Vamos fazer do Brasil um país de leitores
Em busca do tempo perdido... e dos livros também!!!
Eliane Santana Dias Debus
Doutora em Letras - Professora UFSC/CED/CNPq
e-mail: edebus@bol.com.br
A frase afirmativa e ao mesmo tempo convidativa "Vamos fazer o Brasil um país de leitores" foi utilizada como slogan da campanha TEMPO DE LEITURA, lançada nacionalmente pelo Ministério da Educação na semana de 10 a 14 de setembro de 2001. Quem é "antenado" às pouquíssimas campanhas de incentivo à leitura em nosso país não ficou alheio aos cartazes elaborados e ilustrados por Ziraldo e outros seis cartunistas que tomaram as paredes de instituições públicas nacionais; a um jingle insistentemente rodado no rádio e à propaganda veiculada pela TV, durante algumas semanas, em que uma criança lia atentamente o livro Bisa Bia, bisa Bel, de Ana Maria Machado, ganhadora do prêmio Hans Chistian Andersen 2000, o Nobel da literatura infantil.
Em 18 de abril de 2002, Dia do Livro Infantil e data de nascimento do escritor Monteiro Lobato (1882), a campanha foi relançada. Com o sugestivo título Literatura em minha casa, o Ministério da Educação, através do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), criado há cinco anos, distribui a 139.119 escolas públicas brasileiras o total de 60,92 milhões de livros a 8 milhões e 560 mil alunos de 4ª e 5ª série do Ensino Fundamental, segundo dados do Governo Federal e da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).
Participaram do processo final de escolha 36 coleções com 5 títulos cada. Uma comissão técnica composta de representantes qualificados e com critérios de análise rigorosos avaliou e selecionou 6 coleções compostas de 5 livros com as seguintes características, segundo o próprio edital:
- uma obra de poesia de autor brasileiro;
- uma obra de contos de autor brasileiro, ou uma antologia de contistas brasileiros;
- uma novela de autor brasileiro;
- uma obra clássica da literatura universal, traduzida ou adaptada;
- uma peça teatral ou obra ou antologia de textos da tradição popular.
As editoras selecionadas foram FDT, Objetiva, Moderna, Nova Fronteira, Companhia das Letras e Ática, e o acabamento gráfico e formato especial dos livros para a edição tornou o projeto viável. Esse material foi enviado às Secretarias Estaduais de Educação e coube a elas fazerem a sua distribuição.
O projeto Literatura em minha casa vislumbra o contato diário da criança com a leitura literária através da comunhão entre as práticas sociais de leitura e práticas escolares de ensino, pois esse material (o KIT LITERÁRIO, como foi batizado por muitos) tem como fim a casa do aluno e não as estantes da biblioteca da escola. Isto é, cada criança tem direito a uma coleção de 5 livros para levar para casa e compartilhar a sua leitura com os familiares, amigos e colegas. A criança torna-se proprietária desse acervo, pequeno, mas seu. Quem sabe o gérmen de uma futura biblioteca particular? Quem sabe a possibilidade da leitura literária ultrapassar os muros da escola? À escola cabe distribuir o material aos seus alunos, e ficar com um número suficiente de coleções para empréstimo e consulta dos professores e outros interessados que buscam a leitura silenciosa no ambiente da biblioteca.
A proposta do projeto merece aplausos. No entanto, sua aplicabilidade, segundo pesquisa informal realizada em três municípios de Santa Catarina, não se concretizou do modo como foi previsto, pois o fim do acervo tem sido o mais variado possível e até inusitado.
- algumas escolas alegam que a quantidade de kits foi insuficiente, pois o número de alunos matriculados na 4ª e 5ª série de cada estabelecimento corresponde ao censo escolar de 2001;
- os livros foram acrescentados aos outros títulos do acervo da biblioteca da escola e estão à disposição dos alunos para empréstimo;
- cada aluno teve direito a um único título do kit, com a responsabilidade de devolvê-lo ao final do ano letivo;
- uso dos livros nas aulas de Língua Portuguesa para fins normativos e não estéticos, ficando o material sob responsabilidade do professor da disciplina.
Acredito que todas essas práticas têm como ponto comum o objetivo da durabilidade do acervo e são conseqüência da descrença na capacidade e responsabilidade do educando de cuidar do material de leitura. Na história da leitura, o acesso ao livro e as relações de sociabilidade engendradas por ele demarcam o território da classe social a que pertence o leitor (nobreza, burguesia, escol, elite...), aquele que tem condições econômicas de adquirir o "objeto de luxo". Não temos o hábito de freqüentar bibliotecas públicas para empréstimos de livros literários, e por isso não temos voz para reivindicar a melhoria e atualização do acervo -- pensamentos como esse foram incorporados à cultura do não ler.
O livro, com o seu suporte material que conhecemos hoje, não tem durabilidade eterna... ele pode se desmanchar com o tempo, com o uso. E os cuidados exigidos dos alunos com o manuseio do material impresso somente acontecerão a partir do exercício, da convivência e experiência leitora. Não podemos privar o acesso à leitura pelo esmero exagerado com o livro.
O MEC/PNBE deve rever o modo como apresenta às instituições o acervo, pois percebe-se que não há clareza quanto à distribuição e conservação do material. Enfim, os professores não têm conhecimento dos objetivos e dos aspectos metodológicos do projeto. Algumas escolas, por incrível que pareça, não souberam da campanha e não receberam os livros, por isso não questionam a sua ausência.
Vamos fazer do Brasil um país de leitores? Frase interrogativa, mas também convidativa. Vá (pai, mãe, avô, avó, tia, vizinho, amigo, estudante...) até a escola pública mais próxima da sua casa, do seu trabalho e verifique se esses livros chegaram e que fim está sendo dado a eles.
Exerça o seu direito de ler, de ter e querer bons livros. Em busca do tempo perdido...
e dos livros também; eis um exercício de cidadania.
Em tempo: ficarei feliz em receber as suas informações se os livros do PNBE/2001
chegaram a sua escola e o destino dado a eles.
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