entrevista

com a escritora catarinense

Yedda Brascher Goulart

autora de Mosaico,
Aventuras na serra,
Aventuras na ilha da magia,
OS URSINHOS COMPANHEIROS,
dentre outros livros.


B A L A I N H O — Como começou a sua relação com os livros?
Yedda — A leitura, para mim, sempre foi alguma coisa muito especial. Éramos cinco irmãos: dois homens e duas mulheres. Eu fui a ímpar, temporona, portanto, sempre um pouco solitária. Meus companheiros eram livros, como Viagem ao Céu, de Monteiro Lobato, o livro inesquecível, mágico, que incendiou a minha imaginação. Outros livros dele, como Reinações de Narizinho, Pica-Pau Amarelo, também foram lidos ao lado do Cazuza, de Viriato Correia.
Foram absolutamente fascinantes os clássicos como As Mil e uma Noites, de origem heterogênea, os contos dos Irmãos Grimm, as histórias contidas em O Tesouro da Juventude, As viagens de Gulliver, as fábulas de La Fontaine, os contos de Perrault, e por aí afora.
Na juventude, o encantamento continuou com Robson Crusoe, O Conde de Monte Cristo, Vinte Mil Léguas Submarinas e tantos outros aos quais se foram somando, de acordo com a idade, maravilhas da Literatura universal e brasileira. No curso de Mestrado em Letras, a leitura acabou se transformando em material de análise mais profunda e, se por um lado, ficou mais valorizada, por outro, roubou um pouco a fruição da leitura, que fez de mim uma apaixonada por literatura.

B A L A I N H O — Aventuras na Ilha da Magia e Aventuras na Serra, livros que você publicou pela editora Insular, enfocam duas regiões de SC. Como foram essas escrituras tendo como universo o chão da infância e a Ilha da Magia onde você vive hoje?
Yedda — Como conseqüência deste passado de leituras enfocando países e épocas distantes, revelando espaços encantados em minha imaginação e levada pela beleza e culturas diversificadas de Santa Catarina. Imaginei registrar este encantamento para que crianças e jovens de lugares distantes pudessem sonhar com esta terra paradisíaca que é a nossa. Por isso, procurei criar aquele espaço maravilhoso através de alguns ingredientes da fábula, da magia e, principalmente, da liberdade de ir e vir sem tempo ou espaços demarcados cronológica e racionalmente. Busquei atingir a sensibilidade, não só de crianças e jovens mas também de adultos sensíveis, capazes de ver nas entrelinhas o encantamento que existe nas coisas simples, nas belezas naturais.
Para isto, busquei aprovação no brilho dos olhos de meus netos, quando comecei a mostrar-lhes oralmente o espaço que nos rodeava e de onde viemos. Dos planaltos verdes dos campos de Lages e região. Foi maravilhoso redescobrir o chão da infância e também a magia que envolve a Ilha de Santa Catarina. Pretendo estender a coleção a todas as regiões catarinenses com muita emoção, embora saiba das dificuldades de pesquisa que precisarei enfrentar daqui por diante.

B A L A I N H O — Como é a " aventura" de publicar livro infantil em Santa Catarina? (A relação com as editoras, tratamento dado ao escritor, tipos de contratos, distribuição da obra, divulgação, etc. etc. etc.)
Yedda — Para mim foi uma "aventura" bem sucedida, graças ao editor Nelson Rolim, da editora Insular. Escolhi a editora ao acaso, porque o nome se adaptava ao livro Aventuras na Ilha da Magia. E foi mágico! O Nelson, um gaúcho especializado em literatura catarinense, sempre esteve de portas abertas ao escritor local.
Naquele momento, desejava mesmo fazer algo de literatura infanto-juvenil e a parceria foi muito boa. O Aventuras na Ilha da Magia está na quarta edição, o que nos tem trazido muita satisfação. Depois dele, Aventuras na serra está ganhando espaços no planalto, nas escolas. Os dois fazem parte da coleção Pedrinho, criada pelo Nelson, que homenageia seu filho com o mesmo nome. Mosaico, meu primeiro livro de poemas, caminha mais lentamente mas me satisfaz porque escrevi como desejava.
Lançada recentemente pela distribuidora Todolivro, tenho uma coleção infantil que já está no mercado - Os Ursinhos Companheiros - que recebeu um tratamento muito bonito da editora e foi um trabalho de ilustração do estúdio Belli, de Rubens Belli, um talentoso ilustrador de Blumenau, que está agora dirigindo um vídeo de animação baseado no argumento de Aventuras na Ilha da Magia, com participação minha e também de Aline Belli na criação do roteiro.
Acredito que se o desejarem, os livreiros podem valorizar mais os escritores catarinenses, expondo melhor nossos trabalhos, como meio não só de vender livros, mas também de promover a cultura e preservar a memória do Estado. Mas, é realmente uma "aventura" a distribuição e divulgação das obras, se compararmos à produção das grandes editoras nos grandes centros, e sua fabulosa distribuição nacional e até internacional. E a "aventura" é de todos os envolvidos com o livro.

B A L A I N H O — Você é uma escritora que viaja com seus livros por todo o estado de Santa Catarina. Quais são suas impressões a partir dessas experiências com escolas, mediadores de leitura, leitores?
Yedda — Tenho estado em muitas escolas e trabalhado com alunos e professores de várias séries, até mesmo com 2º grau, como no caso do curso e colégio Energia, bem como em Faculdades de Letras e Pedagogia, como a Uniplac, em Lages.
O que se observa é que existe um grande e crescente interesse pela leitura, fruto do trabalho de muitos professores que são, na verdade, grandes parceiros do autor catarinense, e de instituições como o SESC. É o trabalho e a criatividade com que criam eventos em prol da leitura que estão assegurando ao livro sua permanência entre a infância e juventude. Posso citar o trabalho do curso e Colégio Energia que criou a Semana do Autor Catarinense, mobilizando todos os alunos para a pesquisa e contato com vários autores locais. Participei por mais de uma ocasião e foi gratificante o contato com aqueles alunos que vinham a minha residência para entrevistas -- das quais resultaram trabalhos maravilhosos com teatro, vídeos, marionetes, cartazes etc. Também no Colégio Catarinense, Colégio Coração de Jesus e Colégio de Aplicação da UFSC.
Mas o que não existe é a realização de encontros mais freqüentes com professores de todas as áreas, em oportunidades já existentes, como os cursos de atualização promovidos pela Secretaria de Educação, e outros encontros e seminários, especialmente com professores de Português e Literatura. Defendo a idéia de que a Literatura e a Poesia são necessárias para a expansão cultural de qualquer pessoa, seja ela da área de ciências humanas ou exatas, o que interfere nos processos de interação pelo aprimoramento da interpretação e análise dos conceitos. Como resposta mais direta à questão, diria também que, infelizmente, não há de forma significativa e generalizada, uma consciência da importância da literatura/leitura como recurso para aprimoramento pessoal, espiritual, histórico e profissional, entre o público para o qual são dirigidos os eventos que visam divulgar a leitura, embora a persistência desses eventos venha contribuindo, e muito para que isso aconteça, mesmo que gradativamente.

B A L A I N H O — Sua trajetória como escritora inclui incursões pela poesia. Na sua opinião, por que os educadores (salvo exceções) dão tão pouca importância à poesia?
Yedda — A poesia é uma conseqüência do que afirmamos anteriormente. Ela foi vista, ou ainda é vista por muitos, como forma de expressão de sentimentos românticos feridos. A falta de uma tradição cultural acentuada pela ausência de orientação da leitura de bons autores reduziu a poesia ao preconceito de que ela existe para quem sofre de desilusões amorosas ou apenas para festividades nos recintos escolares ou para leitura feminina (e aqui a polêmica atinge a discriminação).
O público leitor sempre tende a buscar determinados gêneros que refletem a sociedade e suas necessidades de consumo, ou busca de valores tais como: poder, fama, dinheiro e por aí a fora. Assim, hoje os mais procurados são os livros sobre conhecimentos econômicos ou, na outra ponta, os livros de auto-ajuda. A trajetória poética não é vista como receita para solução de problemas com retorno imediato. Não há, entre nós, a consciência da obra artística como essencial ao desenvolvimento cultural, educativo e espiritual, formas poderosas de transformação das sociedades pelo aprimoramento da visão de mundo de cada um. Não há nem mesmo o conhecimento do engajamento poético nas questões do cotidiano e que, entre nós, é muito visível em poetas como Carlos Drumond de Andrade, João Cabral de melo Neto, Ferreira Gullar e os poetas da MPB, aqueles reconhecidos como os poetas da música - Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil, Vinicius de Morais, e muitos outros em cujas obras a histórica política e social do Brasil pode ser reconhecida. É preciso urgentemente reparar esta ausência dos educadores no mundo sensível da poesia. Até para que não se chame qualquer rima de poesia.

B A L A I N H O — Um livro inesquecível pra você...
Yedda — É muito difícil citar um livro inesquecível... Mas alguns são inesquecíveis pra mim, entre muitos outros que se perderam no tempo. Na Literatura Infantil brasileira, Viagem ao Céu, de Monteiro Lobato. Na Literatura juvenil universal, As Viagens de Gulliver, Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne, As Mil e Uma Noites e muitos outros. Entre os livros inesquecíveis, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, David Coperfield, de Dickens, Guerra e Paz, de Tolstói. Na poesia, O Eu Profundo e outros eus, de Fernando Pessoa, Viagem e Vaga Música, de Cecília Meireles, Sentimento do Mundo e Amar se Aprende Amando, para citar alguns, porque na poesia há os poemas dispersos em muitos livros de vários autores o que dificulta a citação.