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Linguagem para os tempos de agora
Outras escrituras de LobatoMaria Salete Daros de Souza Mestre em Literatura Professora da Fundação Educacional de Brusque (FEBE/CESBE) e-mail: dsouza@unetvale.com.br O primeiro ano de um século que marca a desconstrução político-social do
planeta acena para a necessidade do diálogo, da interlocução e para o lugar que as
diferentes vozes culturais precisam ocupar.
Instigados que somos pela emergência das culturas e das identidades múltiplas e,
sobretudo, pelo caráter de urgência que configura esse entendimento nos momentos atuais,
cabe buscar na linguagem amparo para uma reflexão desse teor. De certa forma, as teorias
contemporâneas da linguagem e da literatura têm rica contribuição a dar.
Mikhail Bakhtin, Umberto Eco, Roland Barthes, Terry Eagleton, para citar apenas
alguns, fizeram n(d) os seus escritos reflexões consistentes a respeito dos lugares dos
discursos e da literatura, da orquestração das vozes, da abertura das obras, enfim,
propuseram a remodelação, o deslocamento e o entrecruzamento das falas e do conhecimento.
Assim, nessa trilha, falemos da renovação do texto que propõe Luciana Sandroni em
Minhas memórias de Lobato, contadas por Emília, marquesa de Rabicó e pelo Visconde
de Sabugosa.
Cabe aqui, a propósito de Lobato (tema pertinente, tendo em vista o ressurgimento
do autor e obra nas manhãs da TV, e em artigos de revistas e jornais), uma reflexão sobre
intertexto, modalidade lingüística que dialoga, no caso de Luciana Sandroni, com pesquisa,
aspectos biográficos e universo ficional, produzindo talvez o "deslocamento" de que fala Barthes.
Desacomodados dos lugares em que foram cristalizados pela história literária, pela
literatura e pelo biografismo, movimentam-se as figuras ficionais no texto de Sandroni
por espaços diferenciados. Relativizados os papéis pela voz narrativa, e mantido o perfil
das personagens, surge uma história nova, um gênero distinto, a partir das histórias
lobatianas. No gênero que surge evidencia-se o biografado: José Renato Monteiro Lobato,
transformado por opção e decisão pessoais em José Bento Monteiro Lobato.
A proposta de metaprodução literária, em que resulta o trabalho em questão, desvenda
o processo de criação autoral. Não sem que algumas perplexidades da boneca Emília façam
incursões em teorias literárias, pontuando com gracejo a tentativa de entendimento do que
venha a ser autor e autor criador, examinados na teoria bakhtiniana pelo princípio da
exotopia. Na fala da boneca e na simplificação fica bem mais palpável a teoria:
Se o fio que o leitor tenta amarrar ao final da leitura de Minhas memórias de
Lobato confirma a hipótese inicial de paráfrase de Memórias da Emília, as incursões
que faz a narradora são por vias variadas. Assim, a gênese literária das personagens
lobatianas ganha corpo na interlocução que estabelecem Emília e Visconde no novo universo
ficcional de Luciana Sandroni. Personagens a quem a autora reserva agora os papéis de
autores criadores de Minhas memórias de Lobato (edição revival da parceria
lobatiana anteriormente estabelecida em Memórias da Emília), a boneca e o sabugo
de milho revisitam sua origem literária:
Ao parafrasear Memórias da Emília, a autora cria um universo
fantástico-realista em que excede a paráfrase (porque cria um gênero diverso do
parafraseado), desvela a vida do escritor e do cidadão Monteiro Lobato e desvenda
o desejo lobatiano de escrever suas próprias memórias contadas pela personagem Visconde
de Sabugosa:
Interessante recurso esse, o do intertexto, em que a criatura conta seu criador e
que, ao fazê-lo, vale-se do universo ficcional por ele criado. É no Sítio do Pica-pau
Amarelo, com intervenções esporádicas de tia Nastácia e de Dona Benta, que Emília e
Visconde exercitam e
Talvez esse expediente, o da intertextualidade, associado aos apelos mais recentes,
possa criar circunstâncias novas para proceder a interlocução, para buscar no ambiente
acadêmico, vestidas com a roupagem do colóquio, novas vozes para produzir escrituras
novas. Nesse sentido, fica a sugestão de leitura.
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