Miopia intencional

comentário do escritor Silvério Ribeiro da Costa sobre o livro
Esses duendes tão míopes
de Wilson Gelbeck
Editora Letra d'Água - Joinville SC

ESSES DUENDES TÃO MÍOPES, do paulista, radicado em Santa Catarina, Wilson Gelbecke, tem tudo para conquistar, não só a garotada, mas também os adultos. Trata-se de um livro que fala de Pedro, um menino que vai passar as férias escolares no sítio dos avós e acaba por se envolver numa aventura fantástica!...
Wilson Gelbecke conseguiu amarrar o início do livro ao seu final, deixando que os leitores decifrem se, efetivamente, Pedro esteve na cidade dos duendes, ou se tudo não passou de um sonho, enquanto esteve fora do ar.
Esses duendes tão míopes é uma fábula que tem como pano de fundo a cidadela de Mióptica, em cuja periferia vegetam os excluídos. É um livro que faz lembrar, quanto à temática, o Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, já que os míopes de Mióptica não o são dos olhos, mas da razão, ou seja, são portadores da miopia da consciência. Eles não querem ver porque não lhes convém.
O autor vale-se da mitologia e da alegoria para, através de situações análogas, mostrar as mazelas de uma sociedade injusta com a qual convivemos diuturnamente. Mostra como os interesses pessoais se sobrepõem aos interesses maiores, que beneficiariam a todos, indistintamente, e cita a lenda mitológica de Pênia, a pobreza, que se relaciona com Poros, o recurso, gerando Eros, o amor, que seria o princípio da Fraternidade, justamente o que está faltando no seio dos nossos governantes e dos cidadãos mais abastados de nossa sociedade.
Os duendes, de Wilson Gelbecke, portanto, não podem nem devem ser vistos como meros espectros ou seres ficcionais, mas como símbolos de um mundo fracassado, que é o nosso, o mundo dos homens que perderam a inocência e a luz, trocando o simples pelas sombras do Estígio, por onde navegam.