Histórias pra boi acordar

Eloí Elisabet Bocheco

Vaca fumê, vá cachimbá!


Certa vez uma camponesa tava lavando roupas num lugar longe de casa. Antigamente não havia água encanada no campo, então, as pessoas tinham que lavar as roupas nos rios, córregos, bicas d'água que, às vezes, ficavam bem distantes das casas.
Algumas roupas do filho e do marido da camponesa eram bem encardidas, com aquela sujeira pegada que não sai só esfregando com água e sabão, de modo que ela botou essas roupas pra ferver num caldeirão, pois gostava de deixar tudo muito alvo, cheirando a limpeza.
Ela tava mexendo a roupa do caldeirão com uma pá de madeira e pensando que já tava no tempo de colher as abóboras. Bem perto do lugar onde ela tava fervendo a roupa havia um lajeado. De dentro do lajeado surgiu uma vaca fumê e enveredou pro lado da camponesa. Ela botou a pá de madeira de prontidão para a investida, mas a vaca não investiu contra a camponesa e foi pra perto do fogo secar o pêlo.
O varal tava cheio de roupas. A vaca viu e arreganhou seus luminosos dentes. Em algumas passadas, comeu toda a roupa do varal, menos as meias, que achava indigestas.
A camponesa avançou na vaca com a pá de madeira e gritou: ah, vaca fumê, vá cachimbá formiga, em vez de comer as roupas do meu varal!
Então a vaca engoliu a camponesa e a pá de madeira. A pá de madeira era muito incômoda e a camponesa tinha muito cabelo — a vaca achou — e largou boca a fora a camponesa e a pá no meio do gramado.
A camponesa, de passagem pela barriga da vaca, tentou puxar algumas roupas, a camisa do marido, a calça de brim do filho, a saia de algodão dela, mas tava tudo tão imprensado no bucho da vaca que não deu para arrancar nada. E ela ficou mesmo só com as roupas que estavam fervendo no caldeirão.
No caldeirão, ou nos caldeirões?! A camponesa olhou e viu dois caldeirões. Dois lajeados, não era possível! Dois tanques de lavar: um já era bastante sacrifício, dois era de amargar! Duas cercas de arame. Dois pés de pitanga... O que significava aquilo?
Ela foi correndo pra casa lavar os olhos em água de rosas. Em casa: tudo dobrado. Na varanda: dois maridos, com defeitos em dobro. Isso já era demais! Entrou no quarto: dois filhos. Na cozinha: dois gatos, dois fogões, duas pias (cheias de louça pra lavar), duas panelas de feijão cozinhando. Lá fora: dois pilões de socar o milho, duas vacas para tirar o leite...
— Só pode ser coisa daquela vaca — ela disse aos dois vasos de gerânios que, pela manhã, não eram dois, e foi ao lajeado falar com a vaca fumê. A vaca ouviu com um ouvido e esqueceu com o outro tudo o que a camponesa contou sobre as coisas que via em dobro. Irada, a camponesa ameaçou bater na vaca com a pá de madeira se esta não lhe desse atenção. Então a vaca deu atenção: deu uma bocada certeira e engoliu a camponesa.
Entre tripas e trapos de roupas na barriga da vaca, a camponesa exclamou: como eu ia enxergar direito, se deixei meus óculos de grau no bucho dessa vaca? Botou os óculos e pediu pra sair que tava ficando com falta de ar. A vaca ouviu com os dois ouvidos e disse:
— Se você não tivesse essa cabeleira sem fim, eu deixava você aí pra sempre e plof, largou a camponesa perto de uma árvore que tinha um galho caído. Foi-se embora pra outro lajeado, a vaca fumê, e, desde então, nunca mais foi vista.