para regularizar as relações nas cidades. A invenção da arte de escrever pelo anônimo escritor daqueles signos inseridos na argila cresce em significado, quando nos damos conta de que naquele momento a humanidade criava um acréscimo inestimável à memória do cérebro, que mudava completamente a comunicação entre os homens, possibilitando superar o tempo, as distâncias geográficas, o esquecimento, o caráter final da morte.
E naquele mesmo momento, aconteceu simultaneamente uma outra criação, a da leitura. O primeiro escritor inseriu uma mensagem na argila, registrou signos, criou um documento com a intenção de que ele fosse resgatado, compreendido. Havia, pois, necessidade de alguém que os decifrasse, que lhes desse sentido. O ato de escrever exigia um leitor. Começava, também, a paradoxal relação entre escritor e leitor, pois para que o texto exista, o escritor deve sair de cena, deve se retirar: só assim o texto fica pronto, ganha vida. Uma vida que permanece silenciosa até que um leitor leia as marcas deixadas na tabuleta (no pergaminho, no manuscrito, no códex, no livro, na tela...), emprestando-lhes voz e significados. “Toda escrita depende da generosidade do leitor”, resume Alberto Manguel, o autor de cujo texto me apropriei como leitora milênios depois da invenção da escrita.
Essa certidão de nascimento atesta e resgata a importância do leitor, pois desde aqueles remotos tempos a arte de escrever teve mais reconhecimento social, registrado já no nome dado ao que a exercia, o escriba, cuja arte de ler também era essencial. Séculos depois, reconhecemos que a leitura é apropriação, invenção e produção de significados, atos exercidos pelo leitor que dá vida ao texto. Cada leitor, em cada uma de suas leituras, é singular, suas capacidades e desejos ampliam o significado de um texto. Mas este imenso poder é historicamente circunscrito: as experiências individuais estão no interior de modelos e normas compartilhados por todos os que pertencem à comunidade dos leitores, em todas as épocas e lugares. O fascínio da grande história da leitura aumenta cada vez que reconhecemos, lendo ou ouvindo, as pequenas histórias de leitores, os nossos “era uma vez”...
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