O Armazém Literário

Tânia Piacentini
Graduada em Letras (UFSC)
Doutora em Educação (UNICAMP)
Leitura em voz alta

Desde muito cedo, emprestamos às imagens que vemos o significado que elas têm para nós e construímos com palavras, pronunciadas ou não, a história que elas nos contam. Construímos uma narrativa para desenhos, imagens da propaganda, cartuns, quadros, natureza, cenas familiares. Lemos as imagens e emprestamos à história a nossa voz e o nosso vocabulário, antes mesmo de aprendermos a ler as letras e dominarmos todos os seus sons. Cada um de nós vivencia essa experiência que nos parece única, quando, na verdade, repetimos, em cada nova fase, a história de toda a humanidade. Desde que o mundo é mundo e o homem disso se deu conta, ele está lendo as luzes do dia e da noite, o movimento, as cores e as formas das nuvens e das estrelas, os rastros dos animais reais na terra e dos quiméricos movimentados no céu numa seqüência orquestrada com a ajuda do vento e da luz, a chuva que vem... Depois do livro da natureza, outros livros vieram, agora escritos e sempre lidos pelo homem: os desenhos nas paredes das cavernas, as marcas nas pedras à beira do mar, os sinais indicativos de caminhos, as incisões nas tabuletas de cera e de argila, as letras nos rolos de papiro, nos códices de pergaminho ou de velino, nas folhas de papel, na tela do computador.
A leitura da palavra é apenas uma das formas de exercitar, ampliando ou restringindo, uma função comum a todos os seres humanos, a função de leitor, mas adquiriu com o evoluir da civilização, uma importância social e política ainda não superada. Com a invenção da imprensa, na metade do século XV, ampliaram-se as possibilidades de difusão da cultura escrita, as oportunidades de intercâmbio e de enriquecimento com as mesclas e as novas criações. Aceleraram-se, também, as mudanças nas formas de ler, da aprendizagem ao uso do conteúdo lido, dos dogmatismos na entrega do texto à liberdade da autoridade de leitor individual.
É inegável que a leitura silenciosa concede ao leitor o pleno domínio de seus direitos e a integral liberdade inerente ao ato de ler, mas penso nas vantagens da revalorização da leitura em voz alta, em situações especiais. A leitura em voz alta tem uma longa história, dos mosteiros às reuniões laicas da Idade Média para ouvir o texto recitado ou lido, o raro livro emprestado pelo senhor rico e alfabetizado; das leituras públicas nas cortes e mesmo em casas menos nobres para familiares e amigos, com a finalidade de instrução ou de entretenimento, às leituras por um leitor especialmente contratado nas fábricas de charutos de Cuba, no século 19, durante o horário de trabalho, citando só alguns exemplos.
Quando falo de situações especiais em que a audição de textos poderia ser uma experiência gratificante, não estou me referindo ao recital nem á leitura pelo autor ou por atores, tampouco a ouvir narrações ou poesias gravadas em fitas cassete ou em cds, sem desmerecer o valor e a qualidade dessas modalidades de leitura em voz alta. Estou pensando na simples leitura feita à cabeceira da cama de uma criança, de um idoso, de uma pessoa doente hospitalizada ou não, no centro de uma enfermaria, numa roda de crianças num jardim, junto a um grupo de mulheres que bordam, costuram ou fazem rendas (o único som permitido, além da voz do leitor, seria a música dos bilros), na sala de visitas de um asilo, nas bibliotecas... Em qualquer lugar silencioso e calmo em que houvesse três desejos comuns: o de uma pessoa querendo ler, uma ou mais pessoas disponíveis para ouvir, uma bela história a ser compartilhada. O leitor prepararia sua leitura, observando a pontuação (as vírgulas, os pontos, as exclamações são indicações do ritmo e da melodia na página-partitura), acrescentando sua sensibilidade às palavras escolhidas pelo escritor para tecer o texto. O ouvinte emprestaria a essas imagens sonoras um significado, participante ativo do ritual onde uma história adquire identidade e existência especiais no tempo e no espaço.