Ler não éuma experiência didática
Luiz Antônio Aguiar
Escritor de literatura infantil e juvenil Diretor-Presidente da AEI-LIJ Rio de Janeiro Talvez soe um tanto agressivo, ou chocante (mas a intenção não é uma nem outra) começar este artigo afirmando: Ler não é uma experiência didática. Ou melhor dizendo, didatizável. Nem educativa.
Ler (literatura) de verdade, não.
O espírito ganha com a fruição estética. A inteligência, a capacidade de lidar com o mundo e recriá-lo, ganha tanto com o confronto com a experiência alheia (os personagens, o que oferece de ambientação e peripécias o enredo, por exemplo) quanto com essa deliciosa relativização do que chamamos de realidade que só a ficção pode proporcionar. E o ser ganha, amadurece, porque ler, envolver-se é uma experiência existencial que se dá à flor da pele, em inúmeros momentos, e alevantando a dois palmos do chão, sem sentir, desligado do entorno — quando não estragam o melhor da coisa.
E é lamentavelmente fácil estragar. Basta, por exemplo, confundir literatura com matéria didática. Basta perguntar, diante de um livro: qual o objetivo a que pode servir esta obra? O que o meu aluno pode aprender, lendo isso, além de... Ora!... divertir-se com uma boa história, personagens comoventes, carismáticos, texto saboroso... Etecétera. Etecétera.
Literatura é avessa a fundamentalismos. Como muita coisa na vida, inclusive, a própria inteligência humana. Assim como o que começa com o objetivo traçado de chegar a um lugar determinado é daninho ao que deveria se lançar para ir se refazendo no caminho, refazendo o caminho e quem caminha, e surpreender ao chegar... ou não chegar; porque não tem que chegar, nunca teve... (Mas o percurso foi tão bom, tão lindo! Tão vivido!)...
Graças a uma ampla rede de ações, governamentais e não-governamentais, os livros começam a chegar à escola, neste nosso país, e isso é maravilhoso. É um passo crucial para reverter a exclusão histórica da imensa maioria da nossa população. Mas, se o objeto, o livro, está começando a chegar, sua alma, a literatura, ainda mal foi vislumbrada na escola. Porque, em sua grande parte, a instituição escolar não está preparada para lidar com esse bicho estranho.
Exemplo prático.... No milênio que se extinguiu, dei uma oficina de redação e leitura na Casa da Leitura, Rio de Janeiro, sede do Proler, cujo público era majoritariamente constituído de normalistas. Numa das sessões, lemos uma seleção de poemas de Manuel Bandeira, meu poeta do coração, todos sobre a morte. A partir da leitura, começamos a discutir como cada poema radicalizava as colocações do anterior, como o sentimento da morte, uma morte lírica, ia se impregnando em cada um de nós à medida que relíamos os poemas, e o que ficou em cada um dessa leitura. Em nenhum momento minha leitura prevaleceu sobre a de ninguém, nem uma teoria literária qualquer foi eleita como instrumental superior para autopsiar os poemas; o que valia era a impressão, a angústia, os insights. E isso não há como hierarquizar entre aluno e professor.
O curioso foi que, embora tenham estado muito envolvidos na leitura e na fruição dos poemas, como também nas confrontações que cada leitura individual proporcionava, nenhum deles reconheceu esse tipo de aula como uma aula de literatura. Daí, perguntei (mas se tivesse feito um esforço para me lembrar de meus tempos de estudante, nem precisaria perguntar) o que eles tinham no colégio à guisa de aula de literatura. Responderam: "tem aquelas características dos estilos de época, das escolas literárias, as obras de cada autor, quando ele as escreveu, aí decoramos tudo e..." Só então me dei conta de que nem eu nem eles nunca tivemos uma aula de literatura, e sim aulas de história da literatura. Nunca tivemos o privilégio de uma leitura instigante e sensível, assistida por um especialista em literatura, no colégio (e mesmo meu mestrado em literatura, quando penso, percebo que foi o período em minha vida em que menos li poesia e ficção; li quase somente teoria). Nunca nossa vida e nossa visão de mundo foram confrontadas, no colégio, com um belo romance ou um poema. E, no entanto, é isso que acontece na vida leitora, não é? Não é essa a ligação maior — fruição e descoberta, prazer e mudança — do indivíduo com os livros? Como se quer formar leitores, subtraindo-se o que o livro tem de melhor, de mais humanizador, divinamente humanizador: a literatura?
Isso é que é o estranho, em literatura, o diferente e o dessemelhante da matéria curricular. É algo que não pode ser oferecido ao aluno dentro das molduras pedagógicas, que está dentro da escola, mas que lá deve obter espaço e vivência autônoma. Que não pode ser encarado como recurso pedagógico para ensinar o programa, mascarando um ainda incipiente engajamento da instituição escolar na difusão da leitura. Literatura não é para ensinar. Literatura não é para ser submetida a parâmetros didáticos. Literatura não é para... É uma experiência em si. E não é uma disciplina; em muitos aspectos é o domínio da indisciplina. Na verdade, pouco se sabe do que a literatura é. Mas quem gosta de ler, sabe o que ler representa.
Pessoas que amam ler, para quem ler é imprescindível e que não viveriam num mundo privado da literatura, não aceitam contaminar suas próprias leituras com pedágios (Ah é, vai se divertir? Vai rir e vai chorar? Vai se incorporar à história ou num personagem? Então, pague por isso! Aprenda alguma coisa, que assim a leitura tem serventia; e depois vamos cobrar, avaliar, para saber se você leu mesmo e se leu certo). Nem fariam esse mal-maléfico a ninguém. Elas são possuídas de uma paixão que querem propiciar a outras pessoas. E são professores com esse perfil, que amam ler, que deveriam ser selecionados e qualificados (treinados e pós-treinados, e remunerados à altura) para levar literatura às escolas. Daí é que começa uma coisa que não estaria condenada ao nascer, por culpa do método do parto e da amamentação inadequada. Segundo provas estatísticas, nas escolas, os meninos começam a antagonizar leitura a partir da 5ª série, justamente quando privam a leitura de ludicidade, e daí em diante irreversivelmente até se perder o leitor; é caso raro um garoto submetido à leitura escolar ortodoxa que fora da escola leia, espontaneamente, ou que, em adulto, tenha uma estante de livros em sua casa: tem algo errado ou não?
Ou seja, na escola, o sujeito ou pega paixão pela leitura,ou não aprende a gostar de ler...
Ou é a coisa sem fim (final, objetivo) ou é nada. Ou é nada ou é o que se vivencia nos meandros dessa mágica relação de um leitor com o seu livro.
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